Religião

23/07/2021 | domtotal.com

O que a Covid-19 nos ensina sobre biopolítica e psicopolítica?

Aprendemos muito sobre nós neste contexto biopolítico e psicopolítico da pandemia/sindemia

Vivemos em sociedade, dela recebemos nosso imaginário social, nossas categorias de autocompreensão e compreensão do mundo
Vivemos em sociedade, dela recebemos nosso imaginário social, nossas categorias de autocompreensão e compreensão do mundo

Elton Vitoriano Ribeiro SJ*

A situação atual da pandemia/sindemia de Covid-19 no Brasil atingiu níveis trágicos. Já ultrapassamos 540 mil mortos. Por todo país, apesar do avanço da vacinação, ainda não conseguimos conter a disseminação do coronavírus. Famílias, comunidades, cidades se desestruturaram e lutam para se estruturar a cada dia diante das dificuldades biopolíticas cotidianas: mortes, velórios, tratamento intensivo, oxigenação, medicamentos, vacinação, recuperação, sequelas, isolamentos, etc..

A sociedade como um todo sofre nos corpos que a compõem. Mas, também, como um corpo social sofrido e doente, a sociedade sofre nos desempregados, nos injustiçados, nos miseráveis, nos que não conseguem tratamento para a saúde ou estão sem acesso à educação formal. Infelizmente, os exemplos poderiam multiplicar-se facilmente.

Um olhar mais abrangente para a situação, por um lado, nos levaria a perguntar pelas possibilidades de superação das dificuldades e pelos exemplos de superação de outros países. Por outro lado, somos levados a nos questionar sobre o lugar da política nesses processos todos. Entendendo a sociedade como um corpo sócio-político, como controlar sua saúde, como imunizá-la contra ataques externos e como melhorar seu equilíbrio interno? Diante da pandemia/sindemia essas são perguntas constantes. Perguntas que nos demonstram que a política invade absolutamente nossas vidas, ao ponto de alguns filósofos afirmarem que: "Fora da política não há salvação!". Sendo assim, um olhar mais abrangente, neste tempo de pandemia/sindemia, nos leva a perguntar pela biopolítica e pela psicopolítica como chaves de interpretação da nossa atual existência humana no mundo histórico.

Para começar, a biopolítica. A história desse conceito é muito rica e diversificada, especialmente, nas interpretações de Michel Foucault, Giorgio Agamben e Roberto Esposito. Trata-se aqui, brevemente, de explorar a ideia da biopolítica como chave interpretativa para a análise, a compreensão e a crítica das formas de governo e governança contemporâneas. Em outras palavras, como a administração e a regulamentação dos processos de vida da população são objetos da ação política? Para a biopolítica, a vida é afetada totalmente pela política em suas dinâmicas culturais e socioeconômicas. Medicina social, políticas públicas e melhoramento de condições sanitárias, educativas e recreativas. Planejamento de moradia populares. Ampliação e desenvolvimento de transporte público de qualidade. Bem, esses são apenas alguns exemplos. Como gosta de dizer Giorgio Agamben: "Toda política é biopolítica".

Agora, a psicopolítica. Byung Chul-Han, um conhecido filósofo contemporâneo, gosta de dizer que o neoliberalismo contemporâneo criou novas formas de poder e de controle de nossos corpos, mas, especialmente, de nossas mentes. Ele entende o neoliberalismo não apenas como uma forma de interpretar as relações econômicas da sociedade, mas como uma forma de vida, quer dizer, uma forma de narrarmos e interpretarmos a nós mesmos, nossas relações e nossas sociedades. Daí surge a psicopolítica neoliberal como forma de controle e exploração, cada vez mais refinada, das vidas humanas em sociedade. A principal característica aqui é a lógica do mercado financeiro invadindo todos os âmbitos da vida humana, tornando-a um produto mensurável e passível de melhoramento em eficácia e desempenho. O trabalho se tornou interminável. "Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização" (El País, 07/02/2018). 

Vivemos numa época de hipervalorização de indivíduos inquietos, hiperativos, eficazes e produtivos. Indivíduos que se arrastam cotidianamente realizando múltiplas tarefas importantes e indispensáveis para a justificação das próprias tarefas. Vivemos a angústia de não estar fazendo tudo o que deveria e poderia ser feito. Mais do que nunca, exploramos a nós mesmos. O sujeito contemporâneo é um empreendedor de si mesmo, ele se autoexplora alegremente o tempo todo em nome da liberdade pessoal. Não nos entendemos como sujeitos submissos a nada, mas como projetos livres que se reinventam incessantemente. Somos, ao mesmo tempo, carrasco e vítima.

Neste contexto biopolítico e psicopolítico de interpretação da nossa atual realidade - a da pandemia/sindemia - aprendemos muitas coisas sobre nós mesmos. Ressalto apenas quatro: temos um corpo, transformamos nossas vidas biotecnologicamente, somos seres sociais e, finalmente, somos mortais.

Para o antropólogo André Le Breton (Antropologia do corpo e modernidade, 1990), na modernidade esquecemos que temos um corpo que é fruto de uma construção simbólica, social e cultural. Resgatamos esse corpo na contemporaneidade, e agora sofremos nele, intensamente, como a pandemia/sindemia. Temos medo pelos sinais de restrições que o corpo nos dá como o cansaço, a fome e as doenças. Mas, agora, o medo do contágio nos isola, nos individualiza e nos fecha em nós mesmos. No entanto, transformamos constantemente este corpo, meu corpo próprio, minha vida, pela biotecnologia. A lógica da cura das doenças e do melhoramento das performances ganha mais sentido hoje. Proteger-se, vacinar-se, exercitar-se, melhorar-se, eis nossos novos imperativos, seja de saúde e bem-estar, tão importantes para os animais que somos, seja de proteção e vigilância diante do vírus e seu contágio, muitas vezes mortal.

Somo seres sociais, animais racionais dependentes. Vivemos em sociedade, dela recebemos nosso imaginário social, nossas categorias de autocompreensão e compreensão do mundo. Construímos narrativas e escrevemos histórias. Socialmente construímos conhecimento: ciências, artes, práticas, etc.. Todos os nossos conhecimentos são sociais. Na pandemia/sindemia tomamos consciência desta imensa sociabilidade global na qual estamos, absolutamente, inseridos. Ou nos salvamos todos juntos, ou juntos pereceremos. Como gostava de dizer o filósofo Hegel, eu sou um eu que é nós, e um nós que sou eu.

Finalmente, a morte, essa irmã silenciosa como dizia Francisco de Assis; que sempre é esperada, mas nunca bem-vinda, como gostava de dizer Heidegger. O tempo da vida e a consciência do fim ficaram mais exacerbados. Somos tocados diariamente pelas notícias da pandemia/sindemia, e pelos números de mortes e contágios, por exemplo.

Diante de tudo isso fica o desejo de uma nova Sabedoria Política que seja fonte de vida para a humanidade, afinal, fora da política não há salvação. No entanto, se a Sabedoria Política era uma possibilidade para os antigos que compreendiam a política como busca do bem comum, para nós os modernos, que interpretamos a política como busca do poder, parece difícil. Talvez precisemos de uma superação e elevação destes dois modelos em direção à uma Nova Sabedoria Política, por exemplo, como encontramos desenhada na encíclica Fratelli tutti do papa Francisco (2020). Mas, isso já é um outro assunto.

*Elton Vitoriano Ribeiro SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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