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16/06/2021 | domtotal.com

Divisão no Peru se acirra à espera do veredito da comissão eleitoral

Keiko Fujimori insiste na anulação de votos enquanto Castilho pede respeito à votação

Partidários do candidato Pedro Castillo protestam em defesa do resultado das urnas
Partidários do candidato Pedro Castillo protestam em defesa do resultado das urnas (AFP)

Dez dias depois de uma eleição presidencial polêmica, o Peru está lutando contra uma convulsão política. Com a apuração de 100% das urnas, o resultado aponta para 50,12% dos votos para o candidato Pedro Castillo, de esquerda, 44 mil a mais que Keiko Fujimori, candidata de direita. No entanto, o Júri Nacional Eleitoral (JNE) ainda precisa finalizar a análise das contestações de milhares de votos antes de proclamar o vencedor.

Castillo, um professor de escola rural de 51 anos, rejeitou os apelos pela anulação das eleições por suposta fraude, feitos por políticos de direita que apoiam a filha do ex-presidente preso Alberto Fujimori, cujo partido pediu ao JNE que anule os votos de 151 seções eleitorais. O JNE está revisando as contestações antes de proclamar o vencedor da votação presidencial, que teve 74,5% de participação, sem "graves irregularidades", segundo observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Um resultado oficial não será anunciado até que o conselho eleitoral decida aceitar ou recusar os apelos de Fujimori, que buscam anular votos de regiões dominadas por Castillo. Mas, enquanto o Peru espera por um veredicto, o país enfrenta um período de turbulência política, à medida que aumentam as tensões entre Castillo - um outsider - e seus adversários no sistema político e empresarial do país.

A turbulência destaca o aprofundamento da polarização no Peru, após uma contração econômica de 11% no ano passado e o maior número de mortos per capita do mundo devido à Covid-19. O impasse partidário ameaça os esforços do governo para enfrentar a crise econômica e de saúde e pode levar a violentos distúrbios dizem analistas políticos.

Na terça (15), partidários de Fujimori, que perdeu as eleições de 2016 por uma margem igualmente estreita, protestaram em frente ao gabinete do conselho eleitoral nacional em Lima, seu reduto. A centenas de quilômetros de distância, no sul dos Andes, onde Castillo obteve mais votos, seus apoiadores bloquearam estradas com barricadas em chamas, dizendo que Fujimori está tentando roubar a eleição.

Keiko negou que haja "líderes golpistas" em seu grupo, após críticas a dois almirantes reformados eleitos para o Parlamento por um partido de extrema direita, que pediram a anulação das eleições. "Rejeito as acusações de que haja golpistas em nossas manifestações", disse a filha do ex-presidente Alberto Fujimori, no segundo ato que lidera nos últimos três dias. Um dos oradores do evento presenteou Keiko com uma "arma" para se opor a Castillo: um rosário, que ela pendurou no pescoço. Ambos os candidatos são católicos conservadores.

Dúvidas e atraso

Fujimori está tentando invalidar cédulas que, segundo sua equipe mostram irregularidades nas assinaturas e números de identificação dos eleitores nas folhas de contagem. Dado o número em questão, é possível que o resultado seja anulado, embora as probabilidades sejam baixas considerando a falta de evidências de fraude maciça, disse Alfredo Torres, chefe do proeminente pesquisador peruano Ipsos.

Alguns analistas, no entanto, dizem que as acusações de fraude de Fujimori não são sobre a apresentação de demandas eleitorais legítimas, mas sim um movimento para atrasar a proclamação de Castillo como presidente e minar seu governo antes que ele assuma o cargo. Seu partido teve responsabilidade direta na destituição de dois presidentes, embora Fujimori tenha se desculpado por seu papel durante a campanha.

Na terça-feira à noite, Castillo fez um apelo ao tribunal eleitoral do Peru para que respeite a vontade popular e anuncie uma decisão rápida sobre a impugnação de votos. "Peço às autoridades eleitorais que, de uma vez por todas, deixemos de prolongar e deixar o povo peruano em sofrimento, e que se respeite a vontade popular deste país", disse Castillo para milhares de seguidores durante um comício em Lima, após o anúncio da apuração final das urnas, mas antes de uma definição sobre os pedidos de impugnação de votos.

"Esta noite não deve ser apenas de júbilo, mas de grande responsabilidade, não nos deixemos levar por ilusões nem pretensões. Hoje começa a verdadeira batalha para terminar com as grandes desigualdades que a pátria tem", completou.

Castillo reiterou que seu governo respeitará o investimento privado, moderando sua posição a favor das estatizações expressada no início da campanha, e rejeitou comparações com o governo da Venezuela. "Não somos chavistas, não somos comunistas, ninguém veio para desestabilizar este país, somos trabalhadores, somos lutadores, somos empreendedores e garantiremos uma economia estável", afirmou, em meio a aplausos.


AFP/Agência Estado/Dom Total



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