Brasil Política

30/06/2021 | domtotal.com

CPI da Covid: Carlos Wizard opta por permanecer em silêncio durante sessão

Empresário é tido como peça-chave do gabinete paralelo que aconselhava Bolsonaro

Empresário é tido como peça-chave do gabinete paralelo que aconselhava Bolsonaro
Empresário é tido como peça-chave do gabinete paralelo que aconselhava Bolsonaro Foto (Reprodução Agência Senado)

Atualizada às 12h

Com o primeiro testemunho marcado para 17 de junho, quando não compareceu, o empresário Carlos Wizard Martins - apontado como integrante do "gabinete paralelo" de aconselhamento ao presidente Bolsonaro no enfrentamento à pandemia e já inserido na lista dos primeiros 14 investigados da CPI - deve finalmente ser ouvido pela CPI nesta quarta-feira (30).

O empresário começou seu depoimento buscando justificar o fato de não ter comparecido para depor à comissão antes - fato que gerou um grande desgaste de Wizard frente aos membros do colegiado. Segundo Wizard, ele estava nos Estados Unidos desde março deste ano, já que seu pai, de 87 anos, que mora no país, está com a saúde debilitada. "No momento que ele mais precisa de apoio", disse Wizard.

"Jamais em tempo algum passou pelo meu pensamento, na minha mente, a indisposição de estar presente fazendo meu depoimento, não tenho razão para isso", afirmou. O empresário afirmou ainda que a filha, grávida, também mora nos Estados Unidos, e enfrenta uma gravidez de risco. "Seu bebezinho nasce nos próximos dias, meu neto de numero 19. Se a sua filha tivesse prestes a dar a luz, o que você faria?", disse o empresário à CPI.

No entanto, após dar esses esclarecimentos inicial, Carlos Wizard optou por se calar frente aos questionamentos do relator da CPI, Renan Calheiros. O empresário tem um habeas corpus cedido pelo ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF) para não responder a perguntas que o incriminem."

O depoimento de Wizard ocorre no momento em que outras denúncias se sobrepõem ao foco no gabinete paralelo. Com a denúncia de possíveis irregularidades na compra da vacina Covaxin, pelo deputado Luis Miranda (DEM-DF) e seu irmão Luis Ricardo Miranda, funcionário do Ministério da Saúde, a CPI passou a investigar também a relação de empresários com compras de testes e vacinas. Segundo Miranda, o esquema de irregularidades foi comunicado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em 22 de março. Suspeito de prevaricação, o governo  já alterou três vezes sua versão de supostas providências tomadas pelo presidente. 

Na terça-feira, a revista Crusoé publicou entrevista com o deputado Miranda, na qual ele diz que revelou a aliados que o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR) e o lobista Silvio Assis teriam oferecido propina de US$ 0,06 a cada dose de vacina contratada pelo Ministério da Saúde para que Miranda parasse de atrapalhar a negociação para aquisição das vacinas da Covaxin.

Outra denúncia, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo também na noite de terça-feira, traz uma entrevista com o representante da empresa Davati Medical Supplyno Brasil, o empresário Luiz Paulo Dominguetti Pereira. Na entrevista, o empresário afirma que o diretor do Departamento de Logística (DLOG) do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, pediu propina de US$ 1 por dose na negociação para a venda de 400 milhões de vacinas AstraZeneca ao governo. Roberto Dias foi exonerado na terça-feira (29).

Adiamento do depoimento

O depoente desta quarta-feira, Carlos Wizard, será ouvido quase duas semanas após sua convocação. Ao saber que seria convocado pela comissão em 17 de junho, o empresário tentou inicialmente ser ouvido por videoconferência, o que lhe foi negado. Apesar de ter obtido habeas corpus, o empresário, que estaria nos Estados Unidos desde 30 de março, não se apresentou ao colegiado, o que o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), definiu à época como um desrespeito "não com a CPI, mas com o STF".

Após os integrantes da CPI decidirem que, além do pedido de condução coercitiva autorizado pelo STF, eles acionariam a Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal) para localizar Wizard, advogados do empresário procuraram os senadores e informaram que o cliente se apresentaria em data e hora agendadas pela comissão.

O empresário retornou ao Brasil na segunda-feira (28). A Justiça Federal em Campinas (SP) autorizou a retenção de seu passaporte, o que foi feito assim que ele desembarcou no Aeroporto de Viracopos (SP).

