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10/07/2021 | domtotal.com

'Nunca perfeita o suficiente': os transtornos alimentares crescem na China

Uma clínica de Xangai especializada em patologias mentais afirma ter tratado 591 casos em 2018, contra três em 2002

Militante chinesa antianorexia Zhang Qinwen mostra uma foto sua de três anos atrás, quando ainda sofria de transtornos alimentares, em 18 de maio de 2021, em Xangai
Militante chinesa antianorexia Zhang Qinwen mostra uma foto sua de três anos atrás, quando ainda sofria de transtornos alimentares, em 18 de maio de 2021, em Xangai (Hector RETAMAL/AFP)

No momento mais grave de sua anorexia, Zhang Qinwen pesava 28 quilos, o cabelo caía, ela mal conseguia andar e tinha problemas de visão. Ficou à beira da morte.

"Sabia que estava muito doente. Mas não tive coragem de ir ao médico", conta essa jovem de 23 anos.

Os transtornos alimentares (anorexia, bulimia, hiperfagia e outros) podem afetar qualquer pessoa, mas estudos mostram que atingem, principalmente, as mais jovens, especialmente adolescentes.

"Fui influenciada por tudo que via na Internet e não tinha uma boa opinião sobre mim mesma. Nunca me via perfeita o suficiente", acrescenta Zhang Qinwen, que foi parar na UTI.

O reconhecimento dos transtornos alimentares, às vezes considerados na China como um fenômeno que chega do exterior, é recente. Por isso, faltam estruturas para atender esse tipo de paciente.

"Você pode conversar com muitas pessoas, com conselheiros, ou com hospitais não especializados. Mas não saberão necessariamente como identificar a doença, ou como ajudar", explica Zhang Qinwen.

Ela espera aumentar a conscientização com uma exposição em Xangai, em que se veem fotos de uma adolescente chorando, caixas de remédios jogadas no chão, ou a palavra "KILL" ("MATAR", em português) projetada em uma parede branca.

'Ter carne', um indicativo socioeconômico

Não existem estatísticas nacionais sobre transtornos alimentares, mas há 20 anos os hospitais das grandes cidades recebem mais pedidos de tratamento.

Uma clínica de Xangai especializada em patologias mentais afirma ter tratado 591 casos em 2018, contra três em 2002.

O mesmo aconteceu em um hospital de Pequim, citado pelo jornal "China Daily": de 2002 a 2012, o número de pacientes passou de cerca de 20 para mais de 180, o que levou a instituição a abrir um serviço dedicado a esses transtornos.

"Quando meus pais eram jovens, 'ter carne' era uma forma de mostrar que você vinha de uma família rica", explica Xie Feitong, uma estudante de 21 anos que visitava a exposição.

Nas últimas décadas, tudo mudou: o aumento do nível de vida levou a "uma obsessão pela perda de peso", afirmou, recentemente, a televisão pública em inglês CGTN.

Assim como em outros lugares, a Internet e as redes sociais, sobretudo, contribuem na China para a disseminação de uma imagem estereotipada da mulher "ideal" com um corpo esguio, o que pode se transformar em uma cobrança para muitos e muitas internautas.

As meninas competem em fotos na rede para ver quem é mais magra, e isso pode fazê-las odiar seu corpo - especialmente na China, onde a beleza está associada a um corpo magro.

A influência do #MeToo

A exposição de Xangai tem como objetivo responder a esses estereótipos, por exemplo, por meio de uma paródia de casamento de mulheres jovens celebrando a aceitação de seus corpos.

"Sempre acreditamos que tínhamos um corpo cheio de defeitos", diz Zhang Qinwen, de véu de noiva.

"Com este casamento fictício que celebramos hoje, queremos mostrar que realmente nos amamos como somos", completa.

Muitas das garotas que visitam a exposição se identificam com Zhang Qinwen, com sua extrema perda de peso, sua angústia e seu isolamento. Algumas contam que seus companheiros zombaram delas, ou as assediaram, por não serem magras, brancas, ou bonitas o suficiente.

A anorexia não é uma novidade na China, mas os jornais passaram a falar do problema há um ou dois anos.

De acordo com Xie Feitong, o movimento global #MeToo levou as mulheres a falarem mais sobre esses temas e permitiu que elas se opusessem aos padrões tradicionais de beleza.


AFP



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