Brasil Política

22/06/2021 | domtotal.com

Checagem aponta alegações falsas e enganosas de Osmar Terra na CPI da Covid

Deputado defendeu tratamento precoce e repetiu fake news de bolsonaristas

Osmar Terra mente na CPI da Covid para justificar negacionismo
Osmar Terra mente na CPI da Covid para justificar negacionismo (Jefferson Rudy/Agência Senado)

O depoimento do deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) na CPI da Covid nesta terça-feira é marcado por alegações enganosas e falsas sobre a pandemia. Apontado como ‘padrinho’ do chamado ‘gabinete paralelo’ do Ministério da Saúde, ele reforçou fake news sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), vacinas em outras pandemias e deu informações enganosas sobre outros vários temas.  A checagem é feita pelo Estadão Verifica. Veja algumas verificações ao fim da matéria.

No depoimento, Terra voltou a defender a imunidade de rebanho, com a infecção de pessoas, como medida para o controle da doença no Brasil, apesar das evidências científicas apontando no sentido contrário.

A tese da imunidade de rebanho, defendida por Bolsonaro e contestada por cientistas, é uma das linhas de investigação da CPI da Covid, colocando o chefe do Planalto no foco da apuração. Osmar Terra justificou a defesa e as previsões subestimadas feitas no ano passado apresentando dados da China e da Coreia do Sul, que, de acordo com os números citados por ele, controlaram a pandemia no fim de março. Ele afirmou que são opiniões pessoais e que nenhum grupo o assessorou.

Em 2020, Osmar Terra chegou a declarar que a pandemia de Covid-19 seria menos grave do que a H1N1 e acabaria já nos primeiros meses. À CPI, nesta terça-feira, 22, ele argumentou que as novas cepas foram o motivo do descontrole e do aumento no número de mortes. "Mutações mais rápidas e surgiram novas cepas. Foi isso que aconteceu. Essas cepas prolongaram o prazo do fim da pandemia."

Na CPI, Osmar Terra reforçou que a tendência da pandemia é diminuir no Brasil com a vacinação e com a "infecção da população que se contaminou, sem culpa, trancada em casa". O relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), chamou Terra de "líder do negacionismo". "Eu defendo a vacina, eu não sou negacionista. Eu não nego a vacina. Acho que temos de enfrentar qualquer pandemia e a e melhor forma de salvar vidas é trabalhar como foi feito em todas as pandemias", respondeu Terra.

Renan confrontou o parlamentar com declarações anteriores, quando Osmar Terra disse que a vacina só teria eficácia "depois da imunidade de rebanho". Desta vez, no depoimento, Terra apontou a vacinação como eficaz para a imunização da população, sem deixar de lado a imunidade por infecção.

"A imunidade de rebanho não é uma técnica, e nem uma estratégia de enfrentamento, é o resultado de qualquer epidemia, inclusive a de uma gripe de inverno", disse o deputado. O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), também criticou as declarações. Para ele, quem incentivou remédio sem eficácia, foi contra isolamento e apostou na imunidade de rebanho é "cúmplice das mortes".

Confira algumas checagens do Estadão Verifica:

Decisão do STF sobre combate à pandemia

O que Osmar Terra disse: que o Supremo Tribunal Federal (STF) “limitou o poder do presidente de interferir” nas decisões relacionadas à pandemia.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Como o Estadão Verifica já mostrou, o STF não tirou o poder da Presidência nem transferiu a responsabilidade de combate à pandemia para Estados e municípios. O que o tribunal afirmou é que há competência concorrente dos entes federativos em questões de saúde pública — ou seja, todos têm responsabilidade sobre o tema. A decisão não exime o Executivo de realizar ações de proteção da população.

Pandemia na China

O que Osmar Terra disse: que em fevereiro e em março de 2020, os “dados concretos” que existiam sobre a pandemia de covid-19 eram da China, que naquela época já tinha controlado o surto. Ele acrescentou que isso fez com que se fizessem previsões otimistas, e citou o médico Drauzio Varella como exemplo.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Em 12 de março de 2020, a China declarou o fim do pico do surto do novo coronavírus, mas a situação em outros países era alarmante. Na ocasião, a Itália era a nação mais atingida na Europa, e chegou à máxima de 919 mortos no fim do mês.

