Religião

26/07/2021 | domtotal.com

Bispo dos EUA fala da 'divisão racial' da Igreja Católica

Em entrevista, dom Braxton fala de seu livro que relata como a divisão racial continua se manifestando dentro da Igreja

Dom Edward K. Braxton, de Belleville (EUA), após celebração em Roma durante visita ad limina do episcopado estadunidense
Dom Edward K. Braxton, de Belleville (EUA), após celebração em Roma durante visita ad limina do episcopado estadunidense (CNS/Robert Duncan)

Jesse Bogan*
NCR

O bispo Edward Braxton, um dos poucos bispos afro-americanos na Igreja Católica Romana, raramente fala com a imprensa. Braxton diz que não vive em um mundo binário e polarizado de "sim ou não" e, em vez disso, faz declarações em cartas pastorais e outros escritos.

"Meu pensamento é mais matizado do que algo que você coloca no noticiário da tarde", disse Braxton, que agora tem 77 anos. "Escrevo enquanto falo. Tenho um ponto de vista emocionante sobre muitas experiências".

Seus pais, da igreja batista do Mississippi, migraram para o sul de Chicago em 1941. As escolas católicas motivaram sua conversão. Braxton disse que se tornou o único afro-americano em sua turma de formatura em um seminário preparatório para o ensino médio. Lá, escolheu o filósofo Aristóteles ao invés do basquete.

Ordenado sacerdote em 1970, tornou-se estudante de pós-graduação na Bélgica, obtendo o doutorado em teologia e estudos religiosos. Ensinou em Harvard, na Universidade de Notre Dame e em outros lugares, mas finalmente percebeu que não seria feliz como padre "exclusivamente focado na vida intelectual".

Seu comportamento formal acompanhou seu papel de pastor e bispo. Para alguns, Braxton parece distante, mas fica sempre à vontade rodeado de livros e arte. Seu toque é definido pelo Pai Nosso cantado em latim. No verão passado, após 15 anos no governo, tornou-se bispo emérito da Diocese de Belleville. Anteriormente havia servido como bispo na Louisiana e bispo auxiliar em St. Louis.

Recentemente, concordou em fazer uma longa visita ao Post-Dispatch. O assunto era seu novo livro, The Church and the racial divide, que detalha algumas das reflexões que tem trabalhado todos esses anos. Braxton escreveu que o abuso sexual do clero foi a maior crise na história da Igreja Católica nos Estados Unidos desde que foi ordenado, seguido pela "reticência em falar abertamente sobre o preconceito racial sistêmico na sociedade e nas práticas da Igreja".

O bispo apresenta o último argumento em 208 páginas dedicadas aos católicos afro-americanos, "que, notavelmente, permaneceram firmes em seu compromisso com a Igreja Católica, embora a divisão racial continue se manifestando dentro da Igreja de muitas maneiras até hoje".

Por que você deu ao seu livro o nome de The Church and the racial divide em vez de The Church and racism?

A divisão racial é muito mais complexa e disseminada. A divisão racial abrange os preconceitos vagos e os sentimentos negativos que muitas pessoas têm em relação às pessoas de outras raças que não são ódio, que não levariam à violência ou prejudicariam as pessoas. Todas as pessoas, inconscientemente, vivem com preconceitos – religiosos, raciais, sexuais, sociais – mas isso nunca era representado em ataques a indivíduos ou grupos. O racismo, para mim, é evidente. A atitude psicológica e mental aberta de "Odeio essas pessoas. Desejo-lhes mal". Tenho muito mais a dizer sobre isso.

Foi o tiroteio de Michael Brown o evento que o motivou a escrever este livro?

Simplesmente me deu uma oportunidade para organizar coisas que venho pensando há muitos anos. Não foi a primeira vez que ouvi uma história ruim e dolorosa sobre um impasse entre um afro-americano e um policial que resultou na morte de um jovem. Já ouvi muitos deles. Minha experiência remonta a Emmett Till e além, mas se tornou a ocasião para reservar um tempo e organizar meus pensamentos de forma que pudessem servir à Igreja.

Seu livro mencionou casos pessoais nos quais você foi parado e questionado por caminhar e dirigir por bairros brancos. Por que não dizer quando e onde isso aconteceu?

Essa narração tem a intenção apenas de ser um exemplo para tornar o leitor ciente do meu lugar de fala. Eu poderia ter escrito o livro inteiro sobre experiências pessoais de coisas desagradáveis ditas e feitas sobre mim e sobre a minha família. Mas nunca escreveria um livro assim.

Quando menino, você foi visitar Emmett Till em Chicago, seu tio o avisou para ficar longe. Embora a região de St. Clair não fosse tecnicamente parte do Sul, havia mais relatos de linchamentos do que qualquer outra parte de Illinois. Como a divisão racial afetou sua capacidade de liderar o rebanho aqui?

Ouