Religião

23/07/2021 | domtotal.com

A mudança climática global também é uma crise espiritual

À medida que as coisas continuam piorando, vidas humanas e não humanas continuam sendo ameaçadas e assassinadas

Homem passa por um carro submerso ao longo de uma rua inundada após fortes chuvas em Zhengzhou, na província central de Henan, na China
Homem passa por um carro submerso ao longo de uma rua inundada após fortes chuvas em Zhengzhou, na província central de Henan, na China (STR/AFP)

Daniel P. Horan*
NCR

Como todas as ameaças individuais ou coletivas à segurança e à proteção, o perigo claro e presente da mudança climática global é tanto uma crise espiritual quanto uma crise existencial.

Até agora, neste verão, o mundo todo testemunhou uma série de catástrofes perturbadoras relacionadas ao clima, que por si mesmas são chocantes e, consideradas em conjunto, deveriam causar medo nos corações e mentes de todos nós.

Incluídos entre esses terríveis eventos estão as ondas de calor recordes no noroeste do Pacífico dos Estados Unidos e Canadá, matando mais de 100 pessoas; o início precoce de incêndios florestais no oeste; secas devastadoras em muitas partes dos Estados Unidos, enquanto em outras partes vemos "chuvas de monções" (fortes chuvas seguidas de longos períodos de seca); e terríveis inundações na Alemanha e na Bélgica que destruíram comunidades e mataram pelo menos 165 pessoas.

O que é significativo sobre eventos como esses não é que estejam ligados às mudanças climáticas globais, uma vez que isso já foi estabelecido cientificamente. Em vez disso, o que é comum a esses eventos que dominaram nossas manchetes nas últimas semanas é que estão afetando muitas das comunidades e nações mais prósperas do mundo.

Aqueles que têm insistido em negar a realidade e afirmar falsamente que a mudança climática não é real ou é algum tipo de embuste político são aqueles que, até agora, viveram em um contexto de luxo e conforto que os isolou dos duros fatos do mundo até hoje. Enquanto isso, bilhões de pessoas não tiveram o privilégio de tal ignorância intencional, uma vez que os pobres globais têm suportado o fardo do fenômeno climático mais extremo por décadas e continuam sofrendo de uma maneira inimaginável para os cidadãos do chamado "Primeiro Mundo."

Em Laudato si', sobre o cuidado de nosso lar comum", o papa Francisco identificou precisamente essa desigualdade global no que diz respeito às consequências das mudanças climáticas:

Representa um dos principais desafios que a humanidade enfrenta em nossos dias. Seu pior impacto provavelmente será sentido pelos países em desenvolvimento nas próximas décadas. Muitos dos pobres vivem em áreas particularmente afetadas por fenômenos relacionados ao aquecimento, e seus meios de subsistência são amplamente dependentes de reservas naturais e serviços ecossistêmicos, como a agricultura, a pesca e a silvicultura. Não têm outras atividades ou recursos financeiros que lhes permitam se adaptar às mudanças climáticas ou enfrentar desastres naturais, e seu acesso aos serviços e proteção sociais é muito limitado.

O papa continuou descrevendo o surgimento de uma nova e dolorosa crise humanitária que está inextricavelmente ligada à mudança climática global - o aumento de migrantes ambientais e refugiados. O papa explica (LS 25):

As mudanças climáticas constituem "atualmente um dos principais desafios para a humanidade. Provavelmente os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento. Muitos pobres vivem em lugares particularmente afetados por fenómenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência dependem fortemente das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema como a agricultura, a pesca e os recursos florestais. Não possuem outras disponibilidades económicas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se aos impactos climáticos ou enfrentar situações catastróficas, e gozam de reduzido acesso a serviços sociais e de proteção".

Ele continuou descrevendo o surgimento de uma nova e dolorosa crise humanitária que está inextricavelmente ligada à mudança climática global - o aumento de migrantes ambientais e refugiados. O papa explica:

"Por exemplo, as mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre conseguem adaptar-se; e isto, por sua vez, afecta os recursos produtivos dos mais pobres, que são forçados também a emigrar com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos. É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma indiferença geral perante estas tragédias, que estão acontecendo agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reacções diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil".

