Religião

02/07/2021 | domtotal.com

A estratégia de Francisco para socorrer o Líbano

Em encontro realizado com líderes cristãos libaneses, mais uma cartada do papa para salvar o cristianismo no Oriente Médio

Francisco faz um esforço para que o Líbano não viva momentos de terror como aqueles registrados em outros países do Oriente Médio
Francisco faz um esforço para que o Líbano não viva momentos de terror como aqueles registrados em outros países do Oriente Médio (Vatican Media)

Mirticeli Medeiros*

O papa Francisco é corajoso e ninguém tem dúvida disso. As escolhas que ele tem feito ao longo do seu pontificado demonstram que a ousadia é uma das suas marcas. Os cardeais estavam certos ao apostarem no então arcebispo de Buenos Aires Jorge Bergoglio, em 2013; um líder nato que confia nas suas intuições, à revelia de todas as resistências que o circundam.

Francisco é aquele "impetuoso consciente" e usa essa sua característica a seu favor. E foi graças à sua coragem que o Vaticano passou a ganhar mais visibilidade junto à comunidade internacional. Embora esse título de "Estado conciliador" nunca o tenha abandonado, na era Francisco o Vaticano não só continua sendo reconhecido como tal, mas é convocado frequentemente para exercer essa influência.

A Argentina que o diga. Graças à mediação de Francisco, a dívida externa do país está sendo renegociada junto ao FMI. O Iraque, visitado pelo santo padre em março deste ano, já vislumbra a retomada das peregrinações, em resposta à "task force ecumênica e inter-religiosa" impulsionada pelo papa argentino. E eu poderia elencar tantos outros exemplos.

É necessário entendermos, antes de qualquer coisa, quais as características dessa "geopolítica bergogliana", evitando ao máximo focar somente na questão eclesial. O pontífice atual volta sua atenção ao chamado "Sul Global", um conceito das Relações Internacionais que serve para designar o bloco de países em desenvolvimento. Pelo menos 90% dos países visitados por Francisco fazem parte dessa categoria. E já podemos dizer que ele é o papa moderno que mais canaliza esforços para esses territórios.

Ele foca em países onde cristãos são minoria, em lugares nunca antes visitados por um papa, bem como naqueles que sofrem com o drama da imigração forçada. O pontífice prefere enfrentar os limites da própria idade, e ir a esses lugares, a expedir declarações ou mensagens de solidariedade. Sem contar que, na qualidade de líder global, ele tem consciência do quanto sua presença causa impacto.

Foco no Líbano

Na última quinta-feira (1º), os líderes cristãos libaneses (católicos, ortodoxos e protestantes) se reuniram com o pontífice no Vaticano. A iniciativa foi de Francisco, que se preocupa com o futuro do país, o qual pretende visitar em breve.

A atenção do papa se volta ao Oriente Médio como um todo, onde especialistas analisam que o cristianismo está fadado a desaparecer caso nada seja feito. E é o
líder da Igreja Católica quem assume para si a causa, fazendo o que está a seu alcance para evitar que isso aconteça.

Após a histórica visita ao Iraque deste ano, o pontífice teme que o Líbano, o país mais cristão do Oriente Médio (50% da população se declara adepta da religião), entre para a lista de países onde o êxodo em massa dos cristãos se tornou algo comum e difícil de ser contornado.

No Líbano, metade das pessoas, atualmente, vive abaixo da linha de pobreza. E as tensões, provocadas por uma sucessão de crises, só aumentam. O medo é que mais cedo ou mais tarde isso culmine numa nova guerra civil. E é a iminência de um conflito que tem levado o pontífice a querer visitar o país a todo custo. Se não fosse a pandemia, ele já estaria lá, inclusive.

O papa também acredita que não só os católicos devem se empenhar na hora de enfrentar esse tipo de crise, mas todos os cristãos. Para ele, o ecumenismo praticado em encontros e debates teológicos deve se concretizar na vida, pelo bem da humanidade.

Em discurso bastante corajoso, proferido nessa quinta-feira, tomando como referência o que já aconteceu na Síria e no Iraque, embora não tenha mencionado os dois países, Francisco condena os países ocidentais que acumulam vantagens em torno da destruição da região:

"Basta com usar o Líbano e o Oriente Médio para interesses e lucros alheios! É preciso dar aos libaneses a possibilidade de serem protagonistas dum futuro melhor, na sua terra e sem interferências indevidas", disse.

A lucidez do papa é impressionante, bem como a capacidade que ele tem de se fazer ouvir. Só que, desta vez, ao convocar os demais líderes cristãos libaneses para traçar uma linha de ação concreta, ele quer demonstrar que enquanto o conflito de interesses impera, os cristãos, unidos, devem lutar pela única causa que importa: a do povo. Daí você pode perguntar: o que o papa tem a ver com isso? Tudo, já que é um dos poucos líderes do mundo que acreditam que onde não há justiça não há paz.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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