Religião

18/06/2021 | domtotal.com

O evangelho do Coração de Jesus

O Deus judaico-cristão é um Deus que se humilha para estar junto com o contrito e o humilde

Nas narrativas dos evangelhos podemos elencar várias passagens em que Jesus revela a bondade e a ternura do seu coração
Nas narrativas dos evangelhos podemos elencar várias passagens em que Jesus revela a bondade e a ternura do seu coração (Free Bible Images/Lumo Project)

Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

Em muitas culturas, o coração simboliza o centro da pessoa, o lugar das experiências mais profundas, do discernimento, dos sentimentos mais autênticos, a fonte do amor. Em nossa cultura, o coração é símbolo do amor, das emoções, das paixões. Mas a Bíblia diz também que o coração humano, desejante de amor, é também lugar da experiência de Deus: "Como a corça anseia pelas fontes das águas, assim anseia minha alma por ti, ó Deus" (Sl 42/41). Se é do coração que vem a maldade e o pecado, é também, no "altar do coração", que o ser humano oferece o sacrifício e o louvor mais perfeito a Deus. Mas será que podemos dizer que também Deus é passional? Que o coração divino, fogueira de amor, também sente, se envolve e se compadece? A Tradição bíblica, mesmo correndo o risco de imanentizar Deus e diminuir a sua transcendência, não teve medo de afirmar que "o Senhor é compassivo e clemente, lento na ira e rico em misericórdia e fidelidade" (Ex 34, 6).

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O Deus judaico-cristão não é um "motor imóvel", nem tampouco um "espírito absoluto" impassível, mas um Deus que se humilha para estar junto com o contrito e o humilde (Is 57,15), um Deus que se manifesta no mundo por sua aliança com os pobres e excluídos. Um Deus que tem "entranhas de misericórdia" (Os 11, 8), que se deixa afetar pela dor e o sofrimento do estrangeiro, da viúva e do órfão. Um Deus interessado em libertar o seu povo, que vê a sua miséria, ouve seu grito por justiça, conhece as suas angústias e desce para libertá-lo (cf. Ex 3, 7-8). Um Deus passa e se passa no rosto do outro (cf. 18, 1-10).

Em Jesus de Nazaré, o Deus feito homem, Deus assumiu de forma radical a "passividade", fazendo-se sensível às nossas angústias e dores. Do seu coração "rasgado" na cruz (cf. Jo 19, 34), jorram água de amor e sangue de salvação, para que nós, atraídos ao seu Coração, possamos beber com perene alegria, na fonte salvadora. O Coração manso e humilde de Jesus é, pois, fonte de vida e escola de amor. Por isso, o próprio Jesus nos convida a encontrarmo-nos n'Ele o repouso para as nossas fadigas e aprendermo-nos d'Ele a mais perfeita forma de amar: "Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardo, e eu vos darei descanso. Tomais sobre vós o meu julgo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração" (Mt 11,28-29).

Nas narrativas dos evangelhos podemos elencar várias passagens em que Jesus revela a bondade e a ternura do seu coração: Diante da multidão faminta, Ele se faz sensível e chama os seus discípulos à responsabilidade ética pela fome do outro (Mc 8,1-9); Ao encontrar-se com a viúva que perdera seu filho único, enche-se de compaixão e devolve a vida ao jovem (Lc 7, 11-17); ao ser desafiado diante da mulher pecadora, não a condena, mas oferece-lhe uma nova chance (Jo 8, 10-11); Diante do filho que sai de casa e esbanja todos os seus bens, o Pai misericordioso fica à espera, e ao vê-lo voltar com saúde, corre ao encontro, acolhe, perdoa e, ainda, faz festa para celebrar a vida do filho que estava perdido foi encontrado (Lc 15, 32). Nessas e, em outras narrativas, podemos contemplar Jesus com esse coração manso e humilde, compassivo e misericordioso, capaz de nos acolher debaixo de suas asas (Mt 23, 37), de curar os nossos corações feridos (Is 61, 1/ Lc 4, 14-20)  e de consolar as nossas angústias e enxugar o nosso pranto (Lc 23, 27-28).  

Diante dessa fonte transbordante de amor que é o Coração de Jesus somos impelidos a um duplo movimento: de alegria e gratidão, responsabilidade e compromisso ético de amor e justiça. Pois se somos eternamente amados, perdoados e esperados por um Coração tão generoso e compassivo que não se fecha diante de nossas fragilidades e pecados, como podemos fechar o nosso coração diante da dor do outro? Como nos recomenda São Paulo, "tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus" (Fl 2, 5), ou seja, o coração de Jesus é uma escola de amor. Principalmente em nossa cultura atual marcada pela indiferença e o individualismo, o Coração de Jesus se apresenta como uma verdadeira Boa Nova do Reino.   

Desta forma, o evangelho do Coração de Jesus, além de revelar a mais profunda relação de amor Deus-homem, Ele nos chama também a um novo modo de amar a Deus e ao outro. Assim como nos recordam os profetas de Deus, é preciso "rasgar o coração e não as vestes" (Joel 2, 13), ou seja, sair do ritualismo estéreo e testemunhar a verdadeira conversão que passa pela prática da justiça e do amor-compaixão. Quantas vezes, por causa do ressentimento, do ódio e da violência, deixamos o nosso coração se petrificar e nos tornamos insensíveis diante da dor e da morte do outro. Faz-se necessário, tirar o coração de pedra e colocar outro coração de carne (Ez 11, 19), que seja capaz de compadecer-se do outro, de agir com ternura e misericórdia diante de seus conflitos e não como meros administradores. Pois somente os puros de corações, que são capazes de perdoar mesmo ficando em prejuízo, que não guardam rancor, que não se alegram com o mal do outro, mas com mansidão e humildade procuram amar sem nada esperar, verão a Deus (cf. Mt 5, 8). Porque o amor é o único caminho para o conhecimento de Deus, que em si mesmo é relação de amor (cf. 1 Jo 3, 8).  

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia – Arquidiocese de Teresina-Piauí.



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