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15/06/2021 | domtotal.com

Projetos de engenharia de produção de água

Soluções tecnológicas relativamente simples podem trazer inúmeros benefícios

José Antonio de Sousa Neto
José Antonio de Sousa Neto (Reprodução Embrapa / Luciano Cordoval)

Gustavo Barros Paolinelli e Jose Antônio de Sousa Neto*

Nos últimos tempos, amplia-se no mundo a discussão sobre a importância das empresas retribuírem à sociedade parte de seus ganhos por meio de ações sociais ou da gestão de sustentabilidade ambiental, social ou econômica. Isso deriva do quadro de deterioração ambiental em que vivemos. É possível desenvolver projetos sustentáveis ambientalmente, tornando-os rentáveis, liderados principalmente por empreendedores da nova geração que encontram oportunidades de negócios e geração de valor no engajamento às grandes questões relacionadas à sustentabilidade.

Um bom planejamento dos fatores ambientais, econômicos e sociais pode levar à construção de estruturas que combinem fatores como atividades que geram valor pecuniário e não pecuniário de modo sustentável. Em outras palavras, sustentabilidade é compatível com a geração de valor econômico para os acionistas. Questões sociais, econômicas e ambientais impõem relevância à imagem pública institucional das empresas diante da sociedade e da comunidade internacional e, por isso, devem ser tratadas com importância nas suas formulações estratégicas.

Resultados econômicos gerados por projetos de engenharia de produção de água podem contribuir para a sustentabilidade ambiental. Aqui, como exemplo, gostaríamos de tratar do tema especificamente no contexto da conexão entre a engenharia civil e o agronegócio, especialmente no bioma do cerrado que tem um imenso potencial de contribuição para a segurança alimentar em uma perspectiva global.

Entre as alternativas tecnológicas disponíveis para serem aplicadas neste contexto, podemos mencionar as "barraginhas", que são um sistema de coleta de águas de chuva por meio de mini barragens (ou mini açudes) dispersas sucessivamente em áreas de enxurradas, detectadas especialmente em propriedades rurais. São escavações em torno de dois metros de profundidade, com 8 a 12 metros de largura, semicirculares, que funcionam como:

A característica marcante das barraginhas como modelo de sustentabilidade é comprovada pela recuperação de áreas degradadas, revitalização de matas, retorno de animais silvestres e principalmente pelo efeito de conscientização dos empresários e de seus vizinhos (Barros, 2000). As barraginhas apresentam resultados em declives considerados abaixo de 12%. As barraginhas apresentam uma capacidade de absorção de 90% do que capta pelas enxurradas provocadas pelas chuvas.

Para declives superiores a 12%, uma possibilidade é a utilização de curvas de nível com "cochos" sucessivos. A finalidade dessas curvas de nível é captar água das chuvas em encostas íngremes, em regiões serranas. A marcação das curvas em nível é realizada utilizando mangueira de pedreiro transparente com água para marcar os locais onde bater estacas a cada 15 metros, surgindo a orientação para a retroescavadeira poder abrir as valas e os cochos sucessivos das curvas programadas.

Luciano Cordoval de Barros, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) sugere o sistema de curvas de nível com cochos sucessivos de 8 a 10 metros de comprimento, por 2,5 m de largura, por um metro de profundidade, separados entre eles, por meio de um sulco de 3 a 5 metros de comprimento, por 40 centímetros de profundidade e por 60 cm de largura (Dassie, & Santos, 2007).

Projeto da Fazenda São Francisco, em Uberaba (MG)

O engenheiro agrônomo Marco Tulio Paolinelli, é o responsável pelo projeto de sustentabilidade ambiental e social cujo objetivo é aumentar a vazão do Rio Uberaba que compõe a bacia que atende à população da cidade de Uberaba, e que em tempo recente, chegou a secar.

O propósito do projeto que prevê a reabilitação das matas ciliares aos córregos afluentes do Rio Uberaba, a construção de barragens, que ele chama de "poções" interligadas por curvas de nível, no contexto da produção de água. O princípio dos "poções" é o mesmo das "barraginhas". Enquanto as barraginhas são construídas nos veios formados pelas encostas de dois morros, os "poções" são construídos em declives mais acentuados. O propósito em ambos os casos é o de construir escavações que funcionam para: a) depósitos de água nos declives onde fluem enxurradas; b) infiltração das águas ao subsolo, alimentando o lençol freático, c) evitar que as chuvas provoquem erosão com escorrimento rápido das águas; c) armazenarem a água durante o período chuvoso; e, d) servir como filtro de água para os mananciais. A água penetra no solo, abastece o lençol freático e nascentes a jusante, conserva umidade no solo por longo período.