Em 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a rápida expansão do coronavírus se configurava como pandemia. Naquela ocasião, o número de países atingidos pela doença havia triplicado.

Mesmo que março tenha registrado queda nos casos de Covid-19 na China, o país continuou a adotar medidas de restrição. O fim do isolamento em Wuhan, primeiro epicentro da pandemia, ocorreu no início de abril. Até o momento, são 4.846 mortes contabilizadas na China.

O ex-ministro omitiu fatos ao mencionar uma “previsão otimista” de Drauzio Varella. O médico disse, em janeiro de 2020 (e não em março), que a maioria das pessoas que pegassem a covid-19 teriam sintomas parecidos com os de uma “gripezinha”. Naquela ocasião, a OMS ainda não havia declarado situação emergencial e as informações sobre o vírus eram limitadas. O que Osmar Terra não disse é que Drauzio mudou de opinião ao receber informações novas sobre a gravidade da crise, e que desde então alerta seu público sobre o alto risco que o vírus traz.

Produção de vacinas em outras pandemias

O que Osmar Terra disse: que passou por cinco pandemias em seu período de vida, e que “nenhuma delas teve vacina desenvolvida a tempo”. Ele citou gripe asiática, gripe Hong Kong, gripe russa, H1N1 e Covid-19. Ele também disse que a vacina do H1N1 foi desenvolvida seis meses depois do fim da pandemia.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. A vacina contra a chamada gripe suína (ou H1N1) ficou pronta antes do final da pandemia e ajudou a reduzir as hospitalizações e mortes pela doença em 2009 e 2010.

Os primeiros casos de gripe suína foram identificados em um distrito do México em 18 de março de 2009, de acordo com uma linha do tempo publicada pela revista científica Nature. A pandemia seria oficialmente declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de junho daquele ano. Em 15 de setembro, o FDA dos Estados Unidos aprovou o uso das primeiras quatro vacinas contra a doença, e, em novembro de 2009, mais de 65 milhões de pessoas já haviam sido imunizadas no mundo. De acordo com reportagem da BBC, o número de casos havia diminuído naquela altura, mas a ferramenta foi importante para controlar a pandemia em 2010 e evitar o impacto da segunda e da terceira onda.

Previsão do Imperial College

O que Osmar Terra disse: que a “previsão apocalíptica” do Imperial College de Londres era de que iriam morrer 40 milhões. E que eles sugeriram trancar todo mundo em casa por 18 meses até encontrar a vacina.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: falta contexto. O número citado por Osmar Terra corresponde a uma previsão do Imperial College, publicada em março de 2020, caso nenhuma medida de combate ao surto de coronavírus fosse tomada. Como explica uma reportagem do Estadão, a análise empregou quatro cenários de enfrentamento à pandemia: a ação zero, em que nenhuma providência seria tomada para frear a disseminação do vírus; mitigação com distanciamento social leve, com regras pouco rígidas de isolamento; mitigação com uma maior atenção ao distanciamento de idosos; e um cenário de supressão, no qual um distanciamento social intensivo em larga escala promoveria uma redução de 75% nas taxas de contato interpessoal.

A análise aponta que medidas de mitigação poderiam salvar 20 milhões de vidas. Já as medidas de supressão evitariam ao menos 38 milhões de mortes, mas a estratégia teria que ser mantida, com breves interrupções, até a disponibilidade de vacinas e tratamento eficazes.

Os próprios autores ressaltam que o estudo não considera os cálculos de impactos sociais e econômicos das estratégias de combate à pandemia. Eles reconhecem, inclusive, que a medida poderia ter impacto maior sobre as populações de baixa renda.

Segundo o relatório, a análise não tinham o caráter de determinar qual seria o cenário futuro mais plausível da pandemia, mas apenas fornecer previsões estatísticas. O cenário, destacam os autores, seria determinado pelas ações tomadas pelos governos e países.



Agência Estado/DomTotal



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