Meio Ambiente

08/07/2021 | domtotal.com

Aumento da acidez na atmosfera têm impacto decisivo no equilíbrio dos oceanos

Nutrientes em excesso favorecem determinadas espécies em detrimento de outras

Corais podem ser diretamente danificados com maior acidificação das águas oceânicas
Corais podem ser diretamente danificados com maior acidificação das águas oceânicas (Supplied/Divulgação)

O primeiro estudo a examinar o impacto da acidez no transporte de nutrientes para o oceano demonstra que a forma como os nutrientes são entregues afeta a produtividade do oceano e sua capacidade de absorver CO 2 da atmosfera.

A pesquisa, Changing atmospheric acidity as a modulator of nutrient deposition and ocean biogeochemistry, foi publicada na Science Advances. A análise foi realizada por uma equipe internacional de especialistas, patrocinada pelo Grupo de Especialistas das Nações Unidas em Aspectos Científicos da Proteção Ambiental Marinha (Gesamp).

O professor Alex Baker, professor de química marinha e atmosférica na Escola de Ciências Ambientais da University of East Anglia (UEA), é o autor principal. Ele disse: "As emissões humanas de poluentes têm causado mudanças significativas na acidez da atmosfera, levando a impactos ambientais bem conhecidos, como a chuva ácida". Para ele, "a acidez atmosférica afeta a quantidade e distribuição de nutrientes (nitrogênio, fósforo e ferro) entregues ao oceano".

"Os ácidos atacam a superfície das partículas de poeira do deserto à medida que são transportadas pela atmosfera, aumentando a proporção do fósforo e do ferro contidos nessas partículas que se dissolvem quando a poeira cai no oceano. Nosso trabalho sugere que o aumento da acidez desde a Revolução Industrial aumentou as proporções de fósforo e ferro que são solúveis em 14% e 16%, respectivamente. Esses aumentos terão um efeito fertilizante direto no fitoplâncton marinho", detalha.

No mesmo período, as emissões de poluentes pelo menos dobraram a quantidade de nitrogênio adicionado aos oceanos por meio da atmosfera. A professora Maria Kanakidou da Universidade de Creta em Heraklion, Grécia, também contribuiu para a pesquisa usando modelagem de deposição de transporte química global. Segundo ela, "a acidez controla a distribuição do nitrogênio entre as partículas e os gases na atmosfera, de modo que as mudanças na acidez alteram o período de tempo que o nitrogênio permanece na atmosfera e, portanto, onde no oceano será depositado".

Além da fertilização, essas mudanças na quantidade e na distribuição geográfica da deposição de nutrientes também afetam o equilíbrio ecológico do oceano. O professor Kanakidou explica que "as comunidades fitoplanctônicas são sensíveis às proporções de nutrientes disponíveis para elas. As mudanças na deposição de nutrientes que identificamos provavelmente levaram a mudanças ecológicas, já que a entrada atmosférica altera o equilíbrio de nutrientes das águas superficiais. Essas mudanças podem promover certos tipos de fitoplâncton sobre outros, dependendo da adaptação dos organismos aos níveis relativos de nutrientes presentes na água".

Chuva ácida

Outro membro da equipe, professor Athanasios Nenes, é da Ecole Polytechnique Fédérale de Lausanne, Suíça, e do Centro para o Estudo da Qualidade do Ar e Mudanças Climáticas da Fundação para Pesquisa e Tecnologia Hellas em Patras, Grécia.

Nenes afirma que "as partículas finas de aerossol tendem a permanecer fortemente ácidas, apesar das consideráveis reduções nos poluentes. Entender esse comportamento contraintuitivo e seu impacto no fornecimento de nutrientes ao oceano só se tornou possível graças aos avanços na teoria e na modelagem".

E completa: "As emissões antropogênicas continuarão a mudar a acidez da atmosfera no futuro. Os controles de emissões implementados para lidar com a chuva ácida reduzirão a acidez do aerossol em muitas regiões do mundo, enquanto o desenvolvimento econômico contínuo provavelmente verá mais aumentos na acidez em outras regiões".

É improvável que o sistema retorne à sua condição pré-industrial, porque os incêndios florestais – que influenciam tanto o fornecimento de nutrientes quanto a acidez – terão um papel mais importante em um clima mais quente e o impacto disso é altamente incerto.

O professor Baker completa, afirmando que "o conhecimento das complexas interações entre o fornecimento de nutrientes e as comunidades microbianas marinhas é limitado. As previsões das consequências das mudanças de longo prazo na acidez atmosférica nos ecossistemas marinhos precisarão ser consideradas juntamente com outros fatores de estresse no sistema, como acidificação, aquecimento e desoxigenação".

Publicado originalmente em EcoDebate, com tradução de Henrique Cortez.


EcoDebate



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