Religião

23/07/2021 | domtotal.com

Amigo estou aqui!

Amigo é coisa para se cultivar. Não existe, na sua essência, amizade sem esforço

Ser amigo é estar conectado com a vida uns dos outros
Ser amigo é estar conectado com a vida uns dos outros (Unsplash/Melissa Askew)

Daniel Couto*

"Enfim, depois de tanto erro passado, tantas retaliações, tanto perigo, eis que ressurge noutro o velho amigo, nunca perdido, sempre reencontrado".
(Vinicius de Moraes, Soneto do amigo, 1946)

O que nos define como seres humanos? Essa pergunta pode nos parecer inocente, mas tem nos motivado há muitos séculos. Saber quem somos, o que nos diferencia dos outros seres vivos e as características da nossa natureza foram os fundamentos do trabalho realizado por filósofos e filósofas que, por diversas vias interpretativas e abordagens metodológicas, nos apresentaram um quadro, mais ou menos perceptível, da nossa existência no mundo. Muitos dos nossos dilemas existenciais, das angústias da vida contemporânea e das narrativas que construímos para superá-las, são fundamentados na compreensão de que, como seres humanos, constituímos-nos como animais relacionais.

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Na antiguidade grega, compreendendo-se como um sujeito que se forma a partir da relação com a comunidade na qual está inserido, o ser humano é definido, por Aristóteles, como um zoon politikon, isto é, um animal político. É na sua relação com os outros, na comunidade e na participação das decisões coletivas, nos implicando e deixando que as escolhas dos outros nos impactem, que nos constituímos como humanos. Isso nos mostra uma característica importantíssima da nossa natureza: a imperfeição humana e a necessidade da vida coletiva.

Por essa via, percebemos que os indivíduos não se bastam, ou seja, precisam uns dos outros para os cuidados básicos (como os bebês e as crianças precisam de outros seres humanos para sobreviver) e, também, para atingir os mais diversos objetivos da sua vida. Coletivos humanos, estruturados das mais variadas maneiras, formaram as organizações culturais e políticas que temos hoje e desenvolveram tecnologias, formas de governo, tradições religiosas e tudo aquilo que é "exclusivamente" humano. Os laços parentais que nos unem, consanguíneos e através de alianças político-afetivas, nem sempre foram estabelecidas da mesma maneira e o conceito de família contemporâneo é recente em nossa sociedade. As relações humanas são tão complexas que, em seu âmago, definem a própria humanidade.

Não é de se espantar, portanto, que a regulação das relações humanas seja um instrumento de poder e que pensar novas roupagens nos leva à libertação de estruturas caducas que, em algum momento, fizeram sentidos na construção da sociedade em que vivemos. Se a libertação é alcançada a partir da ressignificação das relações humanas, não podemos deixar de apontar que, desde os primórdios do cristianismo, Jesus nos aponta esse caminho de "amor ao próximo" como fundamento. Se o cristianismo se funda na profunda comunhão dos fiéis, como as primeiras comunidades nos relatam nos escritos apostólicos, com o passar do tempo, a institucionalização da religião e o jogo de poder a tradição se afasta e se apresenta como uma instituição que oferece o elo entre o ser humano e o divino. Esse elo, porém, não é baseado na relação entre as pessoas (humana e divina) mas no cumprimento de normas e dogmas estabelecidos, levando a um ritualismo: expressão vazia da mensagem evangélica.

Tudo isso nos mostra como as relações humanas são importantes para a compreensão de nós mesmos. Depois desse panorama, é importante refletirmos sobre a constituição própria dessas relações e, de maneira específica, em como a amizade nos humaniza. Vale ressaltar que a amizade é o paradigma dessa escolha pela relação que, para além de toda a obrigação gerada pelas convenções familiares, se estabelece na escolha mútua entre os sujeitos. A amizade, em seus diversos níveis, tem como elemento a gratuidade das partes e a disposição para se fazer presente na vida uns dos outros. De volta à tradição grega, podemos indicar a amizade como uma das formas de amar, determinada philia. Esse amor, que se estabelece na medida em que ambos os lados se doam e compartilham um pouco de si, gera um vínculo pessoal e social que se consolida durante toda a vida. Os amigos, por mais que teçam os laços, nunca estão respaldados por uma obrigatoriedade, ou seja, é necessário manter a relação viva, seja pela lembrança da vida compartilhada, seja pela constância do contato e da convivência.

