Brasil

05/07/2021 | domtotal.com

Corruptos não têm coração

Casos de possível corrupção no Ministério da Saúde estão na mira da CPI da Pandemia

Congresso Nacional recebe iluminação em referência ao projeto de lei que autoriza o governo a decretar a licença compulsória temporária de patentes de vacinas, testes de diagnóstico e medicamentos para para o enfrentamento da covid-19
Congresso Nacional recebe iluminação em referência ao projeto de lei que autoriza o governo a decretar a licença compulsória temporária de patentes de vacinas, testes de diagnóstico e medicamentos para para o enfrentamento da covid-19 (Leopoldo Silva/Agência Senado)

Afonso Barroso*

Corrupção é uma palavra muito citada no Brasil. E o pior: muito praticada desde tempos históricos. A origem do termo é latina e variada, mas eu fico com a de Santo Agostinho, para quem a etimologia vem de cor (coração) e ruptus (rompido, partido). Ou seja, é a ruptura do coração, o que faz todo sentido. O corrupto não tem coração, porque de modo geral pensa só em si mesmo, em se locupletar, sem se importar com eventual prejuízo do alheio, sabendo-se que no caso o alheio é a própria Nação.

Dizem que a corrupção existe desde que o mundo é mundo, mas é possível reduzir essa concepção para desde que o Brasil é Brasil. Começou, como se sabe, com Pedro Álvares Cabral, que trouxe o vírus de Portugal em suas caravelas, e o trem aqui se alastrou.

A corrupção é o pior dos males na vida pública. Para ilustrar, transcrevo trecho de um dos sermões do padre Antônio Vieira, no século 17. Pregou ele:

"O ladrão que furta para comer não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera. (...) os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. – Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam".

O certo é que houve casos de corrupção em quase todos os governos brasileiros. Uma exceção foi o governo do mineiro Juscelino Kubitschek. Suspeitas até que houve, mas nunca se provou nada. O homem que comandou a construção de Brasília foi outro mineiro, Israel Pinheiro. Era uma oportunidade de altos rendimentos pessoais se fosse corrupto, mas Israel morreu exatamente com o patrimônio que possuía antes de assumir o posto para o qual fora incumbido por JK. Assim como o presidente (o maior da nossa História, diga-se), Israel Pinheiro era um homem honesto.

Após a chamada Revolução de 1964, o primeiro presidente militar, general Castelo Branco, resolveu criar a Comissão Geral de Investigações, com a finalidade de apurar possíveis atos de corrupção do governo deposto de João Goulart. Qual o quê, não apurou coisíssima nenhuma e a tal comissão acabou sendo extinta. Não havia mais o que investigar, até porque a ditadura não iria investigar a si própria.

Durante o governo Sarney a corrupção tornou-se endêmica e prosseguiu na administração de Collor, com um breve intervalo no governo Itamar Franco. O Mensalão e o Petrolão da era Lula foram desvendados, primeiramente a partir das denúncias de um deputado altamente suspeito do chamado Centrão, grupo político que hoje já se abrigou no governo Bolsonaro. O Petrolão veio a seguir com a operação meio policial e meio política da Lava Jato

Tentativas de corrupção endêmica no Ministério da Saúde estão na mira da CPI da Pandemia. Embora ainda esteja na fase de sintomas, a coisa pode chegar a um diagnóstico capaz de comprovar a ocorrência atualizada da doença nesta nossa pátria amada.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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