A convocação de Wizard foi solicitada por meio de requerimento apresentado pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), que julga ser essencial "esclarecer os detalhes de um 'ministério paralelo da saúde', responsável pelo aconselhamento extraoficial do governo federal com relação às medidas de enfrentamento da pandemia, incluindo a sugestão de utilização de medicamentos sem eficácia comprovada e o apoio a teorias como a da imunidade de rebanho".

Já foram aprovados, inclusive, requerimentos para quebra de sigilo bancário, telefônico, telemático e fiscal de Wizard.

Aconselhamento

À CPI, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, também no rol dos investigados da comissão, afirmou que o empresário atuou informalmente como seu conselheiro por um mês. Wizard foi até indicado para uma secretaria do órgão, mas recusou o convite.

Quando ouvida pela comissão, em 1º de junho, a médica Nise Yamaguchi, também apontada como integrante do "assessoramento paralelo", disse que ela e Wizard participaram da criação de "uma conselho consultivo independente", sem vínculo oficial com o Ministério da Saúde.

"A gente queria oferecer o conhecimento de uma forma organizada, sem que houvesse um vínculo oficial. E o que teve foi um conselho consultivo independente. Aliás, várias pessoas acabaram não ficando, porque, antes de ele começar, acabou havendo uma perseguição tão grande da mídia que a gente acabou dissolvendo o grupo", expôs Nise.

Em depoimento à comissão no dia 9 de junho, o ex-secretário-geral do Ministério da Saúde Antônio Élcio Franco Filho admitiu ter tido uma reunião com empresários, entre eles Wizard e Luciano Hang, para tratar da ideia da compra de vacinas para os funcionários de suas empresas.

Relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL) criticou recentemente uma suposta falta de transparência do governo no acesso a documentos do Ministério da Saúde e reclamou de "informações contraditórias" sobre as visitas do empresário ao Palácio do Planalto.

"Vamos continuar investigando. A tarefa não é fácil, para que isso aconteça é importante que as pessoas do governo saibam que podem incorrer em problemas, na medida em que não facilitam esses acessos", disse Renan.

Novas denúncias

Também estaria no rol de investigação da CPI uma possível negociação do Ministério da Saúde para a compra da vacina chinesa Convidecia. A aquisição desse imunizante teria o intermédio da empresa Belcher Farmacêutica, com sede em Maringá (PR), que agiu como representante local do laboratório CanSino Biologics.

A informação é de que um dos sócios da Belcher é filho de um empresário próximo ao deputado Ricardo Barros (PP-PR), ex-prefeito de Maringá. Na última sexta-feira (25), o deputado Luis Miranda (DEM-DF) afirmou que o presidente Bolsonaro citou o nome de Barros como suposto mentor por trás das possíveis irregularidades na compra de outra vacina, a indiana Covaxin.

Da mesma forma, os senadores querem confirmar se empresários aliados do presidente Bolsonaro, entre eles Wizard e Hang, estariam agindo em favor das negociações para a cada compra da Convidecia, que seria comercializada a US$ 17 a unidade, totalizando 60 milhões de doses.

Acompanhe a sessão

Reunião e convocações

A reunião da CPI da Covid desta quarta-feira (30) será dividida em três etapas. Primeiro, a comissão votará pedidos de empresas farmacêuticas para substituir convocados. A segunda parte prevê a análise de requerimentos para novas convocações de depoentes e fornecimento de informações. Após a fase deliberativa, será tomado o depoimento do empresário Carlos Wizard Martins, já na condição de investigado.

Na pauta da CPI foram incluídos 102 requerimentos que devem ser analisados nesta quarta-feira. Entre eles, está a convocação do deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara do Deputados. Os parlamentares querem ouvir Barros sobre envolvimento na compra da vacina indiana Covaxin. As convocações de Regina Célia, servidora do Ministério da Saúde, Túlio Silveira, representante da Precisa Medicamentos, também estão entre os requerimentos.

Devem ser votados nesta quarta-feira os requerimentos dos senadores Renan Calheiros (MDB-AL), Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Humberto Costa (PT-PE) para convocação de Luiz Paulo Dominguetti Pereira, representante da Davati Medical Supply. 


Agência Senado/Dom Total



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.