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20/07/2021 | domtotal.com

Adeus, amigo querido

Jan Beekmans era um bálsamo de alegria nessa época de tantas confrontações e notícias ruins

'Int Paradijs'. No Paraiso, é o nome da casa de Jan Beekmans, em Heusden, Holanda
'Int Paradijs'. No Paraiso, é o nome da casa de Jan Beekmans, em Heusden, Holanda (Reprodução)

Lev Chaim*

Com o tempo você aprende que amizade não tem idade. Pelos menos isso aconteceu comigo, quando fui refletir sobre o assunto. Hoje, tenho amigos e não me importo quantos anos eles têm. Na semana passada, fui visitar um amigo de 81 anos, que sempre acompanhava as minhas publicações de fotos. Na verdade, ele dizia que elas eram como bálsamo para a sua vida de idoso.

Quando bati à porta da casa de Jan Beekmans, como sempre fazia, veio um outro homem, bem mais jovem, abri-la. No primeiro momento fiquei surpreso e disse: "Venho sempre aqui, mostrar ao Jan as minhas fotos da semana que ele tanto gosta". Com um ar surpreso, ele me convidou para entrar na antiga casa de Jan, com o característico nome, O Paraíso (Int Pradadijs). As casas aqui em Heusden, na Holanda, quase sempre têm um nome. E lá entramos: Pitú, o meu cãozinho, e eu.

Logo de cara, com um ar preocupado e um tanto quanto angelical, ele se apresentou. "Sou o genro do Jan, casado com a sua filha mais nova. Acho que a conhece muito bem, pois há questão de uma semana, ouvi ela contar que vocês conversaram aqui, na rua, em frente à casa de Jan. Ele havia acabado de chegar do hospital". Eu, já no hall de entrada, respondi: "Sim, lembro-me muito bem. E ele está melhor?". O genro de Jan, com seu ar angelical e preocupado, respondeu baixinho, mas num tom que deu para escutar muito bem: "Você pode mostrar as fotos ao meu caro sogro, mas não acredito que ele possa lhe responder agora. Ele faleceu ontem".

Chocado e surpreso, já mais adiante na casa, eu o encarei e perguntei do que ele tinha morrido. Ele, muito triste, respondeu que Jan estava com muita falta de ar e faleceu dormindo, de madrugada. Ele perguntou educadamente se gostaria de vê-lo e respondi, sem pensar duas vezes, que sim. Fui levado mais adiante na sala entre o quintal e a cozinha. Em uma cama alta coberta com um lençol estava um corpo. Ele me contou que Jan estava sendo velado ali, em casa. E ao dizer isso ele retirou o lençol e eu me vi confrontado com o Jan sereno, imóvel e muito branco, vestido com a sua roupa caseira do dia-a-dia, deitado e com as mãos cruzadas.

Aproximei-me, perplexo, pois da entrada até ali, nesses minutinhos que se passaram, me vi confrontado com o cadáver daquele que havia ficado há muito tempo meu amigo. Amigo de conversar na rua, amigo de sentar em uma mesa do restaurante e beber uma cervejinha - que ele tanto adorava. Enfim, um amigo que quebrava um pouco a monotonia desses tempos solitários de pandemia. Ele havia sido vacinado bem antes de mim e, na verdade, sempre teve uma postura serena frente a tudo que estava acontecendo no mundo. Ele se recusava a parar de viver e sempre me lembrava uma coisa que muito me impressionou, quando a ouvi pela primeira vez de sua boca. Suas palavras, mais ou menos, como me lembro: "Lev, triste fim da humanidade, que parou de viver com medo de morrer".

Ele não morreu de coronavírus, mas de infecção pulmonar gravíssima, enquanto dormia, de madrugada. E, apesar de não se render ao medo que todos tínhamos do vírus, Jan sempre se manteve respeitoso para com as regras dos virologistas holandeses, de se manter a devida distância, lavar as mãos, receber uma ou duas visitas, no máximo, em sua casa, entre outras regras. Mas, o Jan Beekmans se recusava a ficar triste e era por isto que eu o visitava frequentemente. Ele era um bálsamo de alegria nessa época de tantas confrontações e notícias ruins. 

Foi ele também quem me disse para não acreditar nessas histórias da Amazônia sendo desmatada neste governo Bolsonaro. Jan trabalhou muitos anos para multinacionais, especialmente norueguesas, e ele me advertiu que elas, muitas vezes, são hipócritas. Na Noruega, elas lutam por um clima melhor, e fora, elas financiam organizações não governamentais que exploraram a Amazônia durante os governos anteriores a Bolsonaro. E assim, ele me alertou: "O atual presidente acabou com a mamata e eles gritam acusando-o de queimar a floresta Amazônica". Deus o ouça Jan, e desfrute de Sua presença.

Ao tocar uma de suas mãos cruzadas em cima da barriga, notei que elas estavam frias, geladas. Lágrimas escorreram por dentro e eu, pelo rabo do olho, percebi que o genro de Jan me olhava com lágrimas nos olhos. Não me senti à vontade para chorar como ele, mas por dentro, minha alma estava caída, triste e chorava. Quem era eu para causar ainda mais tristeza a essa querida família, que velava o corpo do pai, sogro e avô? Não, não podia chorar ali. E com muito esforço, retirei as minhas mãos das mãos frias de Jan, tais quais um dia, eu me lembrava das mãos de meus entes queridos, dentro do caixão: papai, mamãe e a irmã de mamãe, a tia Sinhá, que sempre morou com a gente, na casa dos meus pais.

Ao sair de volta à rua, totalmente tomado pela surpresa e pela tristeza, uma frase salvadora veio em minha ajuda. Lembro-me muito bem. Foi ela, mais uma vez, que me salvou do medo e do desespero. "Eu peço a Deus tudo o que quero e preciso. É o que me cabe. Eu não tenho o poder. Tenho a prece". Da grande e saudosa escritora brasileira, Clarice Lispector. Muito obrigado, Clarice, muito obrigado meu Deus, onipresente. Ontem, segunda-feira, Jan foi cremado ao lado da família e eu fui convidado para assistir a cerimônia. Que Deus o tenha junto de si. Muito obrigado por tudo que me deu e me ensinou nesta vida, que continuarei a transmitir aos outros. Você, meus pais e muitos outros me ensinaram que, o importante na vida é ajudar aos que necessitam. Vamos em frente, não há tempo a perder. E aí, estalou em minha mente uma outra frase, que havia lido muitas vezes nesses últimos dias: "Quem tem fé, sabe que não está sozinho".

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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