Economia

21/07/2021 | domtotal.com

Startups brasileiras mostram como transformar problemas em lucro

Nova geração de empreendedores vê supostas barreiras como chances e se impõe no cenário internacional

Empreendedores encontram soluções simples para velhos problemas
Empreendedores encontram soluções simples para velhos problemas (Pixabay)
DW

Alexander Busch*

Em conversas com empresários brasileiros, sempre chega o momento em que o "custo Brasil" é colocado sobre a mesa. O termo resume tudo o que torna difícil a vida das companhias no país, ou seja: os custos salariais adicionais; os impostos, que, além de muitos, são complexos e diversos em cada estado; a lenta e cara Justiça, quando se trata de fazer valer os próprios direitos; os altos gastos para abrir uma empresa - e maiores ainda para fechá-la; a burocracia desbragada; os juros altos etc.

Enfim: o "custo Brasil" resume todos os argumentos por que a vida dos empresários brasileiros seria mais difícil do que a de seus concorrentes no exterior. E procede: no ranking Doing Business do Banco Mundial, o Brasil ocupa a 124ª posição entre 190 países. O Chile e o México, por exemplo, estão em 59º e 60º lugar.

Contudo, há muitos anos o "custo Brasil" se tornou uma espécie de argumento imbatível dos empresários e suas federações, sobretudo da indústria, a fim justificar o próprio atraso, baixa competitividade ou pouco êxito nas exportações; para exigir tratamento especial do Estado - por exemplo, com a imposição de tarifas de proteção sobre as importações - ou lhe pedir créditos; para torpedear zonas de livre comércio.

"Os típicos problemas brasileiros são as nossas chances"

Contudo o argumento "custo Brasil" está colando cada vez menos, pois existem numerosas empresas que o veem como chance. Trata-se sobretudo de startups, das quais há no país quase uma dúzia que já se transformaram em "unicórnios", isto é, cujo valor de mercado excede US$ 1 bilhão (R$ 5,20 bilhões).

"Os típicos problemas brasileiros são as nossas chances", me disseram recentemente os fundadores da bem-sucedida startup imobiliária Loft. Quanto mais fechado o mercado, quanto mais altas as barreiras mercadológicas que a economia nacional há décadas ergue em torno de si para se proteger, maiores são as margens para as empresas que conseguem romper esses muros.

Não foi por acaso que o fundador do Nubank teve a ideia de criar um banco on-line ao ser mais uma vez barrado na porta giratória de uma grande instituição financeira brasileira, quando mais uma vez teve que comparecer pessoalmente para abrir uma simples conta. Hoje, o Nubank é o maior banco on-line do mundo.

Os donos da Loft chegaram à ideia de criar uma plataforma imobiliária ao verem quão pouco transparente o mercado é: dois apartamentos no mesmo local, com instalações semelhantes, podem ter preços totalmente diversos.

O fundador do Gympass, que viaja muito, se irritava de ter sempre que se filiar a uma academia de ginástica nova ao passar algumas semanas numa cidade diferente. Atualmente ele interconecta com as academias as companhias que querem proporcionar treinamento físico a seus funcionários - não só no Brasil, mas em todo o mundo.

A lista não para por aí. Decisivo é que o sucesso das startups no país prova que o argumento do "custo Brasil" já esgotou sua validade. As certamente difíceis condições locais impedem cada vez menos empresas de iniciarem modelos comerciais de êxito, mesmo em setores estabelecidos, e de se imporem também em nível internacional.

DW

Alexander Busch é jornalista há 25 anos, correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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