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12/07/2021 | domtotal.com

Preso suposto mandante do assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse

Médico haitiano que vive nos EUA, Christian Emmanuel Sanon tem pretensões políticas

Christian Emmanuel Sanon teria contratado equipe de segurança ligada ao assassinato
Christian Emmanuel Sanon teria contratado equipe de segurança ligada ao assassinato (Valerie Baeriswyl/AFP)

As autoridades do Haiti anunciaram a prisão de um dos supostos mandantes do assassinato do presidente Jovenel Moïse, no último dia 7. O homem, um médico haitiano que mora na Flórida, Christian Emmanuel Sanon, estaria planejando se tornar presidente do país caribenho, sugeriu o diretor da Polícia Nacional, León Charles, em declarações à imprensa.

Sanon, de 63 anos, é a terceira pessoa detida que tem elos com os Estados Unidos. Não está claro, contudo, se seria cidadão americano como os outros dois. Entre os detidos, há ainda 18 cidadãos colombianos, em sua maioria ex-militares. Um vídeo no Youtube gravado em 2011, intitulado "Dr. Christian Sanon - Liderança para o Haiti", parece apresentar Sanon como um líder potencial do país. Nele, o médico denuncia os líderes haitianos como corruptos.

Em declarações na noite de domingo, Charles disse crer que o médico teve um papel central na morte de Moïse, cujo assassinato a tiros dentro da residência oficial acentuou uma crise política de meses e criou um vácuo de poder no país. "Quando (a polícia) bloqueou o avanço dos bandidos, a primeira pessoa que chamaram foi Emmanuel Sanon", disse Charles, afirmando que a polícia também investiga outros dois supostos autores intelectuais do magnicídio, que estariam em contato com Sanon, mas não divulgou suas identidades.

Segundo o policial, Sanon contatou uma firma de segurança privada para recrutar pessoas que "realizassem este ato". A companhia, ele disse, seria a CTU, uma empresa venezuelana sediada nos Estados Unidos.

O médico teria desembarcado no Haiti em junho, em um avião particular, com "objetivos políticos" e acompanhado de mercenários colombianos supostamente contratados para garantir sua segurança. "A missão inicial dada aos criminosos era proteger o indivíduo chamado Emmanuel Sanon, mas em seguida ela mudou", disse Charles, sugerindo que o objetivo do homem seria se tornar presidente, segundo o The New York Times.

Como evidência, o policial disse que o médico foi o homem que um dos suspeitos colombianos contatou após ser detido. Em uma operação na sua casa, as autoridades afirmaram ter encontrado um boné da agência antidrogas dos Estados Unidos, o DEA, uma caixa de cartuchos, dois veículos, seis coldres para pistolas, aproximadamente 20 caixas de munições e quatro placas de carro da República Dominicana.

Ligação com americanos

Segundo relatos de testemunhas e imagens dos arredores da residência presidencial, os homens que mataram Moïse teriam entraram na casa afirmando serem parte de uma operação do DEA. A agência, contudo, diz não ter qualquer envolvimento com o ocorrido.

A polícia haitiana disse ainda ter tomado "medidas cautelares" contra os responsáveis pela segurança de Moïse, em meio a suspeitas de que alguns deles tenham agido em conivência com os responsáveis pelo assassinato. Os investigadores estão analisando as informações para determinar "o nível de implicação de cada um".

O próximo passo, disse Charles, é descobrir quem financiou a operação. Políticos da oposição têm contestado a versão da polícia para o crime e parentes dos colombianos dizem que eles foram ao Haiti para trabalhar como seguranças de pessoas ricas. Segundo uma versão, o próprio Moïse teria contratado os colombianos como seguranças.

O Pentágono afirmou que enviará uma equipe de agentes do FBI e do Departamento de Segurança Interna para ajudar nas investigações. No sábado, Washington havia rejeitado um pedido do governo interino do Haiti para enviar militares para ajudar a proteger instalações cruciais da infraestrutura do país.

Crise constante

Por meio da mídia social, haitianos em partes da capital, Porto Príncipe, planejam protestos nesta semana contra o primeiro-ministro interino e presidente interino, Claude Joseph. O direito de Joseph de liderar o país foi contestado por outros políticos importantes, ameaçando exacerbar a turbulência que envolve o país mais pobre das Américas.

Segundo a mídia haitiana, está previsto que uma delegação enviada por Washington se reúna separadamente com Joseph, que está no poder desde o assassinato de Moise, e com os outros dois homens que afirmam ter o direito de comandar o Haiti. Um deles é o chefe do Senado, Joseph Lambert, que em desafio a Claude Joseph foi designado na sexta-feira presidente interino pelos oito integrantes do Senado, que não tem quórum desde 2020 por causa do adiamento das eleições de 2019.

O governo de Joseph, que recebeu o respaldo da ONU e dos EUA, não reagiu à nomeação de Lambert. O terceiro político que afirma ter o direito de exercer o poder é o neurocirurgião Ariel Henry. Ele foi nomeado primeiro-ministro por Moise dois antes do assassinato, mas não tinha tomado posse. O ministro eleitoral Mathias Pierre afirmou que Joseph continuará no cargo até as eleições presidenciais e legislativas em setembro. Mas Henry afirmou que está formando um governo e criará um novo conselho eleitoral, pois o atual é considerado partidário.

O Haiti tem uma longa história de ditaduras e golpes de Estado, e a democracia nunca se estabilizou completamente. O país vive uma forte crise política desde meados de 2018 e enfrentou seu momento mais grave no último dia 7 de fevereiro, data em que Moïse denunciou que a oposição, com o apoio de juízes, tramava um golpe contra ele.

Ao mesmo tempo, o Haiti atravessa uma profunda crise de segurança, agravada desde o início de junho pelas lutas territoriais entre organizações criminosas que disputam controle dos bairros mais pobres de Porto Príncipe.

Depois de ter "soldados da paz" destacados no Haiti durante anos, a ONU apenas possui atualmente no país mais pobre da América uma missão de apoio político, encarregada de "aconselhar" e "apoiar" o governo haitiano nos seus esforços para reforçar a estabilidade política e a boa governança.


AFP/DW/Agência Estado/Dom Total



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