Religião

18/06/2021 | domtotal.com

A diplomacia pontifícia que muitos desconhecem

Quais regras o papa deve seguir quando se encontra com políticos do mundo todo?

Papa Francisco na ONU, em 2015
Papa Francisco na ONU, em 2015 (A. Clary/AFP)

Mirticeli Medeiros*

Francisco, desde que assumiu o pontificado, é visto como alguém que não é muito fã dos protocolos. E isso é verdade. Mas você sabia que há algumas regras da diplomacia pontifícia que ele simplesmente não pode ignorar - e, por obrigação de ofício, deve seguir à risca?

Não estamos falando simplesmente do cerimonial ou de como o santo padre deve se comportar em reuniões oficiais. Até porque, nesses casos, algumas dessas normas, hoje em dia, são facultativas. Por exemplo: a mulher deve usar véu e vestir-se de preto em audiências com o pontífice? É adequado, mas não é obrigatório. O papa, ao receber presidentes e monarcas, deve seguir uma pauta pré-estabelecida? Não, necessariamente. E pensando no sumo pontífice atual, há espaço até para momentos de descontração.

Nenhuma lei estabelece quem o papa deve ou não receber. Ninguém precisa exibir a carteirinha de bom católico para se encontrar com a autoridade máxima da Igreja Católica. Afinal, não estamos falando simplesmente de um líder religioso, mas de um chefe de Estado. O Vaticano não exige "ficha de antecedentes de fé" a quem agenda uma audiência com o representante do catolicismo.

Sem contar que nem todo encontro com o pontífice é considerado "oficial". Uma coisa é ele receber o visitante no palácio apostólico; outra coisa é recebê-lo em casa.

A primeira situação ocorre, na maioria das vezes, quando o papa se reúne com líderes políticos (presidentes, governadores, prefeitos e afins). Os funcionários da Secretaria de Estado são responsáveis por coordenar essa recepção. Em caso de necessidade, alguns tradutores auxiliam o papa. E até os fotógrafos do Vaticano são chamados para registrar o momento.

No segundo caso, é a equipe pessoal do papa - e ele mesmo, às vezes - quem dá a autorização para que determinada pessoa o visite na Casa Santa Marta, onde ele vive. A decisão não passa pela Secretaria de Estado, uma vez que tudo acontece na informalidade. É nessa ocasião que o pontífice recebe ex-presidentes, artistas, amigos, parentes, etc.. Foi nessa circunstância que ele recebeu Lula, Letícia Sabatella, entre outros. Ou seja, não foram encontros oficiais e não podem sequer receber o nome de audiência, ao contrário do que foi noticiado.

Perceberam que quando o papa realiza uma viagem apostólica ele se hospeda numa casa religiosa ou na nunciatura apostólica (embaixada da Santa Sé) daquele país? Pois é, porque essa é uma das regras. Ele não pode pernoitar nem fazer refeições na casa de membros do governo local. A Santa Sé entende que esse tipo de aproximação pode associar a presença do papa a um apoio irrestrito às ideologias dos políticos da nação anfitriã.

Biden e a suposta missa no Vaticano

A notícia de que Joe Biden teria sido "vetado de participar de missa com o papa por defender o aborto" é digna de uma checagem mais criteriosa. Primeiro porque, uma vez que o papa é orientado a não celebrar missas privadas com políticos, então dificilmente a diplomacia americana cogitaria esse tipo de permissão. E mesmo que a comitiva de Biden tivesse entrado com o pedido (uma hipótese), o impedimento seria protocolar, e não estaria relacionado à agenda político-ideológica do presidente.

Sem contar que é difícil considerar que a diplomacia pontifícia barraria uma proposta de encontro com o homem mais poderoso do mundo. A não ser que Francisco não tivesse tempo hábil para organizar a audiência, a qual exigiria, para além da preparação do próprio corpo diplomático, a colocação de um forte esquema de segurança, com o apoio do governo italiano. Por último, é importante salientar que Biden, desde que foi eleito, ainda não se encontrou com o papa Francisco. E é difícil acreditar que, na primeira oportunidade, ele faria isso às pressas, passando por Roma só para participar de uma missa. Fica aí o questionamento. Cada um chega à conclusão que quiser.

A participação do presidente italiano Sérgio Matarella em missa na Casa Santa Marta é um caso à parte. Em 2019, o político, que é católico praticante e participa ativamente de uma paróquia da capital, recebeu essa autorização. Mesmo assim, o governante não participou de nenhuma missa especial, mas era mais um entre os fiéis da capela na Casa Santa Marta. Essa celebração, que acontece diariamente às 7h da manhã, no prédio onde o pontífice mora, assumiu um caráter mais público na era Francisco. Isso porque, antigamente, essas missas diárias do papa - antes celebradas no palácio apostólico - eram reservadas somente à chamada "família pontifícia", composta pelos colaboradores diretos do santo padre, e sequer eram transmitidas pela televisão, como hoje.

Embora o número de participantes seja restrito, fiéis de paróquias da diocese de Roma conseguem, de vez em quando, garantir um lugar na missa celebrada por Francisco.

Sem contar que, nas solenidades presididas pelo pontífice na Basílica de São Pedro, é muito comum a participação de diplomatas e de políticos. Não há "veto" de nenhuma natureza. Aliás, desconheço qual igreja do mundo impede a participação de algum fiel em suas celebrações.

Toda a confusão gerada pelo suposto pedido negado ao Biden mostrou o quanto os católicos desconhecem a estrutura da própria instituição da qual fazem parte. O amadorismo com o qual alguns perfis "igrejeiros" do Instagram trataram o caso confirma isso. Não vou entrar no mérito de avaliar se Biden é bom católico ou se sua postura é correta. Afinal, o artigo trata da diplomacia, não da moral católica do presidente.

As relações diplomáticas com os Estados Unidos são tão importantes para a Santa Sé quanto para qualquer outro Estado. Neste momento, em particular, a Igreja Católica vê, após a eleição de Biden, uma via aberta para dialogar sobre questões que são caras ao pontífice (dignidade humana, respeito à vida, imigração, Guerra na Síria, mudanças climáticas, etc.). Nesse contexto, é difícil pensar na diplomacia vaticana dando tiro no pé, bem como considerar que os diplomatas da instituição sejam tão impreparados ao ponto de lançar informações desencontradas assim, ao léu. Porém, para alguns católicos, pelo jeito, o Estado do Vaticano só serve de enfeite e os insucessos da sua diplomacia devem ser comemorados.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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