Cultura

14/06/2021 | domtotal.com

De música e violência

Estive pensando nisso e chequei à conclusão de que o velho sambista tem razão

A música clássica dos grandes mestres influenciou as elites e até mesmo a plebe
A música clássica dos grandes mestres influenciou as elites e até mesmo a plebe (Unsplash/Marius Masalar)

Afonso Barroso*

Ouvi de um sambista da velha guarda a teoria de que os rumos da música são os mesmos da violência que grassa nas grandes cidades do país. Dou-lhe a palavra: "No tempo do samba-canção, do bolero, do samba autêntico, do cha-cha-chá e até do rock romântico e das músicas do Luiz Gonzaga, do Roberto Carlos, do Chico, do Gil e do Caetano não havia tantas drogas pesadas. As que havia eram inofensivas, não levavam ao caos em que mergulhamos".

Estive pensando nisso e chequei à conclusão de que a teoria do velho sambista faz sentido. Digamos que ele morou na filosofia, para usar a expressão de um samba antigo. Nos tempos a que ele se refere o comportamento da juventude era pacífico e onírico, as drogas, em forma de erva ou de LSD, não causavam mais do que alucinações inofensivas, pelo menos não aos outros.

Há inúmeros estudos sobre a influência da música na sociedade e no comportamento humano, coisa que acontece desde a antiguidade. Para citar um exemplo histórico mais próximo, basta lembrar como os romanos fizeram uso da música para fins bélicos. Foram eles que primeiro utilizaram a trombeta, de som metálico e estridente, para estimular os guerreiros e, ao mesmo tempo, atemorizar os inimigos. Ainda hoje temos o clarim e o chamado canto de guerra

A música clássica dos grandes mestres influenciou as elites e até mesmo a plebe. Estimulou o surgimento e o desenvolvimento da dança e da ópera. Dança sem música não existe, a não ser nos rituais dos povos indígenas, mas assim mesmo ao som de atabaques e cabaças, que não deixam de ser uma forma rudimentar de instrumentos musicais

Cá no nosso meio a música fez nascer o Teatro de Revista, que não sei por que recebeu esse nome. Graças à música também nasceram grupos como O Corpo, de beleza plástica incomparável em seus movimentos.

A música também invadiu os templos, tornando-se parte integrante dos ritos religiosos. Grandes compositores criaram as missas cantadas, com a sequência de Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei, todas de grande beleza melódica e harmônica. Eram uma forma de aproximar mais as pessoas de Deus.

Mas eis que um dia apareceu um arremedo de música do tipo bate-estaca e depois um tal de funk, que se tornou a música tosca dos MCs e da dança das "cachorras". E aí a moçada se entregou às drogas pesadas e também às armas. O que o sambista quis dizer é que esse tipo de música e dança tornou-se a trilha sonora da violência. Para ele, o funk é primo-irmão do crack. Há certa lógica nessa tese, que pode parecer meio retrógrada e radical, mas na verdade não é.

Sabendo-se que a música, ainda que pobre e desarmônica, tem forte influência na saúde mental das pessoas, especialmente as mais jovens e oriundas do segmento mais humilde da população, a que pode levar esse estilo falsamente musical sem melodia e sem conteúdo?

Queiramos ou não, há muito de sabedoria na filosofia do velho sambista.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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