Esta última parte sobre a indiferença de milhões de homens e mulheres em relação à mudança climática em geral e suas consequências desastrosas para nossos semelhantes está no cerne do que estou chamando de crise espiritual. Acredito que o que torna a mudança climática global uma crise espiritual para muitos se reflete em pelo menos três grandes falhas que os cristãos e muitas pessoas de boa vontade demonstram.

O primeiro é o fracasso em reconhecer nossa interconexão inerente. Francisco fala sobre isso em termos da frase "ecologia integral", que é a ideia de que "tudo está conectado". Isso se aplica tanto ao mundo não humano quanto ao mundo humano na era da globalização.

O fato de tantas pessoas estarem sofrendo em uma escala que é inimaginável para a maioria dos cidadãos ricos do mundo, e ainda assim pouco ou nada ser feito e a maioria das pessoas não se importarem, representa um claro fracasso. Francisco diz em Laudato si': "É preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença."

Em face das crises humanitárias massivas, as nações ricas estão colocando "fronteiras e barreiras" cada vez maiores para nossos irmãos e irmãs que estão morrendo. O fato de que tantos fiéis que se identificam a si mesmos possam continuar a se considerar cristãos fiéis, ao mesmo tempo que exibem tal indiferença insidiosa, é de fato uma crise espiritual.

A segunda falha decorre dessa indiferença. É a inação individual e coletiva, que inclui o fracasso em abraçar o que o papa chama de "conversão ecológica" necessária para começarmos a ver o mundo de uma nova maneira. A maior parte do mundo rico não consegue sequer reunir a energia necessária para cuidar. E isso é indicativo de uma crise espiritual porque é inerentemente pecaminoso.

Lembro-me do que o teológo jesuíta do Boston College, James Keenan, disse em seu livro Moral Wisdom: Lessons and Texts from the Christian Tradition sobre a definição fundamental do pecado. Ele escreveu que o pecado é "deixar de amar" nossos irmãos e irmãs.

Keenan explica: "Nosso pecado geralmente não está no que fizemos, nem no que não pudemos evitar, nem no que tentamos não fazer. Nosso pecado é geralmente onde você e eu estamos confortáveis, onde não sentimos a necessidade de sermos irmãos."

O pecado, de acordo com Keenan, tem muito a ver com operar a partir de uma posição de força e conforto, o que leva à complacência. No contexto da mudança climática global, não há pessoas mais fortes, confortáveis e complacentes do que os globalmente ricos que só agora parecem estar experimentando os primeiros gostos de nosso fracasso em se preocupar em amar uns aos outros e ao planeta. O pecado exige arrependimento e conversão. O pecado ecológico exige o mesmo, o que é necessário agora mais do que nunca.

A terceira falha é a estreiteza da concepção da maioria das pessoas sobre o que deve ser incluído na oração. O mal da mudança climática global e o sofrimento de tantos não mudarão apenas com a nossa oração. Mas é importante reconhecer que a oração é a chave para a conversão e a vivência de nossa vocação cristã. Uma das maneiras pelas quais a crise climática é uma crise espiritual é que muitos cristãos compartimentam seu relacionamento com Deus de seu relacionamento com o mundo natural.

Esse tipo de separação artificial, que pode ser motivada por uma visão distorcida de que o "sagrado" é diferente do "secular" ou o "sobrenatural" do "natural", e isso leva muitos a excluírem uma reflexão espiritual séria sobre a interconexão do "grito da terra" e "grito dos pobres".

À medida que as coisas continuam piorando, vidas humanas e não humanas continuam sendo ameaçadas e assassinadas, e é cada dia mais urgente uma tomada de decisão por indivíduos e comunidades, não podemos ignorar a dimensão espiritual da crise climática em nosso meio. Na verdade, como Francisco nos lembra regularmente, tudo está conectado, e isso inclui não só a vasta comunidade de criação da qual você e eu fazemos parte, mas também inclui o que trazemos para a oração e o que dela flui em termos de ação.

Publicado por NCR

*O padre Franciscano Daniel P. Horan é o professor titular de espiritualidade na Catholic Theological Union em Chicago, onde ensina teologia sistemática e espiritualidade. Siga-o no Twitter: @DanHoranOFM.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!