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21/07/2021 | domtotal.com

Presidente eleito do Peru busca consenso para enfrentar desafios e aplacar temores

Congresso fragmentado e setor privado são desafios para política de Pedro Castillo

Castillo busca acalmar o mercado e terá dificuldade de implementar reformas
Castillo busca acalmar o mercado e terá dificuldade de implementar reformas (Gian Masko/AFP)

O próximo presidente do Peru, Pedro Castillo, já tem seu primeiro desafio: liderar uma transição apressada, que deve ser concluída em menos de dez dias. Neste período, Castillo precisa formar sua equipe e reunir forças políticas para que seu gabinete tenha respaldo e apoio do Parlamento, o mais fragmentado em um século, garantindo uma transição pacífica após um processo tumultuado que incluiu alegações - não comprovadas - de fraude.

Castillo terá que lidar não só com a pandemia e a instabilidade política, mas também com uma grave crise econômica, por isso será fundamental conquistar a confiança dos mercados. Em 28 de julho, dia do bicentenário da independência do Peru, esse professor de esquerda assumirá as rédeas de um país cuja economia afundou 11,12% em 2020 devido à pandemia e perdeu 2 milhões de empregos.

Na terça-feira (20), um dia após ser proclamado pelo juizado eleitoral, Castillo deu suas primeiras declarações à imprensa, indicando que seu governo será formado por figuras de diversos matizes políticos. "Estamos estruturando uma equipe de trabalho e vejo que há pessoas muito interessadas em contribuir no apoio a este governo, de todas as tendências políticas, pessoas que também não são políticos que vi hoje [e] que têm toda a disponibilidade", assegurou Castillo.

"Estamos fazendo uma convocação a todos os técnicos, às pessoas mais distintas e comprometidas com o país" para que se somem à equipe do novo governo, disse Castillo ao sair do escritório de Registro Nacional de Identificação e Registro Civil (Reniec), no centro de Lima.

O professor de escola rural, que sempre usa um chapéu branco de copa alta típico dos camponeses de sua cidade natal, Cajamarca (norte), foi proclamado na segunda-feira presidente eleito do Peru seis semanas depois do disputado segundo turno de 6 de junho no qual enfrentou a direitista Keiko Fujimori.

A demora em sua proclamação se deveu a que o juizado eleitoral precisou resolver primeiro as impugnações de milhares de votos e dezenas de apelações apresentadas por Fujimori e a declinação de um juiz do tribunal eleitoral.

A candidata derrotada denunciou "fraude" no segundo turno sem apresentar provas conclusivas, apesar de os observadores da OEA, assim como os Estados Unidos e a União Europeia, terem dito que a votação foi limpa.

A governabilidade é um dos grandes desafios de Castillo, após uma polarizada campanha eleitoral e um quinquênio governamental marcado por convulsões políticas, que levaram o país andino a ter três presidentes em novembro de 2020. "Peço tranquilidade, serenidade ao povo peruano. Esta é uma responsabilidade não só do governo, é uma responsabilidade de todos os peruanos", disse Castillo em alusão tácita a seus adversários na saída do Reniec, próximo ao cinquentenário Convento de São Francisco.

Castillo recebeu a saudação da organização da cúpula empresarial, Confiep. "Reiteramos nossa disposição ao diálogo construtivo para alcançar um crescimento inclusivo para todos", tuitou a Confiep. No entanto, pairam dúvidas sobre a possibilidade de o novo governo dialogar com o setor privado e setores da classe empresarial

Temores no mercado

Assim que Castillo emergiu como o vencedor, um dia após a votação de 6 de junho, os mercados foram abalados por medo de uma virada brusca após três décadas de políticas econômicas liberais. Assim, seu principal desafio na esfera econômica, na opinião de analistas e consultorias de risco, é a credibilidade junto aos investidores peruanos e estrangeiros.

O economista Hugo Ñopo, pesquisador do Grade (Grupo de Análise para o Desenvolvimento) afirma que o presidente eleito "deve dar sinais claros de que a gestão objetiva da economia será profissional, que técnicos sólidos serão convocados".

A consultoria de risco Eurasia, em relatório recente para seus clientes, alertou que "o governo Castillo provavelmente seguirá uma trajetória esquerdista, mesmo se moderar de alguma forma no início. No entanto, a política econômica provavelmente será errática e poderá se radicalizar".

