Religião

14/06/2021 | domtotal.com

Ao reformar o sínodo, papa mira na revolução cultural da Igreja

Francisco opera transição de uma Igreja clerical para uma Igreja sinodal

Papa Francisco com os bispos e jovens
Papa Francisco com os bispos e jovens (Vatican News)

Thales Reis*

O relacionamento da Igreja Católica com o regime democrático não é tão antigo, afinal, como todos sabem, a própria estrutura da instituição se assemelha muito mais a uma monarquia do que a uma democracia, com o papa como chefe da Igreja, da Santa Sé e do Estado do Vaticano, com todos os poderes e prerrogativas dos antigos monarcas europeus.

Foi somente após o Concílio Vaticano II, convocado pelo "papa bom" – bom, certamente, mas não manso – João XXII, entre 1962 e 1965, que a Igreja passou a reconhecer a democracia constitucional.

Em mais uma "revolução" colocada em marcha por Francisco – um defensor do Vaticano II –, o próximo Sínodo dos Bispos, marcado para 2023, começa com um inédito processo de consulta com as dioceses de todo o mundo e participação de todos os fiéis.

A mudança soa como uma ousada manobra de política externa do papa para aproximar as igrejas locais e suas conferências episcopais do coração pulsante do catolicismo, Roma, priorizando um sistema de "participação popular" em detrimento de um que governa por apenas por decretos papais.

O direito ativo e passivo de legação que o papa exerce, regulamentado pelo Código de Direito Canônico, evidencia a dupla função da diplomacia pontifícia, sendo uma destas finalidades a "ad intra" ou intra eclesial. Essa atribuição diz respeito à missão de tornar sempre mais firmes e eficazes os vínculos que existem entre a Sé Apostólica e as Igrejas particulares.

Nesse sentido, a opção de Francisco pela sinodalidade e pela participação diocesana no próximo sínodo é, também, uma manobra diplomática e política.

E essa mudança, que vem para dar voz a todas as dioceses, através de um processo de consulta e escuta que deve durar até abril de 2022, também serve para concretizar a sinodalidade tão desejada por Francisco desde o início de seu pontificado. Essa nova forma de tomada de decisão acontece exatamente no momento em que o Vaticano se encontra em evidente "fogo cruzado" com outros episcopados católicos ao redor do mundo.

Na Alemanha, à revelia de Roma, padres estão abençoando uniões homossexuais. Nos Estados Unidos, a Santa Sé precisou intervir na questão da instrumentalização da comunhão a políticos católicos.

Diferente do que acontece nas democracias constitucionais, nós não estamos falando de uma espécie de "sufrágio universal", de um pleno direito a voto. Nem poderia ser, já que a decisão final no que diz respeito à Igreja Católica continua sendo, claro, do papa.

Estamos falando, na verdade, de um movimento democrático no sentido de que todos sejam elegíveis para participar igualmente, diretamente ou através de representantes. Essa é a proposta do papa. Depois da fase consultiva diocesana, caberá aos bispos reunidos em assembleia abrir um período de discernimento para "escutar o que o Espírito suscitou nas Igrejas a eles confiadas".

Nesse sentido, dar voz aos párocos, aos leigos, às pequenas comunidades eclesiais, é uma maneira de usar o sínodo como ferramenta de renovação, descentralizando o diálogo das mãos de bispos e cardeais. Muitos destes, verdadeiros "guerreiros culturais", que engrossam as fileiras da Igreja anti-Francisco.

É, também, uma forma de afastar a imagem da Igreja monárquica, da qual o papa Francisco tem verdadeiro horror.

É preciso lembrar, porém, que unidade não é uniformidade, mas sinfonia. E se um dos interesses primários da Santa Sé em relação à sua diplomacia é o de manter a unidade da Igreja Católica, o melhor caminho para manter afinada a "melodia" da instituição é ouvindo as diferentes – e muitas vezes destoantes – vozes que emanam dos quatro cantos do mundo.

A fase diocesana da Igreja norte-americana, por exemplo, será substancialmente diferente do que acontecerá nas paróquias alemãs, com certeza.

E o novo projeto de governança através da participação descentralizada e integral do "povo de Deus" arquitetado pelo papa terá que navegar por essas divergências, que são muitas vezes culturais, ideológicas, mas também políticas.

Esse processo reflete a ideia do papa Francisco de sinodalidade não como um parlamento católico, mas como uma experiência comum a todos os fiéis, mantendo saudáveis os vínculos entre os bispos locais e a Sé de Pedro, com a abertura democrática da instituição começando de baixo para cima, das pequenas comunidades de cada região.

Essa concepção de Igreja Sinodal, inclusive, é complementar à implementação do Vaticano II, também colocada em marcha pelo papa, e pode ser entendida como uma evolução natural do conceito de "colegialidade episcopal", introduzido pela assembleia universal dos bispos de 1962.

Logo, para entender o pontificado de Francisco, e o legado que ele pretende deixar para a instituição, é preciso olhar com atenção para essa ideia de uma Igreja em comunhão com a eclesiologia do Vaticano II, em transição de uma Igreja clerical para uma Igreja sinodal.

E se "Deus não joga dados", como diria Einstein, o papa Francisco também não. No grande esquema das coisas, cada movimento do pontífice é um passo muito bem pensado, como em um tabuleiro de xadrez, metáfora perfeita para o jogo diplomático entre a Santa Sé e as igrejas particulares.

Uma vez que, segundo o Código de Direito Canônico, o legado pontifício, na sua missão intra eclesial, só pode assistir e aconselhar aos bispos das Igrejas locais, sem prejuízo do exercício do seu legitimo poder, o papa sabe que, se ele quiser implementar mudanças realmente duradouras na Igreja, fazer isso através de Motu proprio não será suficiente.

É preciso uma revolução cultural, em todos os níveis da vida da igreja e esferas hierárquicas, e o sínodo de 2023 pode ser um caminho.

*Thales Reis é jornalista, especialista no estudo das Escrituras Sagradas do Cristianismo pela Universidade de Harvard, em Diplomacia Pontifícia pelo Centro de Religião, Paz e Assuntos Internacionais da Universidade de Georgetown, dos EUA, e em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), de São Paulo. Têm expertise na cobertura de assuntos relacionados ao Vaticano e no estudo e análise das relações de poder estabelecidas pela Santa Sé com os diversos players do cenário internacional.



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