Mundo

15/06/2021 | domtotal.com

O mundo não pode ser dominado pela tristeza

Às vezes, Deus nos manda anjos disfarçados para nos tirar da tristeza que submerge em nossas mentes e corações, nos impedindo de ver as coisas boas da vida e das pessoas

Praça da Estação, em Franca (SP) com o coreto e a pequena escultura do Spinaro: um menino sentado, com o pé em cima do joelho da outra perna, retirando espinhos da sola do pé. Imagem em bronze copiada de obra da Roma Antiga
Praça da Estação, em Franca (SP) com o coreto e a pequena escultura do Spinaro: um menino sentado, com o pé em cima do joelho da outra perna, retirando espinhos da sola do pé. Imagem em bronze copiada de obra da Roma Antiga (Márcio Maniglia Machado)

Lev Chaim*

Depois de meses de confronto com um mundo agressivo, quase incompreensível, com a pandemia de coronavírus por todo o planeta, às vezes, fica difícil encontrar o fio da meada que o leve de volta a uma alegria saudável. Eu já fui vacinado duas vezes, mas grande parte do mundo ainda vive o pesadelo desse vírus fatídico, caso não se tome precauções necessárias: vacinar, distância social, máscara e ouvir com cuidado os especialistas. 

Na Holanda, a vacinação vai de vento em polpa, mas esses avisos são constantes na boca dos dirigentes do país e na televisão, a fim de conscientizar o povo da necessidade dos tempos atuais e não menosprezar os perigos da pandemia.

Pois é, estava em casa, esperando o início do jogo Holanda e Ucrânia, para o campeonato europeu de futebol, quando meu cão latiu. Era o sinal de que a campainha da porta estava tocando. Desci e quando a abri, estava ali a amiga Jeanne, que logo disse que iria ficar alguns minutos antes do jogo, apenas para contar as novas do aluguel de seu novo apartamento. Ela estava alegre, contente e emocionada. De cara ela disse que a sua única irmã, apesar das duas já terem recebido as duas doses da vacina, não a recebia em sua casa. Lágrimas vieram aos olhos de Jeanne. Eu pude sentir a sua solidão, pois a minha também era grande. Mas ela se expressava facilmente sobre o assunto e até chorou.

Da tristeza, ela passou a narrar a sua última aventura na galeria da minha amiga Lilja Zakirova, uma russa casada com um holandês, que há anos mantém uma das mais importantes galerias de arte da nossa cidadezinha, Heusden. Ela estava agora preparando a montagem de uma exposição da grande artista russa, Tania Kandraciencka. Jeanne caminhava perto da porta da galeria quando viu Lilja pendurar um quadro de Tania na parede. Jeanne, com os olhos grudados na tela, emocionada com o que viu, disse-lhe "Quero este para o meu novo apartamento. Pode reservar para mim?".

Foi neste momento que Lilja disse que tratava-se de um quadro que a pintora russa fez da obra-prima da Roma Antiga, conhecida em todo o mundo como O Spinario – uma escultura de bronze de um menino, sentado, com um pé em cima do joelho da outra perna, tirando espinhos em baixo da sola do pé. Exatamente igual a figura da foto acima, na praça da Estação da cidade em que nasci, Franca, estado de São Paulo, ao lado do coreto de música. 

É uma figura em bronze, que conheço desde muito anos quando lá morava. Eu sempre me intriguei com a singeleza do garoto-estátua, todo compenetrado, sentado, retirando espinhos que haviam entrado em seu pé. Essa foto de Franca eu havia enviado a amiga dona da galeria, quando ela me respondeu toda eufórica: "Lev, é exatamente O Spinario que foi feito por esta grande pintora russa que vou expor em minha galeria". Quando a minha amiga Jeanne entrou na galeria e viu a tela sobre esta escultura, ela se encantou com tudo: com a cena trivial e singela do menino tirando espinhos do pé, com as cores fantásticas da tela e, talvez, uma das primeiras vezes que uma pintora transpõe para um quadro a imagem desta mundialmente famosa escultura.

Lilja contou a Jeanne sobre a foto que eu havia enviado a ela do Spinario da minha cidade de nascimento, Franca. Foi por isso que ela parou em frente a minha porta e tocou a campainha para contar as novidades, e perguntar se eu poderia enviar a ela, a mesma foto enviada a Lilja. A procura no meu arquivo de fotos do celular durou quase dez minutos, enquanto isto o futebol corria lá em cima, na sala de televisão. Mas, para dizer a verdade, essa visita inesperada, em vez de atrapalhar, só me fez bem. Foi um momento íntimo entre eu e aquela amiga, onde ela me contou coisas de sua vida e chorou muito. Foi aí que pensei: vou assistir só o segundo tempo do jogo. Agora, Jeanne necessita da minha atenção.

Quando pensei isso, estalou algo em minha cabeça e mudou tudo ali! Eu me senti importante ao ajudar uma amiga. Esqueci-me um pouco das tristezas ocorridas em nossa pequenina Heusden, aqui na Holanda, tais como a morte de um senhor conhecido meu, que enquanto passeava com o seu cãozinho em cima dos diques, caiu ribanceira abaixo, indo parar com a cabeça dentro d’água. Quando sua esposa me perguntou se havia visto o seu marido, eu também passeava com o meu cãozinho e disse que não. Aí ela acrescentou que fazia uma hora que o marido havia saído e não havia voltado. Eu disse a ela para ligar para os bombeiros que eles iriam procurá-lo. Dito e feito: o senhor voltou morto para casa.

Esse tipo de acontecimento, as histórias da pandemia em todo o mundo, a continuidade da agressividade geral e de todos e explorada de forma contínua pela imprensa marrom dos vários continentes, até parece que o mundo estava mesmo indo montanha abaixo. E eu me perguntava constantemente: e as coisas boas do mundo? E as belezas da natureza? E o lado bom das pessoas? A visita inesperada da Jeanne naquela noite foi como um sinal para mudar de estradas e descobrir que no mundo ainda havia coisas boas, coisas para serem trocadas e divididas com os amigos e com todo o mundo. 

Só depois que passei por WhatsApp a foto da pracinha da Estação de Franca, com o coreto e com a imagem do pequeno Spinaro, é que me dei conta de que, às vezes, Deus nos manda anjos da guarda disfarçados para nos tirar da tristeza que submerge em nossas mentes e corações nos impedindo de ver as coisas boas da vida e das pessoas. Eu fiquei contente, a Jeanne ficou contentíssima e vi o segundo tempo do jogo Holanda e Ucrânia, com o resultado de 3 a 2 para os holandeses. Obrigado, meu Deus!

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para do Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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