Religião

09/07/2021 | domtotal.com

Papa em recuperação. Quem fica no lugar dele?

Entenda como o Vaticano e a Igreja Católica se organizam diante da ausência de seu líder máximo

O bispo de Dallas, Kevin Joseph Farrell, caminha após se ajoelhar diante do papa Francisco para jurar lealdade e se tornar cardeal, em 19 de novembro de 2016, durante um consistório na basílica de Pedro
O bispo de Dallas, Kevin Joseph Farrell, caminha após se ajoelhar diante do papa Francisco para jurar lealdade e se tornar cardeal, em 19 de novembro de 2016, durante um consistório na basílica de Pedro (Tiziana Fabi/ AFP)

Mirticeli Medeiros*

Francisco teve que se ausentar por causa da cirurgia no intestino que fez no último domingo, 4. Contando da data do procedimento, serão, ao todo, 7 dias de internação. É a primeira vez que o atual pontífice fica tanto tempo fora do Vaticano.

E o seu pequeno Estado, como fica? Quem o administra? Quem toma conta de tudo? Alguém pode delegar no seu lugar, como uma espécie de "administrador provisório"?

Na prática, ninguém substitui o papa quando ele precisa se ausentar. À diferença de outros Estados, o papa não possui um vice. E embora seja considerado um monarca, que vive rodeado por centenas de príncipes – os cardeais –, nenhum deles pode assumir as vestes de "papa interino".

O Vaticano conta com uma rede de "ministérios" – na linguagem técnica, dicastérios – aos quais se agregam os tribunais e comissões (os pontifícios conselhos). Em cada departamento existe um responsável que é auxiliado por secretários e subsecretários, como em qualquer outro governo.

O pontífice romano concentra em si os poderes executivo, legislativo e judiciário, mas, na prática, delega pessoas para desempenhar essas funções. Ou seja, o santo padre é quem dá a palavra final, mas possui uma equipe de especialistas e consultores para auxiliá-lo. Quando ele escreve uma encíclica, por exemplo, teólogos, canonistas e até funcionários da Secretaria de Estado participam da redação do documento.

O secretário de Estado, chamado de "número 2" do Vaticano, é a peça-chave da política da Santa Sé, o equivalente a um primeiro-ministro de um país. Na ausência de Francisco, sua rotina de atividades não muda muito. O cardeal que está à frente da pasta – atualmente, o italiano Pietro Parolin – representa o papa em algumas ocasiões, e tem uma certa autonomia para se movimentar em campo diplomático. Mas isso já acontece quando o pontífice está presente. No caso, no dia a dia, ele seria a figura mais próxima de um substituto para assuntos de governo.

Mas se fosse para seguir a práxis de séculos atrás, e a própria lei reformulada nas últimas décadas, o cardeal camerlengo seria o responsável por algumas atividades de gestão enquanto o papa estivesse afastado. Nas monarquias medievais, o camarário – chamado mais tarde de camerlengo, pela Igreja – era responsável pelo tesouro real. Quando o Estado Pontifício criou a função, na Idade Média, também atribuiu a esse funcionário da corte papal a responsabilidade de cuidar do patrimônio material da Santa Sé.

Hoje, seguindo a tradição, ele tem o dever de confirmar, e em seguida notificar a Cúria Romana, sobre a morte do papa. Antigamente, esse "atestado de óbito" era feito com um martelo de prata, com o qual o camerlengo batia três vezes na testa do líder da Igreja Católica, invocando o nome de batismo do defunto. Porém, o costume foi abolido em 1958, por João XXIII.

Também cabe a ele destruir o anel de pescador (a joia que o papa recebe no dia da sua posse, símbolo da sua autoridade), para sinalizar o fim daquele pontificado. A prática, dotada de um grande valor simbólico, foi introduzida na Igreja para evitar que alguém atuasse em nome do papa. Isso porque, na Idade Média, o objeto servia para sigilar bulas e outros escritos pontifícios, e atestar, com isso, a sua autenticidade.

Um remanescente da função de camerlengo é a de administrar os bens temporais do Vaticano durante a sé vacante. Porém, sem as prerrogativas papais. Ele é um delegado, não um "papa temporário". A grosso modo, ele deve manter o funcionamento ordinário do governo até a escolha do novo sucessor de Pedro. Vale destacar, no entanto, que ele não pode representar a Igreja Católica nesse período nem tomar decisões em nome da instituição. Neste caso, fica a cargo do colégio cardinalício, segundo determinação de João Paulo II, executar essa tarefa.

Quem assume o título na era Francisco é o cardeal irlandês Kevin Joseph Farrell.

Não há muitos precedentes, em era moderna, sobre a atuação do camerlengo fora do período da Sé Vacante. Embora a norma vigente o coloque na posição de assumir o poder temporal da Igreja quando o papa estiver doente ou em viagens longas, a verdade é que, na prática, tal prerrogativa não passa de uma mera formalidade.

Nem nas longas ausências de João Paulo II houve a observação dessa regra. Ele preferiu, na época, confiar parte de seus assuntos a seu secretário pessoal.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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