Meio Ambiente

19/07/2021 | domtotal.com

Desmatamento e perda de biodiversidade ampliam difusão de doenças na Amazônia, revela pesquisa

Pesquisadores relacionam dados econômicos, ambientais e epidemiológicos para monitorar avanço de Covid-19, malária e chikungunya. Bioma da Amazônia é protegido por várias leis

Pesquisa mostra importância de fortalecer economias que se baseiam na floresta em pé
Pesquisa mostra importância de fortalecer economias que se baseiam na floresta em pé (Felipe Werneck/Ibama)

Thiago Ventura

Um estudo feito por pesquisadores brasileiros que acaba de ser publicado numa revista científica internacional aponta que o desmatamento e perda da biodiversidade, além de prejudicar o meio ambiente também é nocivo à própria saúde humana. A perda de floresta para criação de gado amplia a difusão da leishmaniose cutânea, enquanto dengue e chikungunya proliferam em lugares em que as cidades avançam sobre a cobertura original. Obrigação é conter doenças devido ao desmatamento, o que já é previsto na legislação.

Os dados são analisados no estudo Epidemiologia, biodiversidade e trajetórias tecnológicas na Amazônia brasileira: da malária a Covid-19, publicado em inglês na revista Frontiers in Public Health. Quinze pesquisadores assinam o trabalho, sob a coordenação de  Cláudia Codeço, do Programa de Computação Científica, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Eles integram o projeto Trajetórias, do Centro de Síntese em Biodiversidade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A pesquisa se destaca em relacionar dados econômicos, ambientais e de saúde pública, que geram um "mapa das doenças". Na análise, o grupo dividiu a atividade econômica em dois tipos: trajetórias agroextrativistas e tecnoprodutivas. Nos municípios amazônicos em que prevalece o modelo extrativista com convivência da diversidade do bioma, a malária é uma doença importante e causa de grande mortalidade. Porém, quando há grande mudança da paisagem, outros males afloram com maior intensidade.

"Nossos resultados sugerem, por exemplo,  que as trajetórias produtivas que envolvem a pecuária extensiva e o cultivo de monoculturas estão associadas à rápida perda de biodiversidade e a uma alta incidência de doenças tropicais negligenciadas, como leishmaniose, arboviroses urbanas e doença de Chagas", diz Cláudia Codeço ao Dom Total.

A pesquisadora explica que o estudo não utiliza dados de doenças específicas para cada sistema produtivo, mas revela como as negligenciadas ocorrem em municípios onde trajetórias tecnoprodutivas foram se estabelecendo. "A depender da trajetória associada a cada sistema, as paisagens vão sendo produzidas e essa relação pode se tornar favorável para a emergência ou reemergência de determinadas doenças", diz.

pecuária extensiva e o cultivo de monoculturas estão associadas à rápida perda de biodiversidade e a uma alta incidência de doenças tropicais negligenciadasLugares com pecuária extensiva e monocultura têm alta incidência de doenças tropicais negligenciadas (Foto: Ibama)

Já o caso da Covid-19 é diferente. A doença causada pelo coronavírus se espalhou com facilidade em todos municípios, pois relaciona-se com o tráfego de pessoas. Nesse caso, a ausência de serviços básicos de saúde e a desigualdade ampliou mais a doença que o desmatamento em si.

Ao interrelacionar dados econômicos, ambientais e epidemiológicos, o grupo aponta que sistemas produtivos que preservam mais a floresta conseguem manter equilíbrio saudável entre desenvolvimento e saúde humana. "É de extrema importância que essas economias que se baseiam na floresta em pé sejam fortalecidas e incentivadas pelo Estado, podendo gerar grandes efeitos positivos na conservação ambiental e na saúde humana da região", diz Ana Rorato, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e também autora do estudo.

Questionadas sobre impactos da ampliação do desmatamento nos últimos anos, as pesquisadoras alertam que isso também repercute no aumento das doenças. "Existe um maior incentivo econômico e fiscal voltado às atividades como pecuária extensiva e cultivo de monoculturas, atividades que são associadas ao desmatamento, à homogeneização da paisagem, à redução da biodiversidade e consequentemente levam ao aumento de condições propícias para o agravamento de algumas doenças tropicais", explica Ana Paula D'Alsta, também do Inpe.

Ao publicar numa revista internacional, o grupo tenta alertar sobre a importância da preservação ambiental de forma sistêmica. Segundo Codeço,  saúde humana e a saúde do nosso planeta são indissociáveis. "A abordagem ajuda a lançar luz para a diversidade estrutural e econômica da Amazônia que frequentemente é desconsiderada nas principais políticas em curso para a região", afirma.

Saúde e defesa ambiental no Direito

Uma vez provado cientificamente a relação entre saúde humana e preservação ambiental, a conservação da Amazônia já é garantida no ordenamento jurídico brasileiro. É o que afirma a professora Beatriz Souza Costa, pró-reitora de Pesquisa da Dom Helder Escola de Direito. Segundo a pesquisadora, o bioma da Amazônia é protegido pela Lei 13.651/2012, o Código Florestal e a Lei 9985/2000, sobre o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).

"Qualquer desequilíbrio nas florestas, como as queimadas, acarretará o desequilíbrio do trabalho ecossistêmico. Aumento do mosquito da malária por falta de seu predador comum. Logicamente afetará a saúde humana, sobretudo dos povos indígenas e tradicionais. Outros exemplos podem ser estabelecidos a partir do desequilíbrio, que são tipificados pela legislação", diz Costa.

Doutor em Direito pela Sorbonne e professor de pós-graduação em Direito Ambiental na Dom Helder, André de Paiva Toledo afirma que há um eixo de normas voltado para a preservação da biodiversidade ligado ao direito à vida e à integridade pessoal, que compõem os direitos humanos. Para o pesquisador, é obrigação objetiva do poder público preservar a natureza para garantir direito à vida digna.

"Comprovada a relação direta entre perda de diversidade biológica e vulnerabilidade sanitária, os estados, que têm a incumbência de fazer cumprir a legislação interna e internacional, devem incluir a questão sanitária como mais um fator relevante de aplicação do direito, o que não é feito a contento porque outros interesses prevalecem."

André de Paiva cita a pandemia da Covid-19 como exemplo claro de que o cuidado ambiental não é somente para conservar o meio ambiente para um futuro, mas que os efeitos nocivos já são sentidos de imediato. "Proteger a biodiversidade é condição para a plenitude de vida digna não apenas para o ser humano das futuras gerações, mas especialmente para o ser humano do presente", destaca.

Estudo

O estudo foi elaborado pela equipe do projeto Trajetórias, vinculado ao Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos - SinBiose do CNPq e conta com pesquisadores cientistas sociais, naturais, da computação, da saúde e economia. Neste estudo colaboraram pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Universidade do Acre (Ufac), Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e Fundação Getúlio Vargas (FGV).


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