Religião

11/06/2021 | domtotal.com

Coração de Jesus: fonte de vida em abundância

Cristo rompe o muro da fraternidade restrita na revolução do amor

Vitral do Sagrado Coração de Jesus em sua aparição à Santa Margarida Maria
Vitral do Sagrado Coração de Jesus em sua aparição à Santa Margarida Maria (Pixabay)

Luís Corrêa Lima*

Na sexta-feira, oito dias após o Corpus Christi, a Igreja Católica celebra a solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Além da missa, há várias outras formas de devoção ao Coração de Cristo, que é uma das expressões mais difundidas e amadas da piedade popular. A palavra coração refere-se à pessoa no seu núcleo mais íntimo, o centro de sua liberdade e de seu afeto. É portadora de um imenso conteúdo, pois não há palavra mais direta para apontar o amor que coração. Na Sagrada Escritura, fala-se em substituir o coração de pedra por um coração novo, em amar a Deus com todo o coração. Por sua encarnação, o Cristo, filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada ser humano. Ele trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Jesus Cristo é Deus entre os homens e o Filho do Homem diante de Deus.

Ele se apresenta como mestre "manso e humilde de Coração" (Mt 11,29). A devoção ao Coração de Jesus é a tradução, em termos cultuais, do olhar de todas as gerações cristãs para aquele que foi perfurado pela lança, segundo as palavras do evangelista e do profeta (Jo 19,27; Zc 12,10). Do lado do peito de Cristo, atravessado pela lança, brotou sangue e água, símbolos do batismo e da eucaristia. Na ressurreição, ao encontrar-se com seus discípulos, ele mostra em suas mãos a marca dos cravos; e ao lado do peito, a marca da lança. E convida o incrédulo Tomé a estender a mão e a tocá-los (Jo 20,27). Tal convite teve um influxo notável na origem e no desenvolvimento da devoção ao Sagrado Coração.

Estes textos foram inspiração de assídua contemplação por parte dos santos, que convidaram os fiéis a entrar no mistério de Cristo pela porta aberta do seu lado transpassado. Na Idade Média, São Bernardo, São Boaventura e Santa Catarina de Sena aprofundaram o mistério do Coração de Cristo, no qual encontraram acolhimento, misericórdia e a fonte do amor infinito do Senhor.  No Brasil, um dos precursores desta devoção é São José de Anchieta, intitulado o Apóstolo do Brasil. Em meados de 1563, ele esteve na praia de Iperoig (Ubatuba/SP) como refém dos índios Tamoios. Anchieta tinha 29 anos de idade e, naquele momento, sua sobrevivência era incerta. Ele compôs então um imenso poema dedicado à Virgem Maria, com quase 6 mil versos, contendo também dos mais antigos hinos ao Sagrado Coração de Jesus. Assim começa o hino:

"Ó Coração Sagrado,
não foi o ferro de uma lança que te abriu,
mas sim o teu apaixonado amor por nós"!

Um século depois, esta piedade teve novo desenvolvimento. Na França, no momento em que o jansenismo proclamava os rigores da justiça divina em uma salvação oferecida apenas a poucos, a devoção ao Coração de Cristo foi um antídoto para suscitar nos fiéis o amor ao Senhor e a confiança na sua infinita misericórdia, da qual o Coração é um símbolo poderoso. Esta devoção se tornou uma celebração litúrgica.

Convém ressaltar que a Revelação divina não é a transmissão de uma letra morta, mas é a manifestação do Verbo encarnado e vivo. É Deus que se autocomunica ao ser humano num encontro pessoal. Cristo rompe o muro da fraternidade restrita na revolução do amor. A redenção é universal. A filiação divina é vocação humana universal. A fraternidade tem alcance universal. Daí a importância de um símbolo capaz de exprimir esta realidade tão grandiosa.

Em consonância com a espiritualidade do Sagrado Coração, mesmo sem dizer explicitamente, está a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021, com seu lema "Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade". É alusão à Carta aos Efésios (2,14), onde se menciona o muro no pátio do Templo de Jerusalém que separava judeus e gentios. O texto-base da Campanha exorta a viver a fé em Cristo trilhando caminhos de coexistência em sociedades divididas por muros de intolerância. Afirmar que Ele é a nossa paz é repudiar o ódio, a discriminação, a violência e o racismo. Aí se menciona a cultura de violência contra mulheres, pessoas negras, indígenas e pessoas LGBTQI+.

Viver segundo o coração de Jesus é uma graça reconfortante e um desafio permanente. Cabe pedir com fé, conforme a ladainha: "Jesus, manso e humilde de coração, fazei nosso coração semelhante ao vosso".

*Luís Corrêa Lima é sacerdote jesuíta, historiador e professor da PUC-Rio.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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