Religião

08/07/2021 | domtotal.com

Médica sobre doença do papa: 'Pensei que era câncer'

Dom Total conversou com uma proctologista brasileira sobre a estenose diverticular que levou Francisco à mesa de cirurgia esta semana

Foto do hospital Gemelli, Roma, onde o papa Francisco permanece internado após a cirurgia do cólon
Foto do hospital Gemelli, Roma, onde o papa Francisco permanece internado após a cirurgia do cólon (Andreas Solaro/AFP)

Mirticeli Medeiros e Gilmar Pereira

Todos foram pegos de surpresa, no último domingo, quando o Vaticano anunciou que o papa seria submetido a uma cirurgia. Naquele dia, Francisco seguiu a mesma rotina de sempre e até rezou o Angelus no balcão do Palácio Apostólico, que dá para a praça de São Pedro.

Tudo parecia normal até recebermos a nota da Sala de Imprensa da Santa Sé: "O santo padre será submetido a uma cirurgia programada para reparar uma estenose diverticular" (uma espécie de estreitamento do intestino grosso). E foi aí que tudo começou.

Não demorou muito para que as pessoas questionassem se ele estava bem, se era uma operação de emergência e quanto tempo ele precisava para se recuperar. Como é de praxe, essas respostas foram chegando aos poucos, já que o Vaticano, na tentativa de não criar alarde, às vezes dá margem, com esse tipo de postura, às elucubrações coletivas.

Estávamos diante de um homem de 84 anos que seria submetido a uma operação de média complexidade.

O próprio silêncio de Francisco durante o Ângelus, que aconteceu horas antes da sua internação no hospital, também deixou os fiéis ainda mais preocupados. Porém, quando o próprio santo padre recebe a orientação de não comentar esse tipo de coisa, geralmente é para não atrapalhar o esquema de segurança, que é montado, nesses casos, para acompanhá-lo ao longo do trajeto. O Vaticano fica a 6 quilômetros do bairro Torrevecchia, onde está localizado o Policlínico Gemelli. Francisco fez o percurso de carro e estava acompanhado somente do motorista e de seu secretário.

Na semana passada, o pontífice havia pedido orações aos fiéis de maneira mais incisiva, fugindo do tradicional "rezem por mim", que ele pronuncia ao final dessa oração, por um: "Peço que rezem pelo papa. Rezem de modo especial. O papa tem necessidade das vossas orações". Sendo assim, não tem como descartar que, a poucos dias do procedimento, Francisco estivesse apreensivo. Quem não estaria?

Haja vista que, historicamente, o Vaticano detalha pouco sobre as doenças dos papas, principalmente quando se trata de uma situação delicada, nada mais justo que contar com a opinião de especialistas sobre o caso e investigar a questão a fundo.

Para isso, o Dom Total ouviu a proctologista Leandra Carneiro, de Contagem, Minas Gerais. Perguntamos quais cuidados esse tipo de procedimento exige, bem como os riscos que ele corre após a intervenção.

Tendo em mãos os boletins divulgados até agora, a médica descartou a possibilidade de a doença ser maligna. Reiterou que o fato de a cirurgia ter sido programada, mostra que os médicos quiseram evitar, justamente, que ela evoluísse para um quadro mais grave. "Quiseram operá-lo enquanto ele ainda estava bem", disse.

Leandra explicou que a cirurgia aconteceu dentro dos padrões, uma vez que é a esse tipo de técnica que os especialistas recorrem quando estão diante de uma estenose diverticular. Foi feita uma laparoscopia, uma cirurgia por vídeo.

"A recuperação, neste caso, é muito mais rápida e pode ser feita tranquilamente numa pessoa de 84 anos", salientou.

De acordo com o boletim divulgado pelo Vaticano, os médicos fizeram uma hemicolectomia no papa, quando uma pequena parte do intestino grosso é retirada.

Como esse procedimento também é feito em diagnósticos de câncer, questionamos a médica a respeito dessa possibilidade.

"A primeira coisa que pensei quando vi a notícia foi em câncer, já que condiz bastante com a idade do papa e pode acontecer mesmo. Lembro do caso do Tancredo Neves. Disseram que ele tinha uma diverticulite [como a do papa], mas era câncer de intestino. Ainda que fosse, isso não limitaria suas atividades, pois a evolução de câncer numa pessoa idosa é muito lenta. E é muito pouco provável [se fosse câncer] estar em grau avançado ou haver a presença de metástase. Se fosse, portanto, estaria em fase inicial. Por outro lado, com a facilidade que temos de fazer uma colonoscopia hoje, caso houvesse a presença de câncer, isso já teria sido detectado com antecedência. Portanto, [neste caso, em particular] acho pouco provável de ser".

Em boletim divulgado esta semana, o Vaticano informou que Francisco ficará internado por até 7 dias, caso não haja complicações. Além disso, reforçou que o papa responde bem ao tratamento pós-operatório. O Vaticano também informa que na quarta-feira (7), o "papa Francisco teve um dia tranquilo, alimentando-se e locomovendo-se de forma autônoma" e que, por conta de um episódio febril, à noite, "foi submetido a exames de rotina, microbiológicos e a uma tomografia computadorizada de tórax e abdômen, com resultado negativo" na manhã desta quinta-feira (8).

Com agenda fechada para agosto e setembro, Francisco marcou a operação justamente para este mês, por coincidir com suas férias. Ele próprio, segundo fontes, teria pedido que tudo fosse feito na máxima discrição. Trata-se de uma práxis comum do Vaticano, que oculta a gravidade das enfermidades do papa, a fim de que não atrapalhe seu pontificado, com o início de especulações sobre um possível substituto. De fato, as informações sobre o estado de saúde foram sendo divulgadas parceladamente e, somente nesta quinta, foi-se descartada a hipótese de tumor, dando a entender que essa possibilidade tenha sido aventada até o momento. 

O santo padre está internado no décimo andar do Hospital Agostino Gemelli, em Roma, onde João Paulo II também foi assistido após ter sido baleado em 1981. O local é um espaço fixo reservado aos pontífices e não chegou a ser utilizado nenhuma vez por Bento XVI.



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