Brasil Política

01/07/2021 | domtotal.com

CPI: Vendedor de vacinas confirma pedido de propina e cita Miranda em negociação

Luiz Paulo Dominguetti revela áudio, que deputado afirma que é antigo e está adulterado

O policial militar afirma que esteve três vezes no Ministério da Saúde
O policial militar afirma que esteve três vezes no Ministério da Saúde Foto (Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Atualizado às 12h40

O policial militar Luiz Paulo Dominguetti Pereira confirmou que recebeu um pedido de propina de US$ 1 por dose para vender vacinas ao Ministério da Saúde. Ele se apresentou como representante da Davati Medical Supply e disse que esteve três vezes no ministério em nome da companhia. O preço inicial das doses era de US$ 3,5, declarou.

No depoimento, Dominguetti declarou ter recebido o pedido de propina no dia 25 de janeiro por Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de Logística em Saúde do ministério. Dias foi exonerado na quarta-feira (30), do cargo após ser acusado de pedir propina na negociação. "Ele sempre pôs o entrave no sentido que, se não majorasse a vacina, não teria aquisição do Ministério da Saúde. Ele disse que a pasta dele tinha orçamento que poderia comprar a vacina".

Durante o testemunho, ele declarou que teve aval do representante oficial da Davati no Brasil, Cristiano Alberto Carvalho, para representar a empresa na negociação com o Ministério da Saúde. Como policial militar, declarou que atuou na função para ter uma complementação de renda. A Davati afirmou que Dominguetti intermediou a relação da companhia com o governo federal na posição de "vendedor autônomo".

Na CPI, ele ressaltou que não poderia interferir no preço da oferta diante da oferta de propina. "Não tem como eu chegar e aceitar qualquer coisa, embora seja imoral também, porque eu teria que tirar do meu bolso para pagar", disse. A primeira ponte de negociação foi feita por meio de Marcelo Blanco, ex-assessor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, que teria apresentado o representante a Roberto Ferreira Dias, de acordo com o depoimento.

Depoente envolve Luis Miranda

O policial militar afirmou ainda que o deputado Luis Miranda (DEM-DF) tentou negociar a compra de vacinas contra a Covid-19 com a empresa Davati Medical Supply. A negociação é investigada pela CPI da Covid após Dominguetti ter dito que recebeu um pedido de propina do ex-diretor de Logística em Saúde da pasta Roberto Ferreira Dias, exonerado ontem do cargo.

Luis Miranda se tornou pivô na CPI após ter dito que alertou o presidente Jair Bolsonaro sobre um suposto esquema de corrupção na compra da vacina indiana da Covaxin. Dominguetti, por sua vez se apresentou como vendedor de 400 milhões de doses da AstraZeneca pela Davati. O laboratório, no entanto, nega que tenha intermediários para os contratos.

"Ele procurou a Davati, se não me engano o Cristiano (Cristiano Alberto Carvalho, representante oficial da empresa no Brasil), tentando negociar a aquisição de compra de vacina", disse Dominguetti na CPI. "Volta e meia tinha parlamentares, não sei quem, lhe procurando e quem mais insistia era o Luis Miranda, o mais insistente". 

"Se o produto estiver no chão e meu nome 'Luis Miranda, tenho aqui o produto e tal', o meu comprador entende que é fato, ok, e encaminha toda a documentação necessária, amarra, faz as travas, faz os contratos todos e bola para frente", diz o áudio exibido na CPI nesta quinta-feira. A gravação, de acordo com Dominguetti teria sido enviada ao representante oficial da Davati no Brasil Cristiano Alberto Carvalho. O depoente informou que recebeu o áudio após o depoimento de Luis Miranda na CPI, na semana passada.

Miranda entrou na sala do Senado e se reuniu com senadores reservadamente. Segundo o senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI, o deputado relatou que o áudio revelado pelo depoente é de 2020 e foi adulterado para prejudicá-lo. Aziz ainda informou que Miranda se dirigiu à Polícia Federal para análise técnica do áudio revelado por Dominguetti. 

O áudio provocou controvérsia na CPI. Os senadores suspeitam de uma tentativa do governo do presidente Jair Bolsonaro de tentar "virar o jogo" na investigação. "Não venha achar que aqui todo mundo é otário, nem pateta. Veja bem qual é seu papel aqui. Do nada surge um áudio do deputado Luis Miranda. Chapéu de otário é marreta, irmão", afirmou o presidente da CPI, Omar Aziz. O deputado foi convocado para prestar um novo depoimento, inicialmente secreto, na próxima terça-feira (6). Aziz, porém, anunciou que a audiência será pública.

A suspeita também foi comungada pelo deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP). Em publicação no Twitter sobre o áudio veiculado pelo policial militar, ele escreveu que "Dominguetti é militar infiltrado que apresentou um áudio de 2020 para implicar Luis Miranda e seu irmão. Todos devem ser rigorosamente investigados. Dominguetti precisa sair preso da CPI por sabotar as investigações. Isso é um escândalo e tem a digital do Planalto". 

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Bate-boca

O relator da CPI, senador Renan Calheiros afirmou que o governo tenta atrapalhar a apuração, citando também uma estratégia de abrir inquérito na Polícia Federal e barrar o depoimento de investigados na CPI, entre eles o do dono da Precisa Medicamentos, Francisco Maximiano, que negociou a compra da Covaxin.

"Essa CPI não vai aceitar esse tipo de coisa. Nós não estamos aqui para isso. Estamos aqui para investigar. Esses genocidas que causaram tanta dor ao Brasil vão ser responsabilizados sim, haja o que houver", declarou Renan, em bate-boca com a tropa de choque do Palácio do Planalto na CPI. De acordo com o relator, a PF "foi usada" ao abrir o inquérito. Os senadores Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) e Marcos Rogério (DEM-RO), aliados de Bolsonaro, rebateram a declaração e afirmaram que PF transformou Maximiano em investigado após a quebra de sigilo determinada pela comissão.

Elcio Franco não sabia da proposta

Luiz Paulo Dominguetti Pereira afirmou que se reuniu com o ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde Elcio Franco para negociar a venda de vacinas pela empresa Davati Medical Supply. 

Elcio Franco foi o número 2 do ex-ministro Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde e era responsável por conduzir as negociações. Os dois são investigados pela CPI. Dominguetti disse ter sido surpreendido quando verificou que Elcio Franco, em reunião no ministério, não sabia da oferta da empresa.

O encontro teria ocorrido no ministério após a conversa com Roberto Dias. Na reunião com o número 2 da pasta, o vendedor da Davati disse que mencionou que a proposta de venda já havia sido feita a ao diretor de Logística em Saúde. "Houve uma troca de olhares, ele (Elcio) abaixou a cabeça, solenemente saiu e pediu para que dois estagiários pegassem nossos nomes e que ele entraria em contato, ele iria validar a proposta da Davati".

Dominguetti declarou ter recebido o pedido de propina no dia 25 de janeiro por Roberto Ferreira Dias durante um jantar no restaurante Vasto, em Brasília. A conta, de acordo com o depoente, foi paga em dinheiro por Roberto Dias. Além de Elcio Franco e Roberto Dias, as conversas também foram feitas com o diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis, Lauricio Monteiro Cruz. O vendedor negou que conheça o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressista-PR). O deputado se tornou alvo na CPI ao ser citado nas negociações para compra de vacina.



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