Ñopo ressalta que há expectativas negativas no setor privado e a capacidade de Castillo de impor seu programa num Congresso fragmentado, onde seu partido Peru Libre tem apenas 37 dos 130 assentos, deverá ser vigiada. "Uma das urgências é prestar atenção às expectativas e acalmá-las para que o dólar não continue subindo, para que os preços não subam e para que o capital privado não saia do país", afirma o economista. Ñopo acredita que o novo presidente deve "construir pontes com os mercados, que hoje suspeitam do que ele pode fazer".

O dólar está perto de quatro soles há um mês e meio, ante 3,62 em dezembro, enquanto a Bolsa de Lima despencou 7,7% no dia seguinte à votação. A incerteza persistiu devido ao atraso de seis semanas do júri eleitoral em proclamar o presidente eleito.

Buscando acalmar os temores, Castillo anunciou em 26 de junho sua intenção de manter Julio Velarde como presidente do Banco Central. Ele está no cargo há 15 anos e é reconhecido por sua prudência na condução da política monetária.

"Ameaças significativas"

A governança é outro desafio, após uma campanha eleitoral polarizada e cinco anos marcados por convulsões políticas, que levou o país andino a ter três presidentes em novembro de 2020.

Os mercados pensaram que a direitista Keiko Fujimori venceria, então o alarme disparou após a votação. "As ameaças à estabilidade política e social serão significativas, com os consequentes riscos de protestos e esforços para destituir Castillo", estima Eurasia.

Segundo a consultoria, pode haver confrontos entre Castillo e "setores-chave da população, políticos e líderes empresariais" que temem uma virada radical para o socialismo semelhante ao da Venezuela.

A equipe de Castillo tem procurado acalmar esses temores e seu principal assessor econômico, Pedro Francke, destacou que o programa "nada tem a ver com a proposta venezuelana". "Não faremos desapropriações, não faremos nacionalizações, não faremos controles de preços generalizados, não faremos controles de câmbio", disse Francke em entrevista em 11 de junho.

Para Eurasia, será difícil a materialização de uma agenda de reformas radicais, dadas as "restrições institucionais" existentes, incluindo a falta de maioria legislativa. No entanto, a empresa acredita que a política econômica será muito diferente das últimas décadas.

Ñopo destaca a importância das nomeações para chefe de Gabinete, ministros da área econômica, bem como chefes de órgãos e empresas estatais. "Há centenas de pessoas que precisam ser nomeadas", diz, o que vai delinear para onde vai o governo que ele assume em oito dias.

Adriana Urrutia aposta que participação da sociedade será decisiva (Facebook/Reprodução)Adriana Urrutia aposta que participação da sociedade será decisiva (Facebook/Reprodução)

ENTREVISTA COM ADRIANA URRUTIA

Presidente da Asociación Civil Transparencia e diretora da Escola Profissional de Ciência Política da Universidade Antonio Ruiz de Montoya

O Peru vive um longo período de instabilidade política. O resultado dessas eleições pode colocar um fim nisso?

Acredito que essas eleições são a continuidade de um processo de polarização e que a proclamação de Pedro Castillo como presidente não significa necessariamente o fim dessa confrontação. Keiko Fujimori disse que reconhece os resultados porque a lei obriga, mas fala sobre a ilegitimidade desse resultado. Isso pode ser lido como um indício de que a confrontação política do fujimorismo, enquanto oposição, pode continuar. O fujimorismo vem ocupando este lugar desde 2011, quando Keiko se apresentou como candidata à presidência pela primeira vez, mas foi se tornando muito mais relevante após conquistar a maioria parlamentar em 2016, e agora os fujimoristas têm levado o processo para a confrontação e até mesmo para a violência. Não só os fujimoristas, mas também os partidários de Pedro Castillo têm entrado em um clima de confronto que não nos permite pensar que a proclamação desta segunda-feira marca o início de uma nova etapa política no país. É por isso que a sociedade civil torna-se muito mais importante: os partidos políticos não estão sendo um veículo de consenso. São os partidos políticos que levam a sociedade peruana ao confronto.

A declaração de Keiko de que aceitará o resultado é suficiente para evitar tumultos por parte de seus apoiadores?

