Religião

16/07/2021 | domtotal.com

Caridade: o rosto do amor-graça de Deus

Deus é amor que se faz dom de si mesmo, que se oferece, que toma a iniciativa para amar

Sendo a caridade o rosto do amor-graça de Deus, ela torna-se para nós um mandamento, um modo de ser e agir que nos identifica como cristãos
Sendo a caridade o rosto do amor-graça de Deus, ela torna-se para nós um mandamento, um modo de ser e agir que nos identifica como cristãos (Unsplash/Sylvain Brison)

Rodrigo Ferreira da Costa*

Ao falar dos dons mais elevados que devemos aspirar, São Paulo indica o amor-caridade (agápe) como superior à própria fé. "Atualmente permanecem estes três: a fé, a esperança, o amor. Mas o maior deles é o amor" (1Cor 13, 13). Esse dom maior, mais elevado, não é simplesmente uma ética, um modo de agir humano, mas a essência do próprio Deus que em si mesmo é relação de amor (1 Jo 4,8). Amor que não se fecha em si mesmo, que não busca o seu próprio interesse, que não é egoísta, nem guarda rancor... Amor paciente, prestativo, que tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta... Esse amor é visível no ser-agir de Cristo Jesus, Ele que é "o rosto da misericórdia do Pai" no mundo, como nos lembra a carta de São Paulo a Tito 2,11: "Com efeito, a graça (cháris) salvadora de Deus manifestou-se a toda a humanidade".

Não é sem motivo que a Tradição cristã uniu os conceitos de graça (cháris, gratia) e de amor-caridade (ágape, caritas). Embora com sentidos diferentes, ambos expressam o modo de ser e agir de Deus. Pois o seu amor é puro dom e, por isso, Ele se autocomunica ao ser humano, mesmo este sendo indigno e incapaz por si só de retribuir, seus dons e seu amor. Se a caridade indica, pois, esse Deus que se doa gratuitamente, a graça exprime o dom feito por Deus que é amor. Deus é amor que se faz dom de si mesmo, que se oferece, que toma a iniciativa para amar.

Santo Agostinho dizia que "vides Trinnitatem, si charitatem vides - vês a Trindade, se vês a caridade". Isso porque o amor de Deus não é uma ideia abstrata, mas uma experiência concreta, palpável, visível, um amor entranhado (cf. Os 11,8) que se mostra na sua proximidade e no compromisso para com o outro. Por isso, São Paulo afirma que a impiedade e a injustiça dos homens mantêm a verdade de Deus prisioneira (cf. Rm 1,18). Na medida em que cuidamos da vida colocando-nos a serviço do próximo, glorificamos a Deus, autor e consumador da vida. Por outro lado, quando não reconhecemos o amor e a bondade de Deus presente em suas criaturas e praticamos a injustiça, a violência e a opressão contra o outro, escondemos e aprisionamos a verdade de Deus.

Leia também:

Quiçá esse seja o maior desafio da fé cristã, vê Deus no rosto do outro. Encontrá-Lo atuando na história, sofrendo com os pobres e sofredores, cuidando da vida e resistindo aos poderes destrutivos. Conforme podemos contemplar na cena do Juízo Final (Mt 25,35-46), o critério do julgamento está baseado na nossa capacidade de amar, cuidar e nos fazer próximos de outrem. Quem, por razões diversas, se distanciar dessas realidades mais dramáticas da nossa condição humana, não poderá fazer a verdadeira experiência de Deus, por que Jesus identifica-Se com os pobres e abandonados: famintos, sedentos, nus, enfermos, estrangeiros, encarcerados. "Então o Rei lhes responderá: 'Em verdade vos digo: Todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!'" (Mt 25, 40).  

Ao conclamar os cristãos de Filipos a terem os "mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus" (Fl 2, 5), São Paulo chama a atenção da comunidade cristã para a dinâmica do amor que é capaz de esvaziar-se de si mesmo (eauton ekenosen), de amar gratuitamente, como Cristo Jesus nos amou. É a experiência do "Deus Crucificado" que só pode ser compreendida na dinâmica kenótica do amor-caridade (ágape) que não se impõe, nem se propõe como uma alternativa deliberada de uma boa consciência, mas se expõe ao outro pelo outro. Por isso, na própria Eucaristia que celebramos, memorial da páscoa do Senhor, estão contidos o dom e o mandamento do amor. Pois "uma Eucaristia que não se traduza em amor concretamente vivido é em si mesma fragmentária" (Bento XVI, Deus é amor, n. 14).

O amor-caridade é, pois, a estrada para encontrar/conhecer Deus: "Ele fazia justiça ao pobre e ao infeliz... Isso não é conhecer-me?, diz o SENHOR" (Jr 22,16). Procurar a Deus, fechando os olhos ao outro, negando tocar a sua carne sofredora, pode tornar a fé uma mera "fantasia espiritual", uma teoria, uma doutrina, distante da experiência cristã de Deus. Como nos recorda o papa Francisco: "você quer uma prova que Deus tocou a sua vida? Verifique se você se inclina sobre as chagas dos outros. Hoje é o dia de nos perguntar: 'Eu, que tantas vezes recebi a paz de Deus, que tantas vezes recebi o seu perdão e a sua misericórdia, sou misericordioso com os outros? Eu, que tantas vezes me nutri com o Corpo de Jesus, faço algo para matar a fome de quem é pobre?' Não permaneçamos indiferentes. Não vivamos uma fé pela metade, que recebe, mas não dá, que acolhe o dom, mas não se faz dom. Recebamos misericórdia, tornemo-nos misericordiosos" (Homilia 11/04/21).

Sendo a caridade o rosto do amor-graça de Deus, ela torna-se para nós um mandamento, um modo de ser e agir que nos identifica como cristãos. "Como eu vos amai, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros" (Jo 13,34). E que nós somos capazes desse amor, sabemos por que fomos criados à imagem do Deus-amor. A caridade é, portanto, o lugar por excelência do encontro da espiritualidade e da ética, da fé e das obras da fé, pois ao assumir a responsabilidade pelo outro, o homem assiste à passagem de Deus que na sua transcendência "passa" e "se passa" na relação ética.

*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia ?" Arquidiocese de Teresina-Piauí.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!