Religião

18/06/2021 | domtotal.com

A pedagogia do Coração de Jesus

Contemplar o coração de Jesus é descobrir a fonte da qual emanava a sua ação profético-salvífica

Cartaz representando o Sagrado Coração de Jesus, por volta de 1880
Cartaz representando o Sagrado Coração de Jesus, por volta de 1880 (Coleção de Auguste Martin, Bibliotecas da Universidade de Dayt)

Francisco Thallys Rodrigues*

Em nossa cultura atual, a imagem do coração é comumente evocada, em nossos espaços e reflexões, para expressar sentimentos de afeto e enamoramento ou para ilustrar o fechamento egoísta diante da necessidade do próximo. Por sua vez, na perspectiva da fé bíblica, o coração é usado enquanto símbolo/imagem que remete ao centro existencial de todo ser humano com a sua afetividade, suas decisões mais íntimas e sua capacidade de discernimento. Neste sentido, o coração de Jesus, por um lado, abarca a íntima relação de fidelidade e amor com o Pai, e, por outro lado possibilita que, pedagogicamente, mergulhemos no mistério do amor de Deus pela humanidade, expressos no cuidado de Jesus com os pequenos e pobres.

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Na antropologia bíblica, o coração é a sede da vontade, dos afetos, do discernimento e da decisão. Dele emanam os projetos, sonhos e desejos. Por conseguinte, contemplar o coração de Jesus é descobrir, passo a passo, a fonte da qual emanava a sua ação profético-salvífica. Profética enquanto denúncia à infidelidade, diante da aliança, que gerava injustiça e se expressava como opressão exercida pelo poder político e religioso. Ação salvífica na medida em que Jesus recuperava a dignidade de cada pessoa que era curada ou que Nele encontrava o perdão de seus pecados. Na base destas ações estavam a profunda relação com o Pai, por meio da oração, a experiência apreendida na sabedoria do povo e o encontro com o próximo. Mas era no coração ou melhor a partir do coração que Jesus tomava as suas decisões.

No centro do Coração de Jesus estava o anúncio da boa nova do Reino de Deus. Todas as suas palavras e ações podem ser compreendidas a partir desta centralidade. Tornar-se seu seguidor implica uma constante saída de si mesmo para o encontro com o próximo, na busca por viver o mandamento fundamental por Ele ensinado: amar o próximo como a si mesmo. O Coração de Jesus atua, pedagogicamente, a fim de destacar aquilo que foi o essencial na vida do Mestre e que deve se tornar o fio condutor na vida de cada cristão, isto é, o amor pelos pequenos e pobres expressos na luta pela justiça do Reino de Deus.

Nós, seres humanos, somos muito visuais, necessitados de símbolos e imagens que nos ajudam a compreender e acolher o mistério que nos circunda. Por isso, a imagem do Coração de Jesus, tão difundida pelo Apostolado da Oração, é como um instrumento pedagógico que nos conduz para a vida de Jesus, assumindo as mesmas causas que animaram a sua missão. A partir de nosso coração humano nós decidimos pela acolhida ou rejeição ao Reino de Deus.

A imagem do Coração de Jesus transpassado recorda a humanidade de Jesus para que não caiamos num devocionismo desencarnado. O divino quis se encarnar no humano assumindo todas as consequências, inserindo-se a partir de uma família pobre e esquecida na periferia de Nazaré. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus deve nos levar a perceber no mundo quais são as forças que promovem o Reino, a fraternidade e a justiça, bem como aquelas forças que se apresentam como o anti-reino: egoísmo, injustiça, lucro desmedido. Por conseguinte, não há sentido sermos devotos do Coração de Jesus se não assumirmos as mesmas causas que moveram o Coração de Jesus, o fizeram pulsar.

Além disso, o Coração de Jesus pode ensinar, aos homens e mulheres de nosso tempo, a discernir diante das situações de nosso dia a dia. O homem de Nazaré tomou decisões muito claras e de consequências exigentes que o conduziram à morte. Optou pela vida em primeiro lugar, expressão de fidelidade ao Reinado de Deus. Isto só foi possível na medida em que Ele discerniu, à luz da fé e das experiências de seu tempo, qual o caminho tomar. Caberia nos perguntar: o que ocupa o centro do meu coração? Para onde tem se inclinado minhas decisões? Como faço o meu discernimento?

Urge recuperar o valor e sentido da imagem simbólica do coração, em nossa sociedade, como o centro existencial de nosso ser. Em nossas palavras e ações manifestam-se as opções fundamentais que tomamos desde o nosso coração, pois "a boca fala daquilo de que está cheio o coração" (Lc 6,45). Por isso, é preciso, a partir do seguimento a Jesus, discernimos que tipo de fé cristã desejamos viver. O Coração de Jesus nos coloca nos conduz, como um pedagogo, a conhecer e entender o amor superabundante do homem de Nazaré, derramado na cruz, mas a adesão ou não a este estilo de vida está em nossas mãos.  

Por fim, trago uma experiência vivida por um padre que assumiu a radicalidade do evangelho, ocupando o último lugar, este relato expressa o que procuramos acenar nesta reflexão. Padre Júlio Lancellotti, seguidor de Jesus no cuidado com os abandonados e esquecidos nas ruas de São Paulo, conta que certa vez um garotinho, portador do vírus HIV, olhando para a imagem do Coração de Jesus, o perguntou: "Por que o coração dele é para fora?", ao que o padre respondeu: "Por que amou muito", o menino continuou sua indagação: "E dói?", Padre Júlio respondeu: "Sim. Aprendi: não há amor sem dor". Com esta breve resposta, padre Júlio expressa o amor vivido por Jesus em sua radicalidade, ao mesmo tempo em que chama nossa a atenção para compreendermos que todo autêntico amor implica certo padecimento, dor e sofrimento, porque exige descentramento, cuidado e desgaste de si mesmo em vista do outro.

*Presbítero da Diocese de Crateús. Mestrando em Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), bolsista CAPES. Especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (FAJE), licenciado em História (UNOPAR).



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