Religião

11/06/2021 | domtotal.com

Os 'neojansenistas' católicos do Brasil

Até que ponto eles são uma ameaça para o catolicismo?

Grupos instrumentalizam o catolicismo em nome de uma 'tradição' que deixou de ser católica faz tempo
Grupos instrumentalizam o catolicismo em nome de uma 'tradição' que deixou de ser católica faz tempo (Pixabay)

Mirticeli Medeiros*

O Brasil não é para amadores. Quantas vezes essa expressão nos rendeu boas gargalhadas, não é mesmo? Porém, seria mais divertido se não fosse real. E como meu foco aqui é outro, cito a frase sem pensar em política, mas no catolicismo 'neojansenista', importado da terra do Tio Sam, que armou sua tenda por aqui.

O jansenismo não foi só um movimento teológico, cujo propagador foi enquadrado como herege pela Inquisição no século 17. Os adeptos dessa doutrina - também cultural e política, a partir do século 18 -, grosso modo, questionavam a autoridade papal e se opunham às reformas da Igreja. Além disso, para sustentar suas ideias, contavam com apoio de autoridades políticas. Tal aliança transformou o movimento numa espécie de "partido", que se propagou em toda a Europa naquela época.

Para a Igreja Católica, em particular, a separação entre o papado e a religião é algo inconcebível. Não existe sequer comunidade de fiéis sem uma autoridade máxima que a congregue. A Santa Sé, quando o Papa morre, muda até de bandeira. A eleição do sumo pontífice é convocada imediatamente, para garantir a entronização de um substituto. É ele quem confirma os fiéis na doutrina. O único que tem o "poder das chaves", em alusão à autoridade concedida por Jesus a Pedro, para conectar o céu à terra através das suas decisões em matéria de fé. É nisso que o catolicismo acredita.

O que entra em questão nem é o conservadorismo católico em si. Até porque, no Brasil, ele assumiu outras roupagens ao longo da história. Basta nos recordarmos dos carismáticos dos anos 90, que embora fossem considerados radicais demais por alguns setores da Igreja, encarnavam a obediência ao Papa como um valor inegociável. Hoje, alguns deles, influenciados por certos gurus religiosos, acabaram embarcando na onda do "catolicismo, sim; Francisco, não".

Há uma contradição enorme em voga. São justamente os "super católicos" os mais anticristãos, antitradição e antipapais da atualidade. De repente, levantou-se uma "legião romana", proprietária de uma Roma constantiniana – cujo papa é um mero detalhe. Para eles, "Bergoglio" não passa de um charlatão eleito por um conclave falso. 

Os discursos do pontífice perderam audiência para os "mestres" que organizam cursos repletos de devaneios doutrinais. Dizeres como "missa de sempre" e "concílio sem autoridade" entraram para o libellus ideológico daqueles que militam em prol de uma igreja renascentista, que está completamente alheia aos desafios e anseios da atualidade.

Francisco, o papa reinante – para a tristeza dos membros desses grupos – acompanha de perto todos esses desdobramentos. E já estuda meios para frear a ação de alguns desses tradicionalistas.

Restringir a missa tridentina – a forma extraordinária do rito romano, celebrado em latim, com o padre de costas (ad orientem) – poderá ser uma das respostas mais concretas do santo padre. Ele se preocupa com o quanto a celebração foi instrumentalizada por alguns grupos, que a transformaram numa espécie de "super rito" frente aos demais. Uma interpretação completamente descabida e equivocada, já que o catolicismo se formou em torno de uma variedade de ritos. O próprio rito latino (ocidental) traz, em si, a marca dessa diversidade. 

Para se ter uma ideia, há fiéis, no Brasil, que se recusam a participar da missa ordinária, fruto do Concílio Vaticano II da década de 1960, por considerarem-na um símbolo da "devastação modernista", como gostam de dizer.

Bento XVI, que foi quem estendeu o uso da missa tridentina para toda a Igreja, em 2007, não pretendia, com isso, criar "um clã" dos amantes da missa em latim, mas dar a possibilidade aos católicos de ter contato com outra parte da tradição litúrgica ocidental, que sofreu várias adaptações ao longo dos séculos.

Alguns desses 'neojasenistas', que participam dessas missas não por devoção, mas para contrapor um modelo de Igreja que eles julgam ser o menos adequado, estão tremendo nas bases. Não suportam a ideia de um papa católico, cujo lema é "pluralidade na unidade". Querem uma confraria religiosa, com seus ritos, práticas próprias e membros vestidos a rigor, não uma igreja.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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