Religião

22/07/2021 | domtotal.com

Consciência: o bem é para ser feito, o mal evitado

Liberdade de consciência tem a última palavra a respeito das normas morais

Toda pessoa tem direito sagrado de seguir sua própria consciência
Toda pessoa tem direito sagrado de seguir sua própria consciência (Unsplash/Sangga Rima Roman Selia)

Élio Gasda*

Falamos tanto de consciência moral, social, política, individual, psicologia, emocional, temporal, corporal... É tema de estudos na filosofia, sociologia, teologia, psicologia, medicina e muitas outras ciências. Usamos expressões que se referem a consciência como: "toma que o filho é teu", "cada um tem sua própria cruz", "aja com consciência", tantas outras. A palavra se relaciona com maturidade, ideia, justiça, noção, responsabilidade, também ao contrário de tudo isso. Descoberta ou reconhecimento do bem ou do mal.

"A consciência tem mais peso para mim do que a opinião do mundo inteiro" (Cícero). Temos consciência sobre a consciência?

Consciência, do latim conscienĭa, conhecimento em comum, busca comum pela verdade. Nosso conhecimento começa com a experiência concreta, continua no entendimento e chega ao julgamento e à decisão e, por fim, se realiza. Esse ato de julgamento de que algo está certo ou errado acontece na consciência. Ela orienta a fazer ou deixar de fazer algo.

A consciência é uma realidade central do exercício da nossa liberdade. O que é a ética senão a prática da liberdade? (Foucault). Um indivíduo que age com liberdade responsável tem consciência das circunstâncias e das consequências das suas decisões. Liberdade informada legitima a responsabilidade. Somos capazes de decidir-nos com liberdade responsável?

O movimento que decide os rumos da nossa vida acontece na consciência. Sem consciência não existe vida moral. Somos responsáveis pelas nossas ações na medida em que somos conscientes do fazemos.

Tomar uma decisão certa sobre uma questão moral envolve uma compreensão dos princípios – o bem é para ser feito e o mal deve ser evitado – e a coleta de evidências, avaliando e entendendo suas implicações e, finalmente, fazer um julgamento mais honesto quanto possível de que esta ação é boa e deve ser feita. A ação moral vem como resultado de tal processo na consciência. Esse processo exige a prudência.

"A voz da nossa consciência sempre nos está chamando ao amor do bem e fuga do mal. A consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser" (Gaudium et spes, n. 16).

Para o cristão, o ponto de referência para tomar decisões morais é Cristo. Seu modelo de ser humano é Jesus de Nazaré. Essa é a grande pergunta que todo cristão deveria fazer: Quem eu quero ser a partir desta decisão, atitude ou ideia? Me aproximo mais de Cristo ou me afasto?

A conversão é mudança de uma orientação pautada pelo egoísmo, pela injustiça e pela mentira para assumir uma orientação pautada no amor, na justiça e na verdade ensinados por Jesus no Evangelho. Somos criaturas de Deus. Nossa consciência tem uma tendência natural para assimilar conteúdos, valores e atitudes morais. A família, a sociedade, a igreja têm uma função pedagógica de oferecer os conteúdos.

A chave de compreensão cristã da consciência é o discernimento. Tomar, em cada situação, a decisão segundo o Evangelho. O agente de inspiração é o Espírito dom da vida nova. Uma consciência cristã é expressão de uma vida conduzida pelo Espírito de Cristo. No batismo o Espírito é derramado sobre nós para "que possamos discernir o que é melhor ou o que é bom, o que é mais importante ou o que mais convém e agrada a Deus" (Rm 2,18; 12,2; Ef 5,10).

A consciência cristã adulta se mostra nas decisões concretas favoráveis ao Evangelho. Por isso a Igreja reserva à liberdade de consciência a última palavra a respeito das suas normas morais. Só na liberdade o indivíduo pode se converter ao bem. Ninguém pode ser forçado a agir contra a própria consciência nem sequer em assuntos de religião (Direito Canônico,748,2).

Consciência permite ao sujeito ser o que é. Toda pessoa tem direito sagrado de seguir sua própria consciência.

A Igreja não tem obrigação de dar respostas para todos os problemas, mas pode indicar caminhos. "A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo" (Catecismo, n.1778). Esse é um assunto para a próxima coluna. 

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!