O projeto na fazenda São Francisco é registrado sob o nome de Águas Perenes, que atende bem ao objetivo do empreendimento, mas tem o codinome de Fábrica de Águas, que vem bem a calhar devido à quantidade de barragens por área. Contudo, o projeto não está centrado somente nas barragens, mas também no investimento em curvas de níveis, na recomposição das matas naturais ciliares e na educação ambiental, por meio de seu Instituto Agronelli. Esse projeto tem um caráter ambiental, com reflexo na sociedade.

Projeto Águas PerenesProjeto Águas Perenes

O projeto prevê curvas de nível com cochos sucessivos de 10 a 14 metros de comprimento, por 3 metros de largura, com um metro de profundidade, separados entre eles, por meio de um sulco de 3 a 5 metros de comprimento, por 40 centímetros de profundidade e por 60 centímetros de largura.

O projeto inicial em 110 hectares, dentro dos quais foi feito um plantio imediato de 30 hectares com eucalipto para dar sustentação ao projeto. Nos 80 hectares restantes, será possível plantar 40 mil árvores de qualquer espécie. As árvores serão adotadas por pessoas físicas ou jurídicas - estas últimas escolherão as áreas para plantar árvores as quais serão identificadas com placas, demonstrando que contribui com o projeto, com o Rio Uberaba e, consequentemente, com a população de Uberaba. A pessoa física também contribuirá com o projeto, mas terá uma perspectiva mais emocional pelo plantio de uma árvore que irá crescer e durar anos, para que seus descendentes possam perceber a grandeza de seu gesto. 

A área será composta com um restaurante panorâmico que já está em construção, com atividades educativas, estrutura para esportes como tirolesa, bicicletas, caminhadas entre outros. Cada árvore será adotada com a contribuição de um valor.

A etapa II do projeto será executada em 190 hectares, dentro dos quais serão plantadas árvores de grande porte (tipo Gameleira), nesse caso, será adotada a área para o crescimento dessa espécie, que será plantada pelo proponente. O valor arrecadado com esse projeto será proporcional ao tamanho da árvore a cada ano, ou seja, o valor será acrescido pelo volume da copa das árvores, numa perspectiva de longo prazo. 

Essa parte do projeto terá um caráter emocional e de realização de um ato de contribuição para o futuro do Rio Uberaba e para a sociedade dos descendentes dos colaboradores. O objetivo dessa etapa é a conscientização ambiental e social, que terá como foco as crianças e jovens. Conforme esclarece Marco Tulio Paolinelli:

Daqui a 30 anos ele (o contribuinte) vai vir aqui com seus netos fazer um piquenique na árvore que ele plantou. E esse neto dele vai falar assim ‘puxa vida, o meu avô, quantas vidas o meu avô salvou nestes 30 anos, quanto ele ajudou o Rio Uberaba’, então isto aqui é para ajudar a salvar o Rio Uberaba e salvar vidas.

Nosso objetivo maior é fazer com que a criança, o jovem, passe a participar disso aqui como uma forma de conscientização ambiental e social. É saber que ele tem que ajudar o próximo. Essa é uma filosofia que a gente quer implantar na sociedade.

Nessa segunda etapa serão construídos de 800 a 1 mil "bolsões" que também serão adotados pelas pessoas, pelo valor de influência que cada uma contribuirá para incorporação da água ao lençol freático e aos afluentes do Rio Uberaba. O adotante receberá um certificado demonstrando a quantidade de água com que contribuiu para o rio.

A terceira etapa será implantada após três anos, quando serão retirados e vendidos os eucaliptos plantados na primeira etapa. No lugar será construído um condomínio de árvores que será adotado pelas pessoas. Elas poderão dar o nome que quiserem às ruas ou aos lotes que adotarem, plantarão as espécies que quiserem, e pagarão para cuidar dessas áreas. Os recursos oriundos da arrecadação das três etapas do projeto serão totalmente distribuídos para saúde e bem-estar da população em forma de ações sociais.

Vejam, caros leitores, que soluções tecnológicas relativamente simples podem trazer inúmeros benefícios em uma combinação que conecta engenharia, preservação ambiental, conscientização social e contributos para o desenvolvimento sustentável do agronegócio. No imenso território do nosso Brasil os benefícios com certeza podem ser muito relevantes.

*Gustavo Barros Paolinelli é produtor rural e professor convidado da FDC e Jose Antônio de Sousa Neto é Professor da EMGE (Escola de Engenharia e Ciência da Computação)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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