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11/06/2021 | domtotal.com

Contagem final dá vitória a Castillo, mas resultado oficial aguarda reavaliação

Keiko Fujimori questiona validade de 0,7% dos votos, o que pode alterar a eleição

Apoiadores de Pedro Castillo saem às ruas para comemorar a vitória do candidato, com resultado ainda em suspenso
Apoiadores de Pedro Castillo saem às ruas para comemorar a vitória do candidato, com resultado ainda em suspenso (Luka Gonsalez/AFP)

A apuração do segundo turno da eleição no Peru terminou na noite de quinta-feira (10), com o candidato da esquerda Pedro Castillo com 50,2% dos votos contra 49,8% da conservadora Keiko Fujimori - uma diferença de 68 mil votos, ou 0,4 ponto porcentual.

O resultado final ainda não foi declarado pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe, em espanhol), porque cerca de 0,7% dos votos serão reavaliados. Como a cédula, no Peru, é de papel, pode haver alguma rasura ou dado incorreto nesses votos. Pelo fato de a margem de Castillo ser muito estreita, uma mudança nesse porcentual ainda poderia alterar o resultado da eleição.

Agora, os delegados eleitorais do Onpe reavaliarão esses 0,7% cédulas com problemas, voto a voto, para determinar se eles podem ser computados ou não. O processo pode levar até 10 dias. Nessa categoria entram votos incompletos, sem dados, impugnados ou rasurados. Em paralelo, Keiko pede anulação de cerca de 200 mil votos, sob a alegação de fraudes. O primeiro pedido, na província de Cajamarca, foi invalidado por autoridades eleitorais.

A apuração levou quatro dias para ser concluída e os votos que garantem, por enquanto, a estreita margem de Castillo vieram de áreas rurais e andinas. Os votos do exterior, em sua maioria pró-Keiko, não foram suficientes para alterar a vantagem do esquerdista.

Peru Livre é o partido de Castillo e Força Popular, o de Keiko. A candidata conservadora, que tem apoio da elite, anunciou que solicitaria a anulação de 802 urnas ao Júri Nacional Eleitoral (JNE). O anúncio foi feito na noite de quarta-feira, quando o Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe) já tinha 99,1% dos votos contabilizados.

Depois dos questionamentos de 802 postos eleitorais por parte do Força Popular, o Peru Livre, partido de Castillo, fez acusações contra 209 locais de votação, de acordo com o jornal El Comércio.

Lisura e avaliação

Segundo o jornal El Comércio, o atual presidente do Peru, Francisco Sagasti, afirmou que, segundo o relatório das instituições responsáveis pelo processo eleitoral do segundo turno, este foi realizado de forma "ordeira, serena e sem contratempo que justifica usar uma palavra tão grande quanto fraude".

Essas eleições foram observadas por equipes da Organização dos Estados Americanos (OEA), da União Interamericana de Organizações Eleitorais (Uniore) e da organização civil Transparência Peru. Em seus respectivos relatórios, nenhum deles evoca indícios de fraude. A OEA parabenizou o Peru pela disputa em segundo turno, que a entidade considerou "transparente", segundo o chefe da missão da OEA, Rubén Ramírez.

Até 7 de junho, o Jurado Nacional de Eleições (JNE), que cuida da lisura do processo, havia registrado 148 ocorrências durante a votação, como propaganda ilegal, marcações a favor de candidatos nas cabines, eleitores que se recusaram a participar das assembleias de voto, entre outros. "Há incidentes que são relatados, mas que não significam fraude, de forma alguma", disse uma assessora de comunicação da JNE em 9 de junho, acrescentando: "Fraude é quando atos sistemáticos e premeditados têm efeito direto na votação, o que não existe".

Ainda com 99,9% dos votos processados, os Júris Especiais Eleitorais (JEE) continuaram a analisar 684 votos observados enviados pelo Onpe. Essas entidades, sessenta no total, decidem em primeira instância a validade desta ata. Até o momento, decidiram anular 134. Quanto ao pedido de anulação das 802 urnas, feito por Fujimori, cada registro será analisado por um JEE. A palavra final pertence ao JNE, que analisa as decisões do JEE e proclama o vencedor.

Lava Jato

Na quinta, o Ministério Público do Peru pediu a prisão de Keiko, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, pediu sua prisão por violar medidas de liberdade condicional relativas aos processos que responde no desdobramento peruano da Operação Lava Jato. A candidata do Força Popular, que neste caso deverá ir a julgamento se não ganhar a presidência, passou um total de 16 meses em prisão preventiva, entre outubro de 2018 e maio de 2020.

Nos últimos quatro anos, a Operação Lava Jato teve desdobramentos no Peru e as investigações levaram a prisão de três ex-presidentes - Alejandro Toledo, Ollanta Humala e Pedro Pablo Kuczynski, além da própria Keiko. A crise política paralela à operação levou à queda de PPK, eleito em 2016, além de seu sucessor, Martín Viscarra.

Jogo internacional

Keiko celebrou a manifestação de um grupo de 17 líderes ibero-americanos que pediu para que o final do resultado eleitoral seja anunciado antes que alguém se declare eleito, tendo em vista as impugnações. Entre os 22 antigos chefes de Estado, estão o ex-presidente argentino Maurício Macri, o espanhol José María Aznar, o colombiano Álvaro Uribe e o mexicano Felipe Calderón.

Por outro lado, líderes da esquerda se manifestaram cumprimentando Castillo pela vitória, incluindo o presidente argentino, Alberto Fernández, os brasileiros Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Caos sanitário, econômico e político

O novo presidente assumirá um país em um momento político conturbado. Ao tomar posse em 28 de julho, será o quarto líder do Peru desde novembro. São necessárias medidas urgentes para superar a pandemia de Covid-19, a recessão econômica e a instabilidade política no Peru. O eleito terá ainda de além de lidar com um Congresso fragmentado, corrupção e má gestão pública.

A divisão geográfica e de classe desta vez ficou evidente na votação de domingo. Fujimori conquistou a capital Lima e as áreas costeiras do norte, enquanto Castillo conquistou as regiões andinas mais rurais, incluindo os distritos mineiros do sul do país. "O país está dividido ideologicamente em dois blocos", disse Jorge Montoya, deputado eleito pelo conservador Partido da Renovação Popular, em entrevista à TV.

Um país de 32 milhões de habitantes, o Peru está lutando contra uma crise econômica mais profunda do que qualquer outra grande economia das Américas. Quase 10% da população peruana está de volta para a pobreza após o início da pandemia. O impacto do coronavírus no país foi devastador. Na semana passada, o país anunciou que seu número de mortes por vírus foi quase o triplo do que havia sido relatado, elevando sua taxa de mortalidade per capita para a mais alta do mundo.

O sistema hospitalar ficou tão sobrecarregado pela pandemia que muitos morreram por falta de oxigênio, enquanto outros pagaram médicos por vagas em unidades de terapia intensiva - apenas para serem rejeitados em agonia.

"A pandemia mostrou que o problema subjacente era a ordem de prioridades", disse David Rivera, economista e cientista político peruano. "Supostamente, estávamos economizando dinheiro há muito tempo para usar em uma crise, e o que vimos durante a pandemia foi que a prioridade continuava a ser a estabilidade macroeconômica, e não impedir que as pessoas morressem e passassem fome".


AFP/Agência Estado/Dom Total



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