Religião

17/06/2021 | domtotal.com

A vontade de Deus na vontade humana

Ao comungar do corpo e sangue de Cristo, a comunidade torna-se partícipe do seu sacrifício

O desafio é viver em conformidade com a vontade de Deus
O desafio é viver em conformidade com a vontade de Deus (Unsplash/Mateus Campos Felipe)

Geovane Saraiva*

Jamais devemos hesitar em meio a ocasos e cruzes da vida, nós, criaturas humanas, em nossos deslocamentos, no modo de pensar e de agir e nas contradições, com nossa realidade física e existencial, em prantos, lamentos e lágrimas: é o peregrinar humano rumo àquele êxodo final. Que nossa mística e nossa força motivadora estejam em Jesus - eucarístico, pão da vida, pão descido do céu -, evidentemente numa atenta dinâmica e enérgica retidão, no sentido de se dar uma resposta à gratuidade de Deus. Volto-me mais uma vez ao espírito de Santo Agostinho, que foi levado pelo amor à eternidade e à verdade, cada dia e passo a passo, externando sempre o sentimento amoroso, do âmago do coração, aspirado na acentuada avidez de se conquistar e usufruir daquela divina e celestial cidade1, cuja suprema autoridade é Jesus de Nazaré.

O desafio é viver em conformidade com a vontade de Deus, que, segundo o apóstolo Paulo, é a celebração da Ceia do Senhor, a proclamação do mistério da morte de Cristo, na qual esse mistério se torna eficaz e satisfatoriamente compreensível aos que procuram haurir dessa fonte, usando de todos os meios, inseridos verdadeiramente na celebração do banquete do Senhor2. Ao participarem do referido banquete, entram os fiéis em comunhão com o corpo e sangue de Cristo, fazendo com que a comunidade, totalmente envolvida pelo mesmo mistério, se transforme em partícipe do sacrifício, tendo um só corpo e uma só alma como resultado para consigo mesmo.

Que fique claro que a Ceia do Senhor é o elemento a causar o maior júbilo, essencialmente escatológico e imorredouro, claramente presente, longe de qualquer dúvida, desde a origem como princípio da vida cristã da humanidade. Usa-se o termo "banquete messiânico" em alusão a uma grande, lúcida e viva experiência de Deus, tendo como centro a palavra do Senhor, que é vida. A Ceia se confunde com a Páscoa do Senhor, vida nova a mover a humanidade, o Espírito Santo que nos anima, numa comunhão íntima da criatura humana com Deus: criador, salvador e santificador. A eucaristia e os demais sacramentos, ou mistérios, vividos na liturgia da Igreja, de um modo contemplativo, querem, pela vontade de Deus, penetrar, progressivamente, na realidade da vida humana e no mundo.

O Filho quer fazer de nós verdadeiros adoradores do Pai (cf. Jo 4, 24), filhos de Deus participantes de sua filiação única (cf. 2Pd 1, 4). O Espírito que Jesus enviou do Pai para sua Igreja inspira, estimula, sustenta todo esse projeto de vida. É preciso mudar o nosso conceito de oração, e em primeiro lugar escutar o que Deus tem a nos dizer3; colocar o nosso querer no querer de Deus; também nossa vontade na vontade de Deus; e ainda nossa liberdade na liberdade de Deus. Assim seja!

Notas:

[1] RAMOS, Manfredo. A Ideia de Estado na Doutrina Ético-política de S. Agostinho. Ep. 155, n. 1, pp. 296 e 311.

[2] VIER, Frederico. Dicionário Enciclopédico da Bíblia, 1977, p. 260.

[3] LORSCHEIDER, Aloísio. Cf. Variações sobre a Oração Cristã, Franciscanos do RS, p. 89.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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