Cultura Música

22/07/2021 | domtotal.com

Exposição na Alemanha comemora os 250 anos da editora musical Schott

Mostra explora relação de sons com notação e a evolução da escrita musical

Quase um pintura: partituras das obras de música eletrônica de György Ligeti (1923-2006)
Quase um pintura: partituras das obras de música eletrônica de György Ligeti (1923-2006) (Gutamberg Museum)
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O Museu Gutenberg de Mainz dedica uma exposição inteira a uma única casa editorial alemã. Na verdade, trata-se de uma mostra de jubileu, que deveria ter sido inaugurada em 2020 quando a Schott, uma das maiores editoras de música do mundo, completou 250 anos.

A homenagem não é exagerada, considerando-se que contar a história da firma é também repassar estações essenciais da música erudita europeia. Mas aí, claro, veio a pandemia e, como tantas outras instituições, o "museu mundial da arte da impressão" teve que ficar meses fechado.

Contudo esse atraso só contribui para o fascínio da mostra Noten für die Welt (Notas musicais para o mundo). A começar por sua extensão temporal: para ilustrar os primórdios na notação musical, ela começa com os neumas medievais - em que era registrada a música litúrgica, como os cantos gregorianos -, e vai até partituras visualmente ousadas e artísticas dos séculos 20 e 21.

A trajetória começa com um espetacular manuscrito em neumas, datando de mais de mil anos. Contrastando com essa forma de escrita apenas aproximativa, contudo, na Alta Idade Média foram desenvolvidas a notação quadrada e losangular, mais precisas, pois expressavam as alturas relativas das notas. O próximo passo será encontrar formas de registrar os ritmos.

"Até a primeira metade do século 15, só era possível copiar música manualmente", confirma a curadora Maria Linsmann-Dege. Para a exposição, ela revirou fundo os arquivos do museu: entre os tesouros expostos está o Psalterium Benedictium cum canticis et hymnis, impresso em 1459 por Peter Schöffer, o Velho.

Invenção de Gutenberg faz escola

Em 1450, o filho de Mainz Johannes Gutenberg (1400-1468) publicara os primeiros livros usando uma prensa móvel. Antes dele, em 1040, o chinês Bi Sheng já empregara peças móveis de porcelana para imprimir textos. No Ocidente, porém, a invenção do também ourives Gutenberg inaugurou uma nova época da comunicação e divulgação do saber.

No início do século seguinte, alguns impressores começaram a publicar obras polifônicas utilizando a nova técnica, sendo o principal deles o italiano Ottaviano Petrucci, considerado o inventor da impressão musical com tipos móveis. O mais tardar nos séculos 17 e 18, a música impressa se difundira amplamente na Europa, sobretudo na forma de livros de canto litúrgico.

No entanto, a tipografia não era ideal para textos musicais, e passou-se a dar preferência à impressão com placas de cobre que tinham que ser laboriosamente gravadas - em reverso. A conceituada editora alemã Henle seguiu imprimindo partituras por esse método até o ano 2000, embora a partir do século 19 ele já viesse sendo gradualmente substituído pela litografia.

Com o advento da Revolução Francesa, a impressão musical ultrapassou os confins da igreja. Na Alemanha, "o lied encontrava cada vez mais adeptos", descreve Linsmann-Dege. "Os compositores se voltaram para as canções, geralmente sobre versos estróficos simples, acompanhadas de piano e apresentadas em contextos intimistas."

Entre as fontes literárias mais populares estavam os poemas de Johann Wolfgang Goethe e a coleção de canções populares de Johann Gottfried von Herder. Quem imprimia a maioria das partituras era a Casa Schott.

Um impressor escreve história da música

O clarinetista e impressor Bernhard Schott (1748-1809) fundou no principado de Mainz, junto com dois irmãos, a próspera editora que em 1770 viria a ser batizada B. Schott's Söhne. Um dos fatores de seu sucesso foi a opção pela recém-inventada litografia como método de impressão, o que lhe permitia tiragens grandes com qualidade constante.

Acima de tudo, porém, Schott tinha excelente faro para a qualidade musical: seus primeiros lançamentos, em 1764, foram as quatro sonatas para piano e violino KV 6 a 9, de Wolfgang Amadeus Mozart. As primeiras edições e as reduções para piano das óperas O rapto do serralho e Don Giovanni, do compositor austríaco, contam entre os pontos altos da história da editora. Mais tarde, será também ela a publicar duas obras tardias de Ludwig van Beethoven: a Missa solene e a Nona sinfonia.

A partir de 1859, o neto do fundador Franz Schott definiu a música alemã como linha-mestre da casa. Lá, Richard Wagner publicou algumas de suas mais importantes óperas, como Os mestres-cantores de Nurembergue, O anel do Nibelungo ou Parsilfal.

A atual exposição contém uma série de revelações fascinantes para os amantes da música. Além de uma seleção de placas de impressão originais de cobre e pedra, pode-se ver a raramente exibida partitura original de Os mestres-cantores, de 1866/7, um empréstimo do Museu Nacional Germânico de Nurembergue.

Uma comparação com a redução para piano impressa, de autoria de Karl Tausig, confirma não só o cuidado detalhista de Wagner - seu original contém numerosas anotações, correções e alterações - como a precisão e qualidade das impressões da Schott, mais de 150 anos atrás.

Partitura como obra de arte

Um salto nos séculos traz novas descobertas fascinantes: no intuito de expressar um conteúdo sonoro inovador, partituras de compositores modernos e contemporâneos como Paul Hindemith (1895-1963), Carl Orff (1895-1982) ou György Ligeti (1923-2006) são praticamente objetos de arte visual.

Em 2006, a Schott Musikverlag se transformou em Schott Music, sedimentando sua orientação francamente internacional. Mantendo a tradição ?" iniciada com Mozart ?" de se dedicar à música contemporânea, o catálogo atual inclui nomes como o francês Henri Dutilleux (1916-2013), o polonês Krzysztof Penderecki (1933-2020), a israelense Chaya Czernowin (*1957) ou o inglês Mark-Anthony Turnage (*1960), entre muitos outros.

Até 2014, os tesouros históricos da Schott estavam guardados no prédio da empresa, em Mainz. Quando se começou a leiloá-los em Londres, o governo federal interveio, declarando-os "patrimônio cultural inalienável alemão". O acervo foi então vendido a diversas fundações culturais estaduais. A fundação ligada à editora emprega o dinheiro arrecadado em projetos de formação musical.

Fazendo jus a sua temática, porém, a exposição no Museu Gutenberg não é só para os olhos: na seção Musikduschen (Chuveiro de música), as notas impressas se tornam audíveis.

Noten für die Welt pode ser visitada em Mainz até 7 de novembro de 2021.

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