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22/06/2021 | domtotal.com

16º Mostra de Cinema de Ouro Preto evidencia memórias entre diferentes tempos

O evento vai exibir 118 filmes em pré-estreias e mostras temáticas, de quatro países e 14 estados do país

Cena do filme Golpe de ouro, de Chaim Litewski
Cena do filme Golpe de ouro, de Chaim Litewski (Reprodução)

Larissa Troian

Chamar a atenção para o diálogo entre a mostra histórica e a produção contemporânea brasileira é novamente o objetivo de mais uma CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, a ser realizada entre os dias 23 e 28 de junho, com transmissão on-line e gratuita em razão da pandemia. O evento vai exibir 118 filmes em pré-estreias e mostras temáticas, de quatro países e 14 estados do país. 

De Minas para o Brasil e para o mundo – a CineOP estará com o acesso liberado para quem quiser acessar. Os criadores procuram, dessa maneira, ganhar escala e alcance, engajamento do público e mais visibilidade. 

A edição deste ano, assim como as dos anos anteriores, foca sua programação em três fontes temáticas: preservação, história e educação. O cronograma conta com filmes em pré-estreias e mostras temáticas, homenagem, realização do 16º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros e o Encontro da Educação: 13º Fórum da Rede Kino – Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual, além de oficinas, masterclasses, sessões cine-escola, Mostrinha, Mostra Valores, exposição, performance audiovisual e shows. 

Com curadoria de Francis Vogner e Cleber Eduardo, a mostra pretende reconfigurar a relação entre passado e presente através do uso de documentos, memórias, perspectivas e reflexões afetivas. 

Cleber Eduardo conta que o diálogo dos filmes antigos com a produção contemporânea resultou que, mesmo divididos em blocos (filmes de e com indígenas, filmes centrados em espaços de coletividade, filmes em universos da arte e de artistas e filmes situados no regime militar), todos os contemporâneos também lidam com as memórias e com os passados, mas de maneira muito distinta dos filmes dos 90: “Indígenas são tematizados por quem não é indígena nos anos 90. O mundo das artes nos anos 90 não é visto por pessoas ou espaços vivas e vivos, como Aquilo que eu nunca perdi, sobre a cantora Alzira Espíndola, e Máquina do desejo, sobre o Teatro Oficina, mas por pessoas e mundos já transformados ou desaparecidos, como Carmen Miranda, Mário Reis e Orson Welles”. 

Para esta edição, os filmes do evento foram separados em quatro eixos: “Indígenas e as imagens: entre o passado e o presente”, com filmes que tratam da cultura indígena e estabelecem uma relação entre os elementos de suas histórias em referência à história brasileira. Os filmes são O índio cor de rosa contra a fera invisível: a peleja de Noel Nutels, de Tiago Carvalho; Xadalu e o Jaquaretê, de Tiago Bortolini de Castro e co-direção de Ariel Kuaray Ortega; e Kunhangue Arandu: A sabedoria das mulheres, de Alberto Alvares e Cristina Flória. 

O eixo “Os espaços e os vestígios da história” conta com trabalhos que mostram com clareza o ambiente onde filmam ou buscam suas relações com a história. Este eixo busca ecoar memórias de um imaginário cultural a partir das retrospectivas encontradas nas buscas empreendidas nas cenas. Os filmes a serem exibidos nessa parte são: Muribeca, de Alcione Ferreira e Camilo Soares, Mata, de Fábio Nascimento e Ingrid Fadnes e A senhora que morreu no trailer, de Alberto Camarero e Alberto de Oliveira. 

O período obscuro da ditadura militar é o principal tema do eixo “Passado em investigação”. Nele, recortes pouco abordados pela documentação brasileira do período - desde a busca por um ex-oficial nazista foragido no Brasil até a espoliação de recursos naturais milionários cujo dinheiro nunca foi efetivamente visto, são abordados nos filmes Golpe de ouro, de Chaim Litewski, A trilha dos ratos, de Macelo Felipe Sampaio e Operação Camanducaia, de Tiago Rezende de Toledo. 

Por fim, o eixo “Memórias das artes brasileiras” resgata figuras importantes da cultura no país, como o dramaturgo José Celso Martinez Correa, a cantora e compositora Alzira Espíndola e o casal de pesquisadores e cineastas Conceição Senna e Orlando Senna, a partir do uso de arquivos e entrevistas que os recolocam diante da própria história do país. Os títulos são: Máquina do desejo: 60 anos de Teat(r)o Oficina, de Joaquim Castro e Lucas Weglinski, Aquilo que eu nunca perdi, de Marina Thomé; e O amor dentro da câmera, de Jamille Fortunato e Lara Beck Belov. 

