Religião

18/06/2021 | domtotal.com

Atraídos ao seu coração

O Coração de Jesus quer a humanidade junto de si para que nele sacie sua sede com perene alegria na fonte salvadora

Aparição do Sagrado Coração de Jesus à Margarida Maria Alacoque retratado em vitral
Aparição do Sagrado Coração de Jesus à Margarida Maria Alacoque retratado em vitral (Pixabay)

César Thiago do Carmo Alves* 

A liturgia da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus é fonte para compreender a espiritualidade da Igreja referente ao  Coração de Jesus. Porém, para chegar a essa Solenidade é preciso entender a sua história.

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Historicamente, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, diversamente do que se pensa, não nasceu no século 17, a partir das revelações da monja Margarida Maria Alacoque. Remonta a vários séculos atrás quando os escritores místicos medievais, alemães e franceses, destacando-se Bernardo de Claraval, inflamavam nos fiéis a devoção à Paixão de Cristo, destacando as cenas mais dolorosas e particularmente as chagas das mãos, dos pés, do lado (o coração) traspassado pela lança.

A devoção ao Coração perfurado de Jesus testemunha-se a primeira vez nos Flanders com a Beata Maria d'Oignies e Lutgarda d'Aywères. Espalhou rapidamente na Germânia com Machtilde e  Gertrude (†1302), nas comunidades dominicanas de Colmar e de Schonensteinbach, em Tréveris, Strasburgo, Colônia, de onde se difundia largamente entre o povo. Na Itália contribuiu ativamente a Ordem dos franciscanos com Boaventura (†1274), Margarida de Cortona e Ângela de Foligno (†1309) com o celebre Livro das suas visões. Não faltavam as imagens que representavam o Coração aberto pela lança, ou só, com a sigla IHS, ou circundado de fogo, ou também cercado com as duas mãos e os dois pés perfurados. Os hinos e os poemas em honra ao Coração de Jesus gozavam de muita popularidade entre os devotos. Famoso, por exemplo, é o poema atribuído  a B. Hermanno, arcebispo de Colônia (†1241), mas que na verdade era obra do cisterciense Arnolfo Van Leuven (1240-1248), abade de Villers em Brabante.

Da metade do século 14 até o 15 a devoção entra em declínio, mas retoma vigorosamente no século 16, tendendo a cada vez mais a postular o reconhecimento oficial da liturgia. É a João Eudes (1601-1680) que cabe a honra de ter inaugurado o culto ao Sagrado Coração. Com o decreto datado em 8 de março de 1670 do bispo de Rennes, João Eudes obteve a faculdade de celebrar solenemente todos os anos em 30 de agosto a festa do Sagrado Coração nas casas da congregação por ele fundada, usando o ofício e a missa por ele composta. O exemplo do bispo de Rennes foi seguido por outros na França, sobretudo em Evreux, Coutances, Rouen, Lisieux, e também em várias dioceses da Itália e da Germânia.

Bem cedo o ardor Eudesiano, que irradiava na Igreja, e sobretudo entre o clero francês, consistiu numa excelente propaganda para o culto ao Sagrado Coração, juntamente com as revelações a Margarida Alacoque, religiosa da Visitação (†1690). Foi dela  que de fato partiram as primeiras propostas à Santa Sé para a instituição de uma festa em toda Igreja. Em 1856, Pio IX, a pedido do abade Guéranger di Solesmes, decretou a festa para toda Igreja fixado-a na sexta-feira depois da Oitava de Corpus Domini.

Os textos do  primeiro formulário do ofício e da missa compostos colocavam em evidência que, sob o simbolismo do coração, queria-se glorificar  "a caridade de Cristo " que sofreu e morreu pelos seres humanos. A  Congregação dos Ritos por meio do cardeal Boschi compôs e aprovou em 21 de janeiro de 1778 um outro formulário de missa e de ofício, onde o coração, isto é, o amor de Cristo, objeto sensível da festa, era colocado mais claramente.

Com a reforma dos livros litúrgicos determinada pelo Concílio Vaticano II, a Solenidade do Coração de Jesus articulou as perspectivas da entrega e do amor de Cristo em suas eucologias. Fonte de densa teologia e que demonstra essa articulação é o prefácio. Põe literalmente  em evidência a dimensão do amor que se faz entrega. Aludindo ao texto de Jo 19,34 que, no contexto da Paixão um soldado golpeia o lado de Jesus com a lança e dele imediatamente sai sangue e água, com hermenêutica patrística, continua o prefácio afirmando que sangue e água constituem os sacramentos da Igreja. Por fim, aponta o motivo pelo qual sangue e água jorraram: é para atrair a humanidade ao seu coração. Essa afirmativa no prefácio revela a grandeza do Coração de Jesus. Ele quer a humanidade junto de si para que nele sacie sua sede com perene alegria na fonte salvadora.

Assim, pode-se dizer que no Coração de Jesus tem espaço para todas as pessoas indistintamente. É um coração que quer os seres humanos próximos dele e não distante. Que todos possam saciar sua sede e nele repousar. Uma espiritualidade que parte do Coração de Jesus não tem espaço para segregação, mas tão somente para a koinonia  (comunhão). Por isso, urge a necessidade de passar de um devocionismo que por vezes é estéril, preocupado em apenas em  "reparar " o que na mentalidade moralista se tem por ofensa ao Coração de Jesus, e passar para a prática da hospitalidade, elemento latente na espiritualidade que contempla o divino coração humano. Vale observar que muitos dos  "assuntos " a serem reparados nada têm de hospitalidade, mas sim de exclusão. Nada tem de amor que se faz entrega, como reza o prefácio. Infelizmente, a intenção pode até ser piedosamente boa, mas em nada tem de cristão e muito menos da finalidade também apontada no prefácio que é a atração de todas as pessoas para que elas fiquem juntas e acolhidas pelo Coração daquele que teve o seu lado traspassado.

Na oração popular existe uma jaculatória que possui uma profundidade mística e implica, de fato, a pessoa cristã na história. É ela:  "Jesus, manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso". Ora, para compreender o Coração de Jesus é preciso olhar as práticas do Mestre de Nazaré: comia com pecadores públicos, devolvia dignidade de vida aos desvalidos, optava pelos socialmente excluídos e defendia a vida. Querer ter um coração como o de Jesus passa pelas opções que cada pessoa cristã faz na vida. Que o coração de Jesus é largo, disso não se tem dúvidas. Afinal, ele é o amor absoluto revelador do Pai. Agora a questão é se o coração dos cristãos se assemelha ou busca ao menos assemelhar-se com o dele. Essa é a tarefa irrenunciável para todos aqueles que foram atraídos pelo Sagrado Coração: humanizar cada vez mais o nosso próprio coração, tornando-o largo e hospitaleiro, para ser divino como o de Jesus.

*César Thiago do Carmo Alves é doutor e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE



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