Religião

13/06/2021 | domtotal.com

O evangelho fala de fecundidade, não de esforço

Reflexão do Evangelho de Marcos 4,26-34

Jesus entende que a lei fundamental do crescimento humano não é o trabalho, mas sim o acolhimento da vida que vamos recebendo de Deus
Jesus entende que a lei fundamental do crescimento humano não é o trabalho, mas sim o acolhimento da vida que vamos recebendo de Deus (Unsplash/Artem Kniaz)

José Antonio Pagola*

Poucas parábolas podem causar maior rejeição na nossa cultura de desempenho, produtividade e eficácia do que esta pequena parábola em que Jesus compara o reino de Deus com esse misterioso crescimento da semente, que se produz sem a intervenção do semeador.

Esta parábola, tão esquecida hoje, destaca o contraste entre a espera paciente do semeador e o crescimento irresistível da semente. Enquanto o semeador dorme, a semente vai germinando e crescendo "ela só", sem a intervenção do agricultor e "sem que ele saiba como".

Habituados a valorizar quase exclusivamente a eficiência e a performance, esquecemo-nos de que o Evangelho fala de fecundidade, não de esforço, pois Jesus entende que a lei fundamental do crescimento humano não é o trabalho, mas sim o acolhimento da vida que vamos recebendo de Deus.

A sociedade atual empurra-nos com tal força para o trabalho, a atividade e o rendimento que já não percebemos até que ponto nos empobrecemos quando tudo se reduz ao trabalho e a ser eficazes.

De fato, a "lógica da eficácia" leva o homem contemporâneo a uma existência tensa e sobrecarregada, a uma deterioração crescente das suas relações com o mundo e as pessoas, a um esvaziamento interior e a essa "síndrome da imanência" (José María Rovira Belloso) em que Deus desaparece a pouco e pouco do horizonte da pessoa.

A vida não é só trabalho e produtividade, mas um presente de Deus que devemos acolher e desfrutar com coração agradecido. Para ser humana, a pessoa precisa aprender a estar na vida não só a partir de uma atitude produtiva, mas também contemplativa. A vida adquire uma nova e mais profunda dimensão quando conseguimos viver a experiência do amor gratuito, criativo e dinamizador de Deus.

Necessitamos aprender a viver mais atentos a tudo o que há de oferta na existência; despertar no nosso interior o agradecimento e o louvor; libertarmo-nos da pesada "lógica de eficácia" e abrir na nossa vida espaços para o gratuito.

Temos de agradecer a tantas pessoas que alegram a nossa vida, e não passar à margem de tantas paisagens feitas apenas para serem contempladas. Saboreia a vida como graça o que se deixa amar, o que se deixa surpreender pelo bom de cada dia, o que se deixa agraciar e abençoar por Deus.

*José Antonio Pagola é padre e tem dedicado a sua vida aos estudos bíblicos, nomeadamente à investigação sobre o Jesus histórico. Nascido em 1937, é licenciado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma (1962), licenciado em Sagradas Escrituras pelo Instituto Bíblico de Roma (1965), e diplomado em Ciências Bíblicas pela École Biblique de Jerusalém (1966). Professor no seminário de San Sebastián (Espanha) e na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha (sede de Vitória), foi também reitor do seminário diocesano de San Sebastián e vigário-geral da diocese de San Sebastián.



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