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13/07/2021 | domtotal.com

Prisão do ex-presidente desencadeia violência na África do Sul e faz dezenas de mortos

Saques, quebra-quebra e confrontos se espalham pelo país e mais de 750 são detidos

Dezenas de pessoas saqueiam loja de departamento em Soweto, bairro de Johanesburgo
Dezenas de pessoas saqueiam loja de departamento em Soweto, bairro de Johanesburgo (Luca Sola/AFP)

A onda de violência decorrente da prisão do ex-presidente Jacob Zuma (2009-2018), em 7 de julho tem crescido e se espalhado por vários estados da África do Sul. Saques, estabelecimentos queimados ou vandalizados e confrontos, além de tumulto e correria já deixaram pelo menos 45 mortos nos últimos dias. O governo enviou soldados às ruas para reprimir a violência, mas, segundo a polícia, as tensões aumentaram.

Apesar de ter sido afastado da direção do governista Congresso Nacional Africano (CNA) e da Presidência após sucessivos escândalos, o ex-presidente mantém uma base de seguidores fiéis. Os atos se disseminaram por várias áreas. A província de Gauteng onde está a maior cidade do país, Johanesburgo, também teve roubos e incêndios.

As províncias afetadas, a escalada da violência e os saques não dão sinais de arrefecimento, e o balanço de mortos continua a aumentar. O primeiro-ministro provincial David Makhura anunciou nesta terça-feira (13) que dez pessoas morreram em um momento de confusão e correria durante saques em um shopping de Soweto, ao sudoeste de Johanesburgo. O número total de vítimas fatais na província de Gauteng, onde fica Johanesburgo, a capital econômica do país, chega a 19.

Mais cedo, Sihle Zikalala, primeiro-ministro da província de Kwazulu-Natal (leste), epicentro da violência e região natal de Zuma, havia informado um total de 26 óbitos. De acordo com Zikalala, sem se referir a localidades específicas, várias das mortes ocorreram em "correrias neste contexto de distúrbios".

Os primeiros incidentes, com estradas bloqueadas e caminhões incendiados, ocorreram na sexta-feira (9), dia seguinte da prisão do ex-presidente Jacob Zuma, condenado a prisão por desacato à Justiça. No fim de semana, os atos de violência se espalharam por Joanesburgo, capital econômica do país. Os incidentes continuaram nesta madrugada, especialmente em Soweto, ao oeste de Joanesburgo. Segundo a polícia, criminosos estão aparentemente se aproveitando da revolta de apoiadores de Zuma para roubar e destruir estabelecimentos.

Mais de 750 detidos

Pelo menos 757 pessoas foram detidas, disse o ministro responsável pelas forças de segurança, Bheki Cele, em entrevista coletiva. Nela, destacou que a maioria das prisões foi em Joanesburgo. O ministro afirmou ainda que a polícia vai garantir que a situação "não se deteriore ainda mais". Enquanto isso, seguem os saques a lojas em Joanesburgo e em Pietermaritzburgo, capital da província de Kwazulu-Natal.

Na manhã desta terça, por exemplo, dezenas de mulheres, homens e crianças invadiram as câmaras frigoríficas do açougue Roots, na praça Diepkloof, em Soweto. De lá, saíam com pesadas caixas de carne congelada nos ombros, ou sobre a cabeça. Um único segurança particular permaneceu no local, enquanto tentava se comunicar por telefone, supostamente para pedir reforços. A polícia chegou quase três horas depois e disparou balas de borracha.

Ao anunciar o envio de militares, o presidente Ramaphosa disse ser de "vital importância que restauremos a calma e a estabilidade, sem demora, em todas as partes do país". "O caminho da violência, os saques e a anarquia levam apenas a mais violência e devastação", advertiu. "O que estamos vendo agora são atos oportunistas de criminalidade, com grupos de pessoas instigando o caos apenas para acobertar saques e roubos", acrescentou. "Não há agravante, nem qualquer razão política, que possam justificar a violência e a destruição", insistiu, enquanto seu antecessor Zuma passava sua sexta noite atrás das grades.

Caso jurídico

A sentença e a prisão de Zuma são vistas como um teste para o Judiciário do país e sua capacidade de agir mesmo contra políticos poderosos. Zuma, de 79 anos, foi preso por desafiar uma convocação do Tribunal Constitucional, a instância máxima da Justiça do país, para depor em uma investigação que apura denúncias de corrupção nos nove anos em que esteve no poder. Ele nega os malfeitos, mas se recusa a cooperar com a investigação.

Segundo estimativas oficiais, cerca de 500 bilhões de rands (R$ 178 bilhões) foram desviados dos cofres públicos durante seu governo - mais de 40 testemunhas ouvidas em inquéritos apontam que Zuma estava no centro dos esquemas de desvio.

O ex-presidente entrou com um recurso contra a detenção, alegando que sua saúde é frágil e que seu risco de contrair Covid-19 seria maior na prisão. Em uma audiência virtual nesta segunda-feira, o advogado de Zuma pediu à Justiça que revogasse sua pena de prisão, citando uma regra de que os julgamentos podem ser reconsiderados se feitos na ausência da pessoa afetada ou contendo um erro de patente. Especialistas jurídicos, no entanto, dizem que as chances de sucesso do ex-presidente são mínimas.

Pandemia

Nas províncias de Gauteng e KwaZulu-Natal, alguns postos de vacinação contra a Covid-19 e clínicas em foram fechados por questões de segurança, o que dificulta ainda mais a lenta campanha de imunização no país. Até 10 de julho, apenas 6% da população sul-africana recebeu pelo menos uma dose de imunizante contra a doença, segundo dados do site Our World in Data, da Universidade de Oxford. A África do Sul e todo o continente africano atualmente enfrentam uma terceira onda da pandemia.


AFP/Agência Estado/Dom Total



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