Cultura

16/07/2021 | domtotal.com

Desesperar, jamais!

Nem tudo está perdido ou à deriva

Obra 'Translated Vase' de Sookyung Yee
Obra 'Translated Vase' de Sookyung Yee (Korean Art Museum Association)

Eleonora Santa Rosa*

Todos que trabalham direta ou indiretamente com a questão cultural, seja no âmbito da criação, produção, difusão ou gestão devem se preparar desde já para a imensa árdua tarefa de soerguer dos escombros as instituições do setor, nos mais diversos segmentos, soterradas, asfixiadas ou desmontadas pela mais dolosa política governamental das últimas décadas, responsável pelo desmonte planejado do aparato institucional tão duramente construído ao longo de muitos e muitos anos, ainda frágil e dependente do orçamento federal.

Ler, por dever de ofício, as declarações do titular da pasta da Cultura, quase sempre ofensivas aos artistas e demais profissionais que atuam nesse campo, vociferando sandices e preconceitos sem fim, tem se constituído em exercício constante de superação, colocando à prova a capacidade de se perseverar e criar alternativas de não sucumbir à depressão ou ao desânimo. Desesperar, jamais! como a letra de Ivan Lins, atemporal e atualíssima.

Não deixa de ser indigno nesse arremedo de Secretaria, outrora potente Ministério da Cultura, que já teve como titulares gente do calibre de José Aparecido de Oliveira, Celso Furtado,  Antonio Houaiss e Gilberto Gil, para mencionar alguns de seus dirigentes mais emblemáticos, ter como autoridade máxima alguém cujo calibre refere-se, na verdade, à arma real que porta na cintura, prova do tamanho de sua estreiteza intelectual e incompreensão quanto à missão constitucional que lhe assiste.

Dureza diária assistir ao desenrolar dos atos e fatos consequentes do processo de desestruturação em curso, que haverá de ser revertido, disso não tenho dúvida, mesmo que a um custo elevado, em todos os sentidos, em função das perdas causadas, das demissões em massa, da desmobilização de técnicos e abdicados funcionários especializados, dos legados em situação de risco e de tantos outros destruídos pela incúria vigente, de artistas em situação de penúria, de centenas e centenas de trabalhadores da Cultura destituídos de seu ganha-pão, muitos transtornados e transformados em cidadãos-pedintes, sem direção ou possibilidade de nova inserção.

No entanto, nem tudo está perdido ou à deriva, sinais de vida pulsando nos municípios de capital, como Rio e São Paulo, com gente bamba no riscado, associando-se, fazendo por onde, promovendo programas estruturadores e abrangentes que têm tudo para dar certo e açambarcar um grande número de profissionais e uma série de instituições, salvando-os, pelo menos em parte, do desemprego, do naufrágio ou das cinzas.

No cenário desses últimos dias, dois registros se impõem, o surpreendente lançamento pelo BNDES, com apoio de empresas de porte expressivo no cenário nacional e internacional, do programa dedicado ao resgate do patrimônio histórico, quase uma miragem, mas, de fato, realidade, que irá se desdobrar por meio de editais, com o aporte de 200 milhões de reais ano, lastreados em verba própria e recursos operados via leis de incentivo – municipais, estaduais e federal; e a manifestação do escritor Paulo Coelho e sua esposa Cristina Oiticica de financiarem, integralmente, por meio de sua Fundação Coelho & Oiticica, o Festival de Jazz do Capão, evento realizado na Chapada Diamantina, censurado arbitrariamente pela Funarte, com base em argumentos políticos e religiosos. O casal impôs uma única exigência aos realizadores, que o evento seja antifascista e pela democracia.

Desesperar, jamais!
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo

Nada de correr da raia
Nada de morrer na praia
Nada! Nada! Nada de esquecer

No balanço de perdas e danos
Já tivemos muitos desenganos
Já tivemos muito que chorar
Mas agora, acho que chegou a hora
De fazer valer o dito popular
Desesperar, jamais
Cutucou por baixo, o de cima cai
Desesperar jamais
Cutucou com jeito, não levanta mais

*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ocupou diversas funções públicas de relevo e desenvolveu projetos de educação patrimonial e de patrimônio cultural de repercussão nacional. Ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio - MAR (de novembro de 2017 a novembro de 2019), é considerada uma das mais experientes e respeitadas profissionais no campo da viabilização, implantação e soerguimento de equipamentos culturais no país. Estrategista e gestora cultural, tem larga experiência editorial; foi responsável pela publicação de mais de meia centena de obras voltadas à história e à cultura de Minas Gerais, tendo sido coordenadora editorial das consagradas Coleções Mineiriana e Centenário da Fundação João Pinheiro. Diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, é autora do livro Interstício

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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