O amor dos amigos, de igual maneira, não pode ser compreendido como um desejo incondicional. Amigo, como dizia Aristóteles, é "aquele que ama e é, por sua vez, amado" (Retórica, 1381a) e isso nos mostra que existe uma expectativa, dos dois lados, de uma retribuição do amor oferecido. Apesar da exigência de retribuição, compreende-se que a maneira pela qual cada um se envolve em uma relação de amizade é particular, e este motivo pode ser o desencadeador de um rompimento. Esperar o amor do outro na mesma medida que oferecemos, ou, esperar o amor do amigo segundo as nossas expectativas é um caminho para o desmonte futuro do vínculo.

A natureza relacional dos seres humanos, portanto, nos leva à relação com os outros e ao estabelecimento de vínculos fortes com aqueles que partilham da mesma narrativa sobre o mundo e que desejam experimentar a existência conosco. O vínculo da amizade nos faz perceber a nossa finitude, na medida em que não conseguimos dar conta dos nossos dilemas sozinhos e nos coloca em constante estado de escuta. Com os amigos partilhamos e escutamos. A amizade é uma troca de experiências na qual o outro se torna objeto constante da minha atenção e, na vida de outrem, enxergo semelhanças e diferenças sobre o meu "eu".

A amizade nos mostra que certas estruturas, como a vida cotidiana e os dilemas familiares, se repetem em contextos diversos. Com os amigos construímos histórias, partilhamos dramas, recordamos o passado e planejamos o futuro. Não há desejo de nada além da própria relação. O amigo que está presente nos momentos de alegria e dor (dualidade constante da vida humana) nos permite suportar melhor aquilo que nos é próprio e faz com que a amizade se torne um dos alicerces da nossa vida. Muitas das vezes cantamos que "amigo é coisa para se guardar" quando, na verdade, amigo é coisa para se cultivar. Não existe, na sua essência, amizade sem esforço. Não existe amizade sem doação. Não existe amizade sem perceber a vida do outro como importante.

Deste modo, percebemos que ter amigos nos transforma. Quando os laços afetivos são construídos sem a obrigatoriedade e quando a vida é partilhada, nos tornamos mais humanos. Pode parecer um pouco estranho dizer que nos tornamos mais humanos quanto mais nos relacionamos, mas é exatamente isso: o ser humano é um ser de relação. Anteriormente, vimos que Aristóteles determina o ser humano como um animal político, e, no mundo hodierno, poderíamos acrescentar que o ser humano é um animal social. A amizade é tão fundamental para a nossa existência que buscamos inúmeras maneiras de "suprir" essa necessidade de relação. Com as redes tecnológicas, criamos uma pseudo-relação na qual a "quantificação" dos nossos amigos se tornou um status. O número de conexões se tornou um indicador financeiro e passou a pautar a vida de muitos de nós, inclusive anuviando a nossa compreensão de amizade.

Apesar desse contexto, ainda escutamos muitos de nós resgatando a expressão: "amigo de verdade". Mesmo que a utilização do termo "amigo" tenha tomado um caminho diferente, nós conseguimos diferenciar aquelas relações que são profundas e nos ajudam a nos tornar mais humanos, da superficialidade das conexões "virtuais". Ser amigo é estar conectado com a vida uns dos outros e, mesmo que o contato não seja cotidiano, o interesse e a importância desse outro ser humano na vida daquele amigo é motivo de alegria e atenção. Não é sobre tempo de contato, nem sobre a quantidade, nem mesmo sobre os benefícios, mas sobre importância e amor (philia).

Se a amizade nos humaniza, não poderíamos deixar de ressaltar que Jesus nos mostrou o caminho: "não vos chamo de servos, mas de amigos" (Jo 15, 15). O modelo antropológico que o Evangelho aponta é o da "vida compartilhada". De nada adianta a fé reclusa, a piedade individual e o culto particular. O cristianismo se fundamenta na partilha entre os seres humanos, na luta coletiva pela libertação daqueles que sofrem o jugo dos poderes instituídos e pela fraternidade que garante pão aos que têm fome e justiça aos injustiçados. Se a amizade se constitui na relação entre pessoas que se conhecem mutuamente e que estão dispostas a participar e partilhar da vida uns dos outros, quando Jesus chama os seus discípulos de amigos chama toda a humanidade para a partilha da sua natureza. É o divino que partilha com o humano a sua relação mostrando que "aquele que bastaria a si" se doa a nós. A construção de relações é a nossa natureza e Jesus, ser humano em plenitude, nos mostra que a amizade é o laço que fortalece a caminhada. Por fim, com Jesus podemos aprender a dizer: amigo estou aqui! O modelo do evangelho é um modelo de amor e amizade, afinal, quem é amigo "ama e é amado".

*Daniel Couto é doutorando em Filosofia, UFMG/Capes



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