Religião

25/06/2021 | domtotal.com

'Divino amor' revela uma sociedade cristã em crise

Medo do possível tem guiado sociedade atual, cujo modelo está em crise

Medo do possível tem guiado sociedade atual, cujo modelo está em crise
Medo do possível tem guiado sociedade atual, cujo modelo está em crise

Gilmar Pereira*

Filme bom não é só aquele que desperta emoções prazerosas, mas também – e talvez, sobretudo – aqueles que mexem conosco e nossa visão de mundo, mesmo que gerem mal-estar. Assim é Divino Amor (2019), do diretor Pedro Mascaro. O filme, retratando um futuro próximo, expõe as fissuras da vivência da fé no presente.

A história se passa no Brasil de 2027, predominantemente evangélico, quando o Carnaval deixa de ser sua celebração principal e passa a ser a Festa do Amor Supremo, na qual se exalta expectantemente a segunda vinda do Messias. Nesse contexto a religião abre espaço para modernizações, como celebrações ao modo de rave, com direito a música gospel eletrônica, e drive thru de aconselhamento e oração.

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Joana (Dira Paes) trabalha em um cartório, onde se aproveita da burocracia para tentar "salvar" casamentos em dissolução, levando-os para sua Igreja. Sua vida é o cumprimento de protocolos e regras atravessados por ideias religiosas. Ela e o marido, Danilo (Juliano Machado), tentam engravidar, apesar dos problemas que ele tem de fertilidade. A esperança de Joana é que Deus retribua à sua fidelidade. Sua vida, bem como as casas do filme, é desprovida de alegria ou vivacidade, segue padrões. Trata-se da rotina casa-trabalho-igreja centrada na figura da família como sinônimo de realização pessoal e social.

O filme retrata bem a obsessão cristã com a família e com o controle dos corpos. Embora o Estado ainda se diga laico, nessa distopia futurista a influência da religião marca a sociedade. Em todos os lugares há espécies de detectores de metais que "escaneiam" as pessoas, informando profissão, estado civil e até se a pessoa está grávida e já registrou ou não o feto nos órgãos competentes. Não há muito diálogo, mas muito protocolo. Há uma conduta a ser seguida e o aparato civil e tecnológico serve para disciplinar tudo e todos. Uma vida mecânica é exposta em tela, marcada pela voz robótica de um narrador menino.

Nesse regramento, até o que costuma fugir ao controle ganha espaços para ser ordenado. Assim acontece com a sexualidade. Na igreja de Joana, casais se encontram para viver o lema "Quem ama não trai, divide". Ali, um casal ajuda o outro, partilhando seu cônjuge, numa espécie de swing sagrado, preparado com orações e técnicas de grupos de autoajuda. Aquilo é validado por uma hermenêutica própria da Escritura e marcado por rituais de purificação e interditos. Só acontece no espaço da Igreja e não se pode ejacular na esposa do outro. No final, todos são uma grande família, onde não há traição, mas amor partilhado.

Isso pode parecer estranho e impossível a quem não conhece bem os meandros das igrejas. Talvez valha lembrar uma reportagem, que se tornou viral há alguns anos atrás, na qual um pastor, tomando uma passagem bíblica aleatória, tenta ajudar uma fiel que sonhara ter engravidado do líder religioso e sentira que isso era vontade de Deus, o que seria consentido por seu marido se assim o Senhor quisesse. Os três entraram em oração e abriram a bíblia em uma passagem aleatória na qual dizia: "Vai outra vez, ama uma mulher, amada de seu amigo e adúltera" (Oseias 3,1). O pastor, iletrado, um pedreiro humilde, não considerou o acento e leu como verbo no imperativo, interpretando que Deus mandava adulterar com a esposa do amigo, e assim foi feito.

Quando se conhece muitas famílias cristãs e se lhes escuta em aconselhamentos, sabe-se de casos de espancamentos em que a mulher não se separa porque sua união seria feita por Deus ou até mesmo de homens que são acobertados por suas esposas no abuso sexual de suas filhas, já que elas lhes devem submissão. Imaginar trocas de casais justificadas biblicamente, nesse cenário, não é nada absurdo. Tirando do contexto, há sempre uma passagem bíblica para justificar o que se quer, mesmo que seja contrária ao espírito do Evangelho.

Sem atacar alguma igreja em específico ou mesmo condenar as pessoas e suas vivências, o diretor do filme expõe os problemas do tipo de fé que tem vigorado na sociedade, aquela marcada pelo individualismo. O maior símbolo disso é o drive thru de oração, onde o fiel é atendido de seu carro por um pastor que oferece palavras de conforto padrão - chavões bem conhecidos por quem frequenta igrejas que tentam dirimir qualquer dúvida, colocando o problema ou na falta de fé da pessoa ou na incapacidade humana de entender os desígnios de Deus. A vivência religiosa em outros ambientes é até grupal, mas longe de ser comunitária.

