Religião

23/07/2021 | domtotal.com

Francisco tem um sucessor em mente. Todo papa tem

Uma análise sobre o papel que o líder do catolicismo assume na escolha de quem governará a Igreja no seu lugar

Matteo Zuppi recebe o título de cardeal no consistório de 2019, no Vaticano
Matteo Zuppi recebe o título de cardeal no consistório de 2019, no Vaticano (Tiziana Fabi/AFP)

Mirticeli Medeiros*

Não é novidade para ninguém que a maior parte do colégio cardinalício está alinhada com Francisco. Em 8 anos de governo, 7 consistórios (evento que cria novos cardeais) foram convocados pelo pontífice, dos quais saíram 101 purpurados (79 eleitores e 22 não eleitores), provenientes de 59 países.

O papa Bento XVI, que governou a Igreja por 8 anos, convocou apenas 5 consistórios, nos quais distribuiu 90 barretes cardinalícios. E somente 39 dentre aqueles que foram nomeados pelo papa emérito poderão votar num eventual conclave.

Paulo VI foi o pontífice da era moderna que mais obteve sucesso nas suas escolhas. Da sua corte de príncipes saíram 3 papas: João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI.

Será que Francisco conseguirá esse feito? Ele prepara alguém para substituí-lo?

Há dois cardeais, em particular, que merecem nossa atenção neste momento: Pietro Parolin (atual secretário de Estado) e Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha (Itália). São duas pessoas de confiança do pontífice, e para as quais, de acordo com a minha avaliação, ele passaria a tiara papal, caso existisse essa possibilidade.

O primeiro, um diplomata de renome, poderia apaziguar os ânimos num contexto de polarização, porém, sem negligenciar a reforma que Francisco instaurou. Discreto, articulado e com carreira eclesiástica ilibada, tem atributos que poderão transformá-lo num candidato ideal para concorrer ao trono de Pedro. Como mostrei meses atrás, num artigo publicado pelo Dom Total, um pontificado ousado sempre impulsiona o conclave a apostar num sumo pontífice moderado, cuja habilidade de conciliar seja técnica, não só um traço de personalidade.

Não por acaso, o século 20 viu vários primeiros-ministros do Vaticano (secretários de Estado) e embaixadores (núncios apostólicos) assumindo a liderança da Igreja Católica. Dessa forma, a nomeação de Parolin seria um modo de unir o útil ao agradável: de um lado, teríamos um curial experiente, para atender aos interesses da instituição; do outro, um fiel seguidor de Francisco, que não retrocederia frente à revolução perpetrada pelo antecessor.

O segundo é considerado "o Bergoglio italiano" por ter dedicado grande parte de sua vida religiosa às causas sociais. Como padre do clero de Roma, Zuppi atuou como pároco de uma igreja da periferia da cidade. Depois de bispo, foi assistente espiritual da comunidade Santo Egídio, uma associação religiosa italiana que se tornou braço direito de Francisco por causa de seu trabalho em favor dos mais necessitados. O atual porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, é membro dessa instituição.

Além disso, duas características os transformam em "papáveis em potencial": ambos são europeus e jovens.

Parolin tem 66 anos; e Zuppi, 65. Após a eleição de dois papas idosos, é quase certo que os purpurados preferirão alguém com menos de 77 anos. A não ser que optem por criar um outro papado de transição, como o de Bento XVI, algo praticamente improvável. Além disso, é muito difícil pensar em outro papa americano, já que a Igreja tem a forte preocupação de salvar o que resta de cristianismo na Europa. Em entrevista ao programa Roda Vida, da TV Cultura, o próprio dom Odilo Pedro Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, que possivelmente participará do próximo conclave, disse não acreditar na eleição de outro papa do "novo mundo".

Olhando para o papado contemporâneo, a partir do final do século 19, não foram poucas as vezes que o papa reinante trabalhou em vista de um substituto. Embora tal intenção nunca seja expressa pelo sumo pontífice, e tudo acabe tomando um outro rumo durante o conclave, algumas das nomeações pontifícias são articuladas para esse fim. Cabe a nós, como analistas, unirmos as decisões técnicas do papa ao perfil de quem ocupa determinados cargos na hora de criarmos uma hipótese. 

Cerca de 5 anos antes de sua morte, papa Leão XIII, por exemplo, fez o possível para que seu secretário de Estado, Mariano Rampolla, caísse nas graças dos cardeais. Seus planos foram frustrados por causa do veto do soberano do império Austro-Hungárico, Francisco José I, que, na época, juntamente com outros reis católicos, podia barrar a escolha de um candidato, mesmo que ele estivesse entre os mais votados do conclave. Anos depois, foi justamente o secretário de Rampolla a se tornar o sucessor de Pio X, assumindo o nome de Bento XV.

Seguindo a linha de sucessão dos pontífices, encontraremos Pio XII, que foi secretário de Estado de Pio XI; e Paulo VI, que atuou como uma espécie de auxiliar de Pio XII em questões ligadas às relações com os Estados.

Quando quem governa a Igreja cria uma plano de governo que só pode ser executado em longo prazo – como no caso de Francisco, que iniciou uma reforma –, nada mais justo que exista um esforço para que alguém, de confiança do papa, assuma o bastão, garantindo, assim, a continuidade do projeto.

Como estamos diante de um papado dinâmico, é bom ressaltar que essa é uma previsão que pode sofrer modificações nos próximos anos. Como Francisco é protagonista de uma mudança de era em relação ao papado, o próximo conclave pode, assim como o de 2013, surpreender a todos. Na verdade, são as próximas escolhas do pontífice argentino o que ditarão o ritmo da próxima eleição pontifícia. Resta agora saber como os cardeais conseguirão lidar com a "onda Francisco", cujo eco promete perdurar pelas próximas décadas.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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