O curador conclui que “sem preservação não tem filme ou memória”. “Filmes desaparecidos podem se tornar mitos em casos especiais, mas deixam de formar olhares e imaginários. Claro que, além de preservar, é preciso difundir. Falamos de arte e não de documentos somente”, afirma. 

Mostra Contemporânea de curtas-metragens

Para a mostra contemporânea de curtas-metragens, a curadora Camila Vieira selecionou 18 títulos também com o propósito de dialogar com as noções de resgate, memória, novas perspectivas de presente e experimentações com o passado. A seleção inclui curtas que partem de revisitações da história para repensar o passado do Brasil, ensaios narrados em primeira pessoa que resgatam memórias entre diferentes gerações e curtas experimentais que exploram imagens de arquivo. 

Os títulos se espalham pelos recortes de Cine-Praça, Cine-Teatro e Cine Vila Rica, mantendo os perfis de cada sessão. A sessão Cine-Praça conta com Ouro para o bem do Brasil, que retrata a campanha de doações de bens pela população durante a ditadura militar; Descompostura, de Alline Torres, Anaduda Coutinho, Marcio Plastina e Víctor Alvino, República do mangue, de Julia Chacur, Mateus Sanches Duarte e Priscila Serejo, que propõe novos olhares para registros fotográficos de mulheres negras escravizadas, além da resistência de mulheres em casas de prostituição na Zona do Mangue, no Rio de Janeiro; Vai, de Bruno Christofoletti Barrenha, que resgata a história do Corinthians no período em que ficou 23 anos sem ganhar um título, durante a ditadura militar no Brasil, e Uma invenção sem futuro, de Francisco Miguez, que trata da nostalgia da película de cinema. 

Foi um tempo de poesia, de Petrus Cariry, Memória presença, de Gabriel Carneiro, Trópico de Capricónio, de Juliana Antunes, Novo rio, de Lorran Dias, Fôlego, de Sofia Badim, Pequenas considerações sobre o espaço-tempo, de Micheline Helena e O suposto filme, de Rafael Conde integram a sessão Cine Vila Rica e abordam as proximidades familiares através de fotos, registros e diálogos. 

E no Cine Teatro, o recorte inclui Igual/Diferente/Ambas/Nenhuma, troca de videocartas entre as cineastas Fernanda Pessoa e Adriana Barbosa; Rocio das vagas, de Rodrigo Faustini, que alterna ruídos de rádio com imagens em preto e branco de banhistas; Não se pode abraçar uma memória, de Pedro Tavares, resgata imagens de chegadas de partidas de navios, bondes, trens e carros para falar de afetos perdidos; Desvio, de Flora Nakazone, realizado no Instituto de Artes da Unicamp em Super-8 registrados nos anos 1970; No verso tem um céu, de Jonta Oliveira, sobre memórias de juventude; e Zona abissal, de Luísa Marques e Darks Miranda, distopia sobre fogo e destruição de um mundo em colapso. 

Para completar, uma nova parceria da mostra com a TV UFOP apresenta duas sessões e um total de oito curtas-metragens brasileiros realizados em universidades, escolas de cinema ou núcleos de formação em audiovisual. 

Mostra homenagem

O homenageado deste ano será o ator Chico Diaz, um dos grandes nomes do teatro, TV e cinema brasileiro desde os anos 1980. Para relembrar sua carreira, a curadoria fez um recorte de filmes que permitem ao público um entendimento amplo da carreira do ator. São eles: A cor do seu destino (Jorge Durán, 1986), Corisco e Dadá (Rosemberg Cariry, 1996), Os matadores (Beto Brat, 1997), Amarelo manga (Cláudio Assis, 2002), Praça Saens Pena (Vinicius Reis, 2008), De sentinela (Katia Maciel, 1993), Cachaça (Adélia Pontual, 1995), Quem você mais deseja (André Sturm e Silvia Rocha Campos, 2005) e a produção portuguesa O ano da morte de Ricardo Reis (João Botelho, 2020), que será o filme de abertura da CineOP. 

Será exibida ainda a peça de teatro A lua vem da Ásia, adaptação do próprio Chico para o romance de Campos de Carvalho e que teve sua primeira encenação em 2011. 

