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12/07/2021 | domtotal.com

Milhares saem às ruas em Cuba, em protestos contra a crise alimentar e de saúde

Manifestações espontâneas foram reprimidas e governo pede fim do bloqueio dos EUA

Manifestante é preso por agentes de segurança durante protesto em San António de los Baños
Manifestante é preso por agentes de segurança durante protesto em San António de los Baños (Yamil Lage/AFP)

Uma série de manifestações sem precedentes com gritos de "Liberdade!" e "Abaixo a ditadura!" estourou em Cuba no domingo (11), enquanto o país atravessa sua pior crise econômica em 30 anos. Os protestos, amplamente divulgados nas redes sociais, começaram de forma espontânea pela manhã, um fato incomum neste país governado pelo Partido Comunista (único), onde as únicas concentrações autorizadas costumam ser as do partido.

Milhares de cubanos marcharam neste domingo, 11, pelas ruas da pequena cidade de San Antonio de los Baños, a 33 km da capital, Havana, no primeiro protesto contra o governo desde a manifestação de 1994 em Havana, que ficou conhecida como "maleconazo".

A marcha pacífica ocorreu em San Antonio de los Baños, a 33 quilômetros da capital, Havana, e foi seguida de outras, em mais de 15 cidades. As manifestações ocorrem em meio a uma grave crise econômica e sanitária no país, foi interceptada pelas forças de segurança e partidários do governo, o que levou a violentos confrontos e prisões.

O presidente cubano foi no domingo a San Antonio de los Baños e se reuniu com partidários em uma praça da cidade e atribuiu ao embargo dos EUA a falta de alimentos e remédios na ilha.

Gritando principalmente "Pátria e vida", título de uma canção polêmica, mas também "Abaixo a ditadura!" e "Não temos medo", os manifestantes, na maioria jovens, caminharam pelas ruas da cidade para manifestar sua frustração por meses de crise, restrições por causa da pandemia e o que eles qualificam de negligência do governo.

"Ai, meu Deus!", ouve-se em um vídeo uma mulher dizer enquanto a passeata passa por ela aos gritos de "Queremos liberdade" e insultos ao presidente cubano, Miguel Díaz-Canel.

No fim da tarde, Díaz-Canel falou à nação pela TV e acusou os Estados Unidos de serem responsáveis pelo protesto. Ele enviou as forças especiais às ruas da capital, pediu a seus apoiadores que enfrentem as "provocações", e disse que seus partidários estão dispostos a defender o governo com suas vidas. "A ordem está dada. Às ruas, revolucionários", incentivou.

Em Miami, os exilados cubanos manifestaram seu apoio aos protestos em Cuba e pediram aos Estados Unidos que liderem uma intervenção internacional para evitar que os manifestantes sejam vítimas de "um banho de sangue".

"Chegou o dia em que o povo cubano se levantou", disse Orlando Gutiérrez, da Assembleia de Resistência Cubana, uma plataforma de organizações opositoras de dentro e fora da ilha. Gutiérrez, que vive exilado em Miami e também preside o Diretório Democrático Cubano, destacou que, segundo suas fontes em Cuba, ocorreram protestos em mais de 15 cidades da ilha. "Está muito claro o que o povo de Cuba quer, que termine esse regime", afirmou. A Assembleia de Resistência Cubana exortou o povo a permanecer nas ruas e pediu à polícia e às Forças Armadas que fiquem do lado do povo.

Escassez de alimentos

A pandemia de coronavírus, cujos primeiros casos na ilha foram detectados em março de 2020, mergulhou Cuba em sua pior crise econômica em três décadas. Todos os dias, os cubanos têm que esperar longas horas em filas para conseguir alimentos e também enfrentam a escassez de medicamentos, o que tem gerado um forte mal-estar social.

O presidente disse que "há pessoas que vieram expressar insatisfação", até mesmo "revolucionários confusos". "A máfia cubano-americana pagando muito bem nas redes sociais (...) tomou como pretexto a situação de Cuba e convocou manifestações em todas as regiões do país", afirmou. Mas aqui estamos "muitos, e me coloco como o primeiro, que estão dispostos a dar nossas vidas por esta revolução", declarou ele durante um discurso ao vivo na televisão.

Cuba registrou no domingo mais um recorde de infecções por Covid-19 em 24 horas, com 6.923 novos casos e 47 mortos. Desde o início da pandemia, o país registrou 238.491 infecções e 1.537 mortos, segundo números do governo. "São números alarmantes, que aumentam a cada dia", disse o chefe de epidemiologia do Ministério de Saúde cubano, Francisco Durán.

A situação é especialmente tensa na província turística de Matanzas, localizada a 100 quilômetros de Havana, onde o alto número de infecções pode causar o colapso dos serviços de saúde.

Com hashtags como #SOSCuba, #SOSMatanzas e #SalvemosCuba, os pedidos de ajuda se multiplicam nas redes sociais, até mesmo por artistas e famosos. A população também pede ao governo que facilite o envio de doações do exterior.

No sábado (10), um grupo de oposição pediu a criação de "um corredor humanitário", iniciativa rapidamente rejeitada pelo governo. "Conceitos ligados a corredor humanitário e ajuda humanitária estão associados a zonas de conflito e não se aplicam a Cuba", disse o diretor de Assuntos Consulares e Atenção aos Cubanos Residentes no Exterior, Ernesto Soberón, em entrevista coletiva.

Soberón também denunciou "uma campanha" que tem como objetivo "apresentar uma imagem de caos total em Cuba, que não corresponde à situação atual do país". No entanto, Soberón anunciou que o governo abrirá uma conta de e-mail para agilizar as doações do exterior.

Governo reage

O governo cubano assegurou que está disposto a defender a revolução "seja qual for o preço", diante dos históricos protestos contra a "ditadura", observados por Washington, que alertou Havana sobre o uso de violência contra os manifestantes.

Surpreendido com as "manifestações espontâneas" em várias cidades do país, incluindo Havana, o presidente Miguel Díaz-Canel lançou aos revolucionários "a ordem de combate". "Convocamos todos os revolucionários do país, os comunistas, a tomarem as ruas onde quer que essas provocações ocorram, de agora em diante e em todos estes dias. E enfrentá-las com decisão, com firmeza, com coragem", disse Díaz-Canel em um discurso transmitido pela televisão, no qual acusou "a máfia cubano-americana" de estar por trás do levante.

O governo dos Estados Unidos reagiu no domingo, advertindo as autoridades cubanas contra o uso da violência contra "manifestantes pacíficos". No Twitter, a subsecretária do Departamento de Estado dos EUA, Julie Chung, pediu "calma". "Estamos profundamente preocupados com os 'chamados ao combate' em Cuba. Defendemos o direito de reunião pacífica do povo cubano", escreveu.

"Os Estados Unidos apoiam a liberdade de expressão e de reunião em Cuba e condenariam fortemente qualquer uso da violência contra manifestantes pacíficos que estejam exercendo seus direitos universais", tuitou o conselheiro de Segurança Nacional do governo americano, Jake Sullivan.

Já a Rússia alertou, nesta segunda-feira, contra "qualquer interferência estrangeira" na crise em Cuba, país aliado de Moscou. "Consideramos inaceitável qualquer interferência estrangeira nos assuntos internos de um Estado soberano e qualquer outra ação destrutiva que desestabilize ainda mais a situação na ilha", disse o Ministério russo das Relações Exteriores em um comunicado.


AFP/Agência Estado/Dom Total



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