Não é certo, porque temos visto muitos episódios de violência nesses dias. Não é possível dizer que isso acalmará o grupo La Resistencia, a ala mais radical entre os seus apoiadores, mas acho que é o início do reconhecimento que o partido Fuerza Popular perdeu. É o início de seu papel enquanto partido político da oposição. Nesses próximos dias, veremos qual vai ser a estratégia que o Fuerza Popular vai utilizar para se posicionar enquanto oposição.

Um cenário muito comentado aqui no Peru é a possibilidade de que o governo de Castillo não dure muito tempo. Porque no Peru, como no Brasil, o Parlamento tem poder para conduzir um impeachment presidencial. Isso criaria uma instabilidade, como aconteceu com Vizcarra e PPK. Então o Parlamento é outro ator muito importante na transição que veremos nos próximos dias, nos próximos meses. É o Parlamento mais fragmentado deste século. São dez partidos entrando agora, ninguém tem a maioria, vai ser muito complexa a relação para estabelecer alianças e consensos. Também vamos ver qual vai ser a dinâmica do Peru Libre. Porque Castillo é o candidato presidencial, mas Cerrón é o líder. E há muita discussão sobre a relação entre os dois e qual peso Cerrón terá na escolha de ministros de Estado e do primeiro gabinete ministerial de Castillo.

Quais são os principais desafios de Castillo?

O desafio imediato é garantir a transição nos dez dias que restam para concluir a transferência de governo. No Peru, a transição acontece a cada cinco anos, no dia 28 de julho, quando se comemora a independência - ou seja, em menos de dez dias. Ele precisa formar uma equipe que vai ocupar o Estado, passar de candidato a líder da nação. Precisará convocar técnicos e reunir forças políticas para que seu gabinete tenha respaldo e apoio do Parlamento, porque o Parlamento pode não aprovar a equipe ministerial. Muita gente acredita que esse gabinete precisa ser de base social diversa, representar diferentes partidos políticos e setores sociais. Castillo foi eleito com uma agenda de transformação social, então vai haver muita pressão para que os diferentes líderes sindicais e sociais também se reconheçam. Esse é o desafio imediato. A curto e médio prazo, o desafio é sair da crise - uma crise muito parecida com a do Brasil. Castillo vai ter que recuperar a economia, reformar o sistema de saúde, porque a crise tornou evidente que a saúde no Peru não funciona, e garantir o retorno às aulas. A longo prazo, o grande desafio é manter-se no poder.

Castillo conseguirá implementar sua agenda econômica?

Eu me atreveria a dizer que a agenda econômica de Castillo não é tão clara. Eu sou presidente de uma associação civil (Transparência), e precisei enviar aos candidatos um pedido, na metade do segundo turno, para que eles informassem quais eram seus projetos. Foi lá e nos debates organizados pelo JNE (órgão eleitoral) que os dois finalistas falaram sobre o que pretendiam fazer, mas não havia muita informação. Além disso, nos últimos dias tem se mantido muito reservadamente quais são as próximas ações. Pedro Franke é a cara mais conhecida entre os assessores de economia de Castillo. É um professor universitário, técnico, de esquerda. Nos últimos tempos, é ele quem fala sobre as propostas econômicas, mas não há grandes anúncios. Fala-se muito da necessidade ou interesse, por parte do próprio Castillo, de garantir um debate, em termos de estabilidade. Então vamos ver quais declarações são dadas nos próximos dias. Também é importante acompanhar quem será escolhido para ocupar o cargo de ministro da Economia.

O que acontece agora com Keiko?

Ela é sem dúvidas a líder do fujimorismo, e o fujimorismo foi capaz de agrupar nessas eleições um setor da população que não havia votado por eles anteriormente. Com certeza, eles serão a principal voz da oposição, e Keiko será a líder dessa oposição. Mas ela também tem um processo em curso, e precisamos ver o que acontecerá. De qualquer forma, acho difícil imaginar uma posição não confrontacional, depois do que vimos nessas últimas eleições. É uma situação de conflito, um país que tem se polarizado precisamente pelos líderes políticos que tem. O Peru celebra em breve 200 anos de independência, e os desafios de construção de Estado, de institucionalidade, de coletividade política, continuam presentes.


AFP/Agência Estado/Dom Total



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