Mostra histórica

Sob o título “Memórias entre diferentes tempos - O passado segundo as imagens dos anos 90”, essa temática vai focar no cinema brasileiro da década de 1990. Os curadores contam que a ideia é “justamente encontrar os paralelos entre o período da década de 1990 e o começo dos anos 202O, a partir da constatação de que, após mais de 30 anos do fim da Embrafilme e da eleição do primeiro presidente por voto direto depois do fim do regime militar, há muitas camadas do país e do cinema, hoje reposicionadas, que foram semeadas como espécie de gênese desde aquela época”. 

Foi um período de extensa batalha por legitimação da produção local e pelas negociações com a iniciativa privada; uma época de grandes produções históricas que tentavam pensar o Brasil do passado e de filmes que abordavam assuntos do tecido social, de forma a renovar a visão que se tinha do cinema brasileiro depois de seu sucateamento, potencializado na segunda metade dos anos 1980. 

Cleber Eduardo conta que a Mostra Histórica foi pensada, como recorte dos anos 1990, e os filmes, todos ambientados em diferentes décadas ou séculos do passado, antes da curadoria ver os inscritos da Mostra Contemporânea. “Dessa maneira, a questão da memória já se impunha, de largada e, ao vermos os filmes recentes, procuramos esse diálogo em algum nível”, conclui. A curadoria selecionou um conjunto de títulos que vão permitir ao espectador da CineOP repensar a década de 1990 dentro de novas possibilidades de conhecimento para o que se desenhava no cinema brasileiro. 

Os filmes da Mostra Histórica são: A negação do Brasil (Joel Zito Araújo, 2000), Amélia (Ana Carolina, 2000), Baile perfumado (Lírio Ferreira e Paulo Caldas, 1996), Carmen Miranda: Banana is my business (Helena Solberg, 1994), Brava gente brasileira (Lúcia Murat, 2000), Carlota Joaquina - princesa do Brasil (Carla Camuratti, 1995), Lamarca (Sérgio Rezende, 1994), O mandarim (Julio Bressane, 1995), Yndio do Brasil (Sylvio Back, 1995) e Tudo é Brasil (Rogério Sganzerla, 1998). 

Mostra preservação

A mostra da temática Preservação desta edição traz títulos relevantes da historiografia do cinema brasileiro, em versões restauradas ou retrabalhadas, em diálogo com alguns debates da 16ª CineOP. O país de São Saruê, um clássico de Vladimir Carvalho, será um dos principais destaques da Mostra Preservação. O filme será apresentado em sua versão restaurada fotoquimicamente ao final da década de 1990 pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB). 

Ainda, serão apresentadas obras selecionadas por participantes de algumas das discussões que compõe o Encontro Nacional de Arquivos: a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro apresenta três episódios do programa televisivo Revista do cinema brasileiro. O Arquivo Nacional apresenta um documentário biográfico sobre Marechal Cândido Rondon e uma edição do cinejornal Revista da tela. 

Na mostra está também o documentário de 1993 de Ozualdo Candeias sobre a Cinemateca brasileira. Dois outros filmes completam a mostra Preservação: uma compilação de registros do acervo do instrumentista, compositor e pesquisador Djalma Corrêa e o documentário Circo Voador - a nave, a partir de indicação do Acervo Circo Voador. 

Mostra educação

Os filmes da temática Educação se constituem de trabalhos audiovisuais que se relacionam à temática do ano e que venham de produções dos bancos escolares ou utilizadas numa relação pedagógica com alunos de todo o Brasil. Serão mais de 20 títulos apresentados durante a mostra a partir de proposições vindas do que intitula a temática este ano: “Das ruínas às utopias: processos de criação audiovisual e metodologias de ensino”, sendo 18 curtas inscritos selecionados, três curtas do Projeto Cero En Conducta e outros títulos do Projeto Escuela ao Cine. 

Sessões cine-escola e mostrinha

As sessões do Cine-Escola têm colaboração de professores e pedagogos para um melhor aproveitamento dos alunos interessados, na busca pela formação de novos públicos e olhares para o cinema brasileiro, assim como a Mostrinha, que conta com títulos em pré-estreia especialmente escolhidos para agradar as crianças e as famílias, como o longa Passagem secreta, de Rodrigo Grota, e Dentro da caixinha - segredo de criança, de Guilherme Reis. Os filmes da Mostrinha contam ainda com acessibilidade - Libras, audiodescrição e legendas descritivas. 

A programação completa da 16º edição do CineOP está disponível no site oficial do evento.

Serviço

16º Mostra de Cinema de Ouro Preto

Data: 23 a 28 de junho de 2021

Porgramação online, no site oficial do evento.


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