Brasil Política

11/06/2021 | domtotal.com

'Governo tentou produzir imunidade de rebanho a custo das vidas', diz Maierovitch

Médico sanitarista, junto à microbiologista Natalia Pasternak, confirmou a ineficácia da cloroquina e os erros do governo federal ao não tomar medidas efetivas contra a pandemia

O médico sanitarista Cláudio Maierovitch durante seu depoimento na CPI da Covid
O médico sanitarista Cláudio Maierovitch durante seu depoimento na CPI da Covid (Jefferson Rudy/Agência Senado)

Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid nesta sexta-feira (11), o médico sanitarista Cláudio Maierovitch afirmou que o governo federal investiu na tentativa de alcançar uma "imunidade de rebanho" contra Covid-19 através do "custo de vidas". Senadores da CPI investigam se o governo federal teria tentado alcançar a imunidade da população contra Covid-19 por meio da contaminação de pessoas.

Em crítica a este tipo de teoria o médico disse: "nós não somos rebanho, e não existe nenhum coletivo da palavra 'pessoa' ou 'gente' que seja traduzido como rebanho. Rebanho se aplica a animais, e fomos tratados dessa forma. Acredito que a população brasileira tem sido tratada dessa forma ao se tentar produzir imunidade de rebanho às custas de vidas humanas".

A microbiologista e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) Natalia Pasternak, que também participa do encontro do colegiado, afirmou, na mesma linha, que a única forma de combater a disseminação do novo coronavírus seria através da vacinação da população. A especialista criticou ainda a falta de adoção, por parte do governo federal, de medidas não farmacológicas - como o uso de máscara e distanciamento social - para conter a disseminação do vírus no país, defendendo que o Brasil nunca determinou um lockdown, uma medida que julgou para conter a crise sanitária.

Máscaras

Os especialistas convidados para falar à CPI da Covid reforçaram a necessidade de a população continuar usando máscaras de proteção contra a Covid-19, após o presidente Jair Bolsonaro pedir parecer do Ministério da Saúde para desobrigar o uso do equipamento por brasileiros já vacinados ou que já tenham contraído o vírus.

Natalia Pasternak afirmou que a eventual dispensa da máscara não deve se ater exclusivamente ao número de vacinados, mas à redução do número de casos e mortes provocadas pela Covid. O momento de relaxar as medidas de proteção ainda não chegou, alertou ela. "A recomendação do uso de máscara é essencial enquanto se continua observando número de casos e óbitos, que é preocupante. Só podemos deixar de usar quando grande porção da população estiver vacinada e quando a curva nos disser que isso é seguro. Não temos nem que olhar percentagem de vacinados, mas a curva da Covid", disse ela.

Pasternak criticou o fato de Bolsonaro estar levantando essa possibilidade agora. "Esse momento ainda não chegou. E quando tem o chefe da nação fingindo que esse momento chegou, isso confunde a população, não precisamos de uma população confusa", afirmou.

"Uma boa vacina é como um bom goleiro, pode ser muito boa, mas não é infalível, se tiver muita bola vindo pro gol, a probabilidade é maior de falhar", pontuou. "Problema é que temos um jogador que insiste em fazer gol contra", disse em seguida o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Cláudio Maierovitch destacou ainda que, enquanto uma "enorme parte da população" ainda não estiver vacinada, é preciso continuar tomando todos os cuidados de proteção, como o uso da máscara. Ele pontuou ainda que pessoas infectadas podem voltar a ter a doença e as já vacinadas podem contraí-la. O número de pessoas vacinadas com ao menos uma dose contra a Covid-19 no Brasil chegou nesta quinta-feira (10) a 52.790.945, o equivalente a 24,93% da população total. Considerando as pessoas que já tomaram as duas doses do imunizante, o país conta apenas com 11,11% da população atendida.

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Espanto

O médico sanitarista Cláudio Maierovitch criticou o comportamento de colegas de profissão que integrariam o suposto "gabinete paralelo" de assessoria ao presidente Jair Bolsonaro em assuntos da pandemia. Sobre a médica Nise Yamaguchi, que à comissão negou fazer parte de um assessoramento paralelo, Maierovitch disse ter ficado "espantado". "Fui colega de faculdade. Sabendo da experiência anterior, agora assumindo posições e defesa de atitudes anticientíficas, eu estranhei muito", afirmou o sanitarista, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Sobre o virologista Paolo Zanotto, Maierovitch fez as mesmas considerações e ainda pontuou que, apesar de o médico opinar com frequência sobre tratamento precoce, essa não é a área de estudo de Zanotto. "Com todo respeito, ele é um biólogo, virologista, não foi formado para tratar pessoas", disse o médico. Ele ainda classificou o deputado e ex-ministro Osmar Terra (MDB-PR) como alguém hoje mais atuante na política do que na Medicina.

"Alguma coisa aconteceu, algum vírus provavelmente não biológico que acometeu pessoas que tinham trajetória importante, mas enveredaram em oposição ao conhecimento científico", afirmou Maierovitch.

Ele e a microbiologista Natalia Pasternak avaliaram que bons quadros técnicos hoje não estariam dispostos a trabalhar no governo Bolsonaro. "Muitos quadros técnicos que conheço não se disporiam a trabalhar. O que muitos falam é 'não vou sujar meu nome, meu currículo, trabalhando nesse meio'", disse o médico.

Maierovitch foi endossado por Pasternak. "É um meio negacionista. Muitos bons cientistas e técnicos não se sentem confortáveis de trabalhar em governo em que a ciência está sendo negada e atacada, os coloca em situação muito difícil", afirmou.

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Agência Estado/Dom Total



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