Brasil

26/07/2021 | domtotal.com

Narrativa na oitiva

Acho que acertei quando disse aqui, certa vez, que a CPI é sucedânea do BBB da Juliette

Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia realiza oitiva do procurador da empresa Davati Medical Supply no Brasil
Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia realiza oitiva do procurador da empresa Davati Medical Supply no Brasil (Pedro França/Agência Senado)

Afonso Barroso*

Quem como eu costuma assistir às sessões da CPI da Pandemia deve ter se acostumado com uma palavrinha insistentemente repetida pelos ínclitos e doutos parlamentares: narrativa.

De acordo com os compêndios da língua portuguesa, narrativa é a "exposição de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados, reais ou imaginários, por meio de palavras ou de imagens".

Só que os cepeintes deram outro significado à expressão, que para eles quer dizer falácia, tergiversação ou mentiras. Usam-na indiscriminadamente quando querem dizer que determinado argumento não tem nenhum valor: "Trata-se apenas de uma narrativa", dizem, mesmo que os fatos apresentados sejam reais, provados e comprovados.

Mas há outras palavras, igualmente cabíveis na comissão e com a mesma terminação iva. Bom exemplo é oitiva, também muito usada pelos parlamentares como sinônimo de depoimento ou inquirição, que às vezes mais parece inquisição.

Quase nunca ou nunca se usa o termo verde-oliva, embora essa cor, também terminada em iva, esteja presente em todas as sessões, nas constantes referências aos militares que integram a administração federal, especialmente no Ministério da Pandemia. São muitos os da ativa (olha aí outro iva) que pertencem ao Centrão militar formado a dedo (ou melhor, à mancheia) pelo Governo atual. Foram arregimentados, contratados ou designados para funções civis com as quais nunca tiveram a menor afinidade.

Gastam muita saliva (mais iva) os senhores parlamentares para dizer coisas mais ou menos sem sentido, como a defesa absurda da cloroquina para o chamado tratamento precoce da Covid-19.

Numa determinada oitiva, uma testemunha descreveu, em exposição bastante cansativa, uma reunião com servidores da Saúde e cismou de chamar de comissionamento uma abusiva solicitação de propina. Era uma atitude compreensiva por parte do depoente, porque ele queria minimizar a proposta indecente de um servidor público até então nada notório.

Costuma ser abusiva a intervenção de certos senadores com a viva intenção de tumultuar o andamento das sessões. Trata-se de condenável iniciativa, mas é do jogo que com ela se conviva.

Assim vai indo, anda de vento em popa e escândalos na proa, a Comissão Parlamentar de Inquérito que apura as ações e omissões do Governo durante a matança de um vírus que não avisa quando é que se vai.

Acho que acertei quando disse aqui, certa vez, que a CPI é sucedânea do BBB da paraibana Juliette. A diferença é o fato de ser um reality integrado por personagens engomados e engravatados.

Sim, acertei na mosca, pois que a CPI da Pandemia não deixa de ser uma atração bastante convidativa. Espero ansioso sua volta ao fim do recesso parlamentar. A fim de vê-la, me posto à frente da TV, tomando meu uisquezinho (oito anos, porém honesto), no conforto da minha modesta poltrona cativa.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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