Religião

23/07/2021 | domtotal.com

Amizade: relação humana, revelação de Deus

A amizade é onde o amor pode fazer pouso, em nossa vida, de um modo genuinamente gratuito

Jesus chorou quando soube da morte do amigo Lázaro
Jesus chorou quando soube da morte do amigo Lázaro (Free Bible Images/Lumo Project)

Teófilo da Silva*

Somos seres complexos e as nossas relações, igualmente. A amizade é uma dessas relações: cada um de nós acaba, por fim, tendo seu próprio conceito do que ela seja, mas somos incapazes de esgotar toda a sua significação. Vamos encontrando algumas afinidades entre uma compreensão e outra, mas, ainda assim, a abrangência do que ela seja permanece vasta. E isso é maravilhoso, pois significa que temos uma impressionante capacidade de estabelecer relações muito singulares: nunca amamos alguém da mesma forma que outras pessoas, tampouco com a mesma intensidade.

A amizade é onde o amor pode fazer pouso, em nossa vida, de um modo genuinamente gratuito. A reciprocidade que a constitui não é da ordem da obrigação, mas da generosidade. O amor desdobra-se em mais amor e é assim que tornamo-nos recíprocos em nossas relações. "A amizade é um amor que nunca morre", ensina-nos Mario Quintana. E não morre porque ele simplesmente é, sem mais. Há muitos motivos a partir dos quais nos tornamos amigos de alguém, mas o que nos faz permanecer é o simples acontecimento de um amor que nos propicia ser quem somos com leveza e acolhimento.

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Não seria, pois, a amizade, um lugar existencial no qual Deus se revela? Isso porque amizades são possibilidades salvíficas, em muitos aspectos: solidariedade, compaixão, sustentação, apoio, generosidade, incentivo, correção, cumplicidade? "Quem tem um amigo tem tudo, se o poço devorar, ele busca no fundo [...] pronto pro que vier, mesmo, a qualquer segundo. É ombro pra chorar depois do fim do mundo" (Emicida). Para os que têm fé, como não encontrar a presença de Deus, manifestada no afeto entre amigos?

Jesus, o profundamente humano que revela Deus, experimentou a força da amizade. Tão marcantemente a viveu, que chorou quando seu amigo Lázaro havia morrido (Jo 11,35). Este, que é o versículo mais curto da Bíblia, carrega uma densidade impressionante. Os evangelhos mostram que Jesus se condoía com os sofredores e sofredoras do seu tempo, e que isso dizia respeito à sua humanidade e missão existencial. O episódio da morte do amigo Lázaro revela ainda algo mais: trata-se da dor de perder um amigo. Como não se trata de uma biografia, o Evangelho não oferece aos leitores e leitoras detalhes a respeito da convivência entre Jesus e Lázaro. Conta-nos, apenas, que Jesus se hospedava lá e fazia refeição com Lázaro e suas irmãs.

As poucas informações que temos a respeito da relação entre Jesus e Lázaro fazem com que o que o evangelista João narra sobre o choro do Nazareno chame nossa atenção: não sabemos exatamente como esta amizade era vivida, mas marcou profundamente a vida de Jesus, tal como as nossas amizades marcam a nossa. Um/a amigo/a carrega em si nosso coração. E, assim, suas alegrias são nossas alegrias, seus sofrimentos e desalentos são também os nossos. E o contrário se faz verdade. Isso é profundamente teológico: a encarnação do Filho de Deus não é, pois, a atestação da amizade de Deus para conosco?

*Teófilo da Silva é teólogo e poeta



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