Brasil

27/06/2021 | domtotal.com

Dique da Vila Gilda: Na maior favela de palafitas do Brasil, Covid é mais uma mazela

Erguida sobre estacas encravadas no manguezal do rio dos Bugres, em Santos, a favela é o lar de mais de 26 mil pessoas que vivem em condições precárias

Morador caminha por palafitas na favela Dique da Vila Gilda, em Santos, São Paulo, em 10 de junho de 2021
Morador caminha por palafitas na favela Dique da Vila Gilda, em Santos, São Paulo, em 10 de junho de 2021 (Miguel Schincariol/AFP)

Enquanto a pandemia deixa o Brasil enlutado, no Dique da Vila Gilda, a maior favela de palafitas do país, a Covid é apenas uma das mazelas que seus milhares de moradores enfrentam diariamente.

Em Santos, cidade costeira do estado de São Paulo que abriga o maior porto da América Latina e registra um dos mais altos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, o Dique da Vila Gilda é mais um retrato da desigualdade social do país. Erguida sobre estacas encravadas no manguezal do rio dos Bugres, é o lar de mais de 26 mil pessoas.

Trata-se de um labirinto de corredores estreitos emendados com tábuas e papelão. É preciso caminhar com cuidado e torcer para que nenhuma tábua se quebre na passagem. Alguns trechos tremem e as madeiras rangem. "Aqui se tu cai, tu vai ficar", alerta Deise Nascimento dos Santos, que levou 23 pontos na panturrilha ao sofrer uma queda quando saía de casa.

O chão de sua pequena palafita tem buracos que ela cobre com um tapete. Ela vive de doações e dos R$ 91 mensais que recebe do Bolsa Família. Com problemas de locomoção, depende dos vizinhos para sair. 

"Aqui tem rato, barata, dengue, chikungunya. A gente convive com tudo aqui", lamenta sua vizinha, Eliette Alves, que mora com o filho em uma palafita maior e pela qual paga R$ 500 de aluguel, o que consome quase 70% da sua aposentadoria.

Embora a casa seja mais espaçosa, a umidade começa a fazer estragos na madeira e Eliette reforça com tábuas soltas o chão do quarto, onde apareceu o primeiro buraco por onde pode-se ver o rio. Para ela, o mais difícil de morar na comunidade é o medo de morrer queimada enquanto dorme. Não é um medo infundado. Em abril do ano passado, um incêndio arrasou várias casas a poucos metros da dela.

"Foi horrível. Quando começou o fogo tinha o barulho da madeira estourando. Eu só tive que pedir para Deus que o fogo não alcançasse a gente", diz, apontando para uma fileira de estacas carbonizadas.

'Não é o suficiente'

Ao caminhar pelas vielas da comunidade, o mau cheiro se acentua. Cães e alguns gatos perambulam. Embaixo, entre as estacas, o lixo se acumula. Em um dia nublado, de maré baixa, a vista é desoladora, quase uma cena distópica.

"Isso aqui não é o suficiente. O suficiente é ter comida no prato, trabalho, educação, habitação digna", afirma Luciléia Siqueira de Santos, de 39 anos. Ela chama o presidente Jair Bolsonaro de "genocida" e o acusa de omissões em questões sanitária, social e econômica.

"Todos falam da Covid, mas aqui temos muitos outros problemas também", afirma. Para ela, a pandemia piorou uma situação que já era crítica. Muito pouca gente usa máscaras. Muitos moradores perderam o emprego e a necessidade econômica e a falta de espaço fazem do isolamento uma quimera.

Juliana da Silva Barbosa, de 35 anos, divide uma palafita de dois quartos estreitos com os seis filhos. Ela perdeu o emprego durante a pandemia e também se ressente da discriminação social: "somos malvistos". Mãe solteira, depende de doações para sobreviver.

Além dos problemas sanitários e socioeconômicos, a falta de internet, escolas e espaços esportivos impede a educação e o lazer das crianças da comunidade. "Os políticos só vêm aqui quando precisam. Isso é uma bomba para nós", diz Juliana, mostrando sua precária palafita.

Três dos seus filhos dividem uma cama em um quarto de menos de dois metros de largura e outros dois dormem no segundo quarto. A caçula olha ilustrações em uma minúscula tela no espaço que serve de sala. Juliana não teve Covid, mas chikungunya sim. "Aqui vem ambulância só para pegar os mortos", lamenta.

A unidade médica mais próxima fica a dez minutos de carro e a estreiteza e precariedade dos corredores da comunidade dificulta o acesso. "A assistente social que vinha aqui morreu de Covid", conta Julio Silva, de 39 anos, que também perdeu o emprego durante a pandemia.

Alguns aproveitam a maré baixa para pescar o almoço. Giovani Ferreira, de 36 anos, várias vezes recolhe a rede vazia, mas não desiste. Ele já conseguiu pegar uma tilápia e uma tainha. Antes de voltar a lançar a rede, sorri e diz: "a maré sempre traz alguma coisa". Luciléia de Santos é menos otimista: "Aqui ficamos à mercê de Deus".


AFP



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