Religião

21/07/2021 | domtotal.com

A igreja é um 'nós': reflexões sobre a restrição de Francisco à missa em latim

Qualquer cisma que possa ocorrer não foi gerado pelo papa, mas já existia de modo silencioso

Pe. Stephen Saffron, administrador paroquial, reza durante uma tradicional missa em latim em 18 de julho na Igreja de St. Josaphat, no bairro de Queens, na cidade de Nova York
Pe. Stephen Saffron, administrador paroquial, reza durante uma tradicional missa em latim em 18 de julho na Igreja de St. Josaphat, no bairro de Queens, na cidade de Nova York (CNS/Gregory A. Shemitz)

Kevin Irwin*

NCR

Durante o verão de 1968, frequentei a Universidade de Notre Dame e fiz os dois primeiros cursos exigidos para um mestrado em estudos litúrgicos. Um deles era sobre livros e fontes litúrgicas, ensinada pelo padre beneditino Aelred Tegels. Repetidamente, ele chamou nossa atenção para o fato de que quase todas as orações nessas fontes estavam no plural – quaesumus – "pedimos".

O outro curso foi sobre a Eucaristia e era ministrado pelo padre beneditino Aidan Kavanagh. Um de seus refrões repetidos foi que a Eucaristia era o Corpo de Cristo sempre edificando e servindo a Igreja.

Quando voltei ao seminário para meu segundo ano de teologia, encontrei o professor de teologia moral no corredor. Ele me disse: "Diga algo para mim sobre a liturgia".

Eu respondi: "Igreja". Isso é o que me ensinaram naquele verão e tenho aprendido e ensinado até hoje. Liturgia e Igreja são inseparáveis.

Apresento aqui algumas reflexões que contextualizam e exploram a carta apostólica Traditionis custodes do papa Francisco de 16 de julho, que impõe restrições às celebrações da missa de acordo com o rito latino pré-Vaticano 2º.

Um tríptico papal

Em meio a todas as discussões sobre o papado nos últimos anos, acho útil considerar São João Paulo II, o papa Bento XVI e o papa Francisco como um tríptico papal. Cada um trouxe seus pontos fortes particulares ao papado e, especificamente, à questão da unidade da Igreja.

Nenhum papa deseja ter um cisma como parte de seu legado. João Paulo II viu isso como uma séria ameaça dos seguidores de Marcel Lefebvre, que ensinava que o Missal de Paulo VI, emitido em 1970 após o fim do Concílio Vaticano II (1962-65), era herético. Eles também apontaram que as aberturas do Concílio para outras igrejas cristãs, comunidades e para o diálogo inter-religioso eram profundamente falhas e suspeitas, na verdade heréticas.

Portanto, João Paulo II estendeu um ramo de oliveira muito significativo aos lefebvrianos em 1988 e permitiu a celebração da missa pré-Vaticano II sob certas restrições. Da noite para o dia, a questão do missal revisado após o Vaticano II foi descartada.

Curiosamente, o título do documento que dá essa permissão é A Igreja de Deus (Ecclesia Dei) e não, por exemplo, "A Liturgia de Deus". Este é o mesmo nome que João Paulo II deu à comissão cuja responsabilidade era trabalhar pela reconciliação com os lefebvrianos. A permissão para a missa pré-Vaticano 2º era sobre a Igreja e a restauração da unidade da Igreja.

Missa e ensino da Igreja

No outono de 1996, eu estava residindo na paróquia Maria Mãe de Deus, no centro de Washington, D.C. Certa manhã de domingo, estava indo dar uma corrida no National Mall. Minha saída do prédio coincidiu com a chegada da comunidade que se reuniria para a missa tridentina das 9h em latim.

Um cavalheiro perguntou se eu celebraria a missa "deles". Respondi que não, porque não tinha a permissão do arcebispo. Acontece que quase todos os que compareceram eram da Diocese de Arlington, Virgínia, porque o bispo de Arlington na época, John Keating, não permitia a missa tridentina de forma alguma.

Depois da missa, as crianças participavam das turmas de catequese, mas o texto era o Catecismo de Baltimore (primeira edição 1885). Consequentemente, não houve ensino do Vaticano II ou das encíclicas sociais.

Julgo que a preocupação de Francisco com a doutrina é muito profunda e real. O papa exige que aqueles que celebram a missa tridentina aceitem "o caráter obrigatório do Vaticano 2º".

A frase lex orandi, lex credendi (o que rezamos é/deveria ser o que acreditamos) ressurgiu um pouco durante os debates sobre a tradução para o inglês do Missal Romano. Em sua carta apostólica Traditionis custodes, Francisco reafirma que os livros litúrgicos aprovados pelo papa Paulo VI e por São João Paulo II "constituem a expressão única da lex orandi do Rito Romano".