Mesmo os casais ajudados por Joana não são seus amigos, não frequentam sua casa, mas se tornam troféus. Seus porta-retratos ficam guardados num quartinho de luz neon, como a da igreja, contabilizando sua fidelidade ao projeto divino. Na Festa do Amor Divino, a multidão dança com corpos desconectados, uma aglomeração de indivíduos. Vigora o pensamento atual de que as igrejas são prestadoras de serviço, não comunidades de fé. Devem antes mexer com os afetos, garantindo certa alienação, do que questionar a vida. Por isso, no fast-food da Palavra, o atendimento do pastor conta com música gospel nas caixas de som, fumaça para climatizar e luz neon. É preciso mexer com os afetos.

O que se vê no filme é consequência do que se vê hoje. Há vários equívocos que circulam entre os cristãos. O primeiro e mais comum é sobre o que significa religião. "Não tenho religião, eu creio em Jesus" - dizem sem entender que o caráter religioso não é simplesmente o aspecto institucional de vinculação a uma igreja ou mesmo um conjunto de práticas obrigatórias, mas todo um sistema de crenças e valores que levam a determinada leitura e modo de habitar o mundo. Crer em Jesus é ter sim uma religião, mas essa leitura foi deturpada sob o mote falacioso de que "Igreja é só placa, religião não salva ninguém. Quem salva é Jesus", esquecendo-se que essa fé chega por meio de outros, de tradições e costumes, orais e escritos. Embora Jesus seja o único mediador entre Deus e humanos, pela fé, esse conhecimento chega a cada um mediado por inúmeras pessoas e séculos de história.

O segundo equívoco é o da interpretação bíblica. Um livro com milênios de história é lido como se fosse com as categorias e culturas atuais. A maioria não é capaz de entender que a Escritura é a leitura que um povo faz da Palavra de Deus em sua história. Portanto, só é Palavra de Deus à medida em que se percebe nos fatos da vida a ação de Deus, mas enquanto percepção de um povo, a Bíblia é também palavra do humano. Entendê-la dessa maneira levaria a perceber que não se pode segui-la de modo fundamentalista, mas uma parte precisa ser iluminada por outra, captando seu sentido total e interpretando-a à luz de categorias e métodos precisos. Daí os exegetas se valerem do método histórico-crítico, das abordagem semióticas e literárias, usarem da crítica textual etc. O texto se entende no seu contexto e atualizado na fé, não cabe livre interpretação.

O terceiro equívoco está no papel da fé na interação com a sociedade. Como as interpretações do texto sagrado se tornaram plurais, há decorrente delas diversas cosmologias e antropologias. Assim, cada pessoa ou grupo tem uma ideia de como deve ser o mundo e entendem que sua missão é torná-lo como concebem. É daí que vem a pretensão de lançar candidatos à política, com a finalidade de tornar o país e o mundo como Deus quer, em preparação para o seu Reino definitivo. Daí o princípio de que "irmão vota em irmão" e por isso é que vemos figuras carismáticas que, com seu poder de retórica, colocam-se como perseguidos pelo Evangelho, para angariar apoio para seu projeto de poder mascarado de missão.

O ponto de toque para conglomerar pessoas em torno desse projeto é o moralismo sexual mascarado de proteção à família, sobretudo no argumento de "proteger nossas crianças".  Na verdade, o sentido da paternidade tem sido alterado em nossa sociedade. Ter filho virou projeto pessoal e burguês. A procriação está desvinculada do aspecto comunitário e humano. Tanto que o argumento de que o pobre não poderia ter filho, uma vez que não teria condições de cuidar, tem ganhado espaço. Tem-se filho, mas sua educação é relegada a terceiros em educação integral e, durante a noite, quer-se descansar da prole, que precisa dar sossego (mas crianças são itens valiosos no "caça likes" do Instagram).

A relação mesma é lida hoje como a de ter alguém que tampone a solidão ou o vazio existencial. É "alguém para mim", não a construção de um projeto comum de vida e amor. Como o outro nunca é capaz de suprir a falta de cada um, o desejo sempre aponta para a angústia humana. Por isso se quer calar toda variação de relação ou composição de vida, o temor sobre as questões de gênero. Ver outras possibilidades ameaça a família tradicional que não sabe lidar com suas lacunas e ausências de sentido. A obsessão cristã com a família se dá pela insegurança do desmantelamento de um tipo de sociedade da qual ela é pedra basilar.

É esse medo do possível que tem guiado nossa sociedade atual, de modo que se pode ouvir os gritos agonizantes de um modelo em crise. As ondas de conservadorismo anacrônico (que difiro de uma postura conservadora autêntica que é outra coisa), a anticiência, os ataques aos direitos humanos, aos LGBTQIA+, aos negros, às mulheres. Tudo isso é sintoma, mas que pode tomar todo o corpo social, como mostra o filme Divino Amor, se as coisas seguirem o rumo que têm tomado. É preciso romper com essa máscara de fé e o longa de Pedro Mascaro pode ser um início de conversa.

*Gilmar Pereira é doutorando em Mídia e Cotidiano e está em formação como psicanalista. Mestre em Comunicação e Semiótica, bacharel e licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, também possui formação em Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito.



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