Acabaram as acrobacias gramaticais que exigiam o uso de frases como "a forma ordinária", "a forma extraordinária" e "o novus ordo" – sem mencionar a mágica dos sinos de igreja ou manchetes do jornal paroquial anunciando uma "missa latina", disponíveis em algum lugar, mas o que estavam realmente dizendo é que a forma então extraordinária da missa deveria ser a forma ordinária da celebração.

'Enriquecimento mútuo'?

Quando o papa Bento XVI em 2007 emitiu sua carta apostólica Summorum pontificum, ampliando as ocasiões em que aquilo que o papa chamou de "forma extraordinária da missa" poderia ser celebrado, o sumo pontífice também emitiu uma carta para regrar o falado no documento.

Nessa carta, Bento XVI indicou que poderia imaginar um "enriquecimento mútuo" da missa de 1570 e da missa de 1970. Li isso com total surpresa.

Quem decidiria quais elementos e com base em quê? Bento XVI não criticou severamente a "seleção e escolha" que estava acontecendo na década de 1960 e com razão? Lembro-me de ter visto orações clandestinas circulando para substituir os textos do missal daquele dia. (Isso foi em uma cultura de leituras em papel. Eu só posso imaginar o que pode acontecer e acontece em uma cultura da Internet).

A liturgia é como estar em um lugar e espaço familiares. Não é reinventar a roda de acordo com caprichos e gostos ou desgostos individuais. A liturgia simplesmente é.

Honestamente, nesta época de Summorum, o vento já havia deixado de empurrar as velas sobre a permissão tridentina para a reconciliação com os lefebvrianos. Mas é curioso que Bento XVI tenha notado que vários jovens "se sentem" atraídos por essa forma de missa. A frase é "sentiam sua atração" (em italiano: "anche giovani persone scoprono questa forma liturgica"). Desde quando um documento oficial da Igreja sobre a liturgia diz respeito aos sentimentos de alguém ser atraído para a missa A ou para a missa B? A liturgia é.

Quando o Kennedy Center foi inaugurado em D.C., há 50 anos, a apresentação principal foi a missa recém-encomendada por Leonard Bernstein. Em cerca de cinco minutos de música, a orquestra para abruptamente e um solista canta algo que é exatamente o oposto da missa. Ele canta: "Faça as pazes à medida que avança" ("Make it up as you go along", que tem um sentido de "prepare-se").

Essa é a antítese completa do que é a liturgia. Na verdade, não planejamos nenhuma liturgia. Devemos nos preparar para cada liturgia. Infelizmente, algumas das coisas que devemos preparar com muito cuidado são coisas que os católicos criticam repetidamente em muitas pesquisas: a qualidade das homilias e da música.

Um dos primeiros exemplos da missa tridentina sendo celebrada em DC foi a pedido do candidato presidencial republicano Pat Buchanan em 1992. Em seu livro Right from the beginning, Buchanan disse que mesmo durante a missa tridentina ele lia um livro durante a homilia porque depois do Vaticano II, a Igreja Católica se tornou "a primeira Igreja de Cristo cocialista".

É um grande trabalho para o Espírito Santo, guiar os bispos como responsáveis pelo ensino do Vaticano II. Ao mesmo tempo, Buchanan pode ter estado à frente de seu tempo ao "contratar" um padre para celebrar "sua" missa particular na capela de uma escola secundária. Lamento dizê-lo, mas posso vislumbrar com tristeza a quantidade de pedidos que farão às escolas e aos seminários aqueles que desejam que se celebre a forma litúrgica (então) extraordinária.

O fato de que a partir de agora um seminarista que deseja celebrar a missa Tridentina precisa da permissão da Sé Apostólica significa que o papa considera esta restauração da liturgia do Vaticano II com maior seriedade. Com efeito, isso vai esgotar o número de padres treinados e dispostos a celebrar a missa tridentina.

Alguns dirão (e já o fizeram em blogs) que essa decisão causará um cisma, o tipo de coisa que João Paulo II queria evitar em primeiro lugar. Mas minha opinião é que quaisquer ações que as pessoas tomem simplesmente desmascararão o cisma silencioso que ocorreu e continua na Igreja Católica sobre uma numerosa série de coisas, incluindo as preferências litúrgicas.

Voltemos para Notre Dame e para as premissas básicas são sobre o "nós" em "pedimos" e que o Corpo de Cristo na Eucaristia alimente o corpo de Cristo que é a Igreja. Na verdade, estamos nisso juntos.

Como isso funciona em uma cultura que tirou as pessoas do "nós" e presume que o hino nacional é I did it my way?

Publicado por NCR

*Mons. Kevin Irwin é um sacerdote da Arquidiocese de Nova York que serviu no corpo docente da Escola de Teologia e Estudos Religiosos da Universidade Católica da América desde 1985. Atuou em várias funções na escola, incluindo o papel de reitor de 2005 a 2011. É autor de vários livros sobre liturgia, sacramentos e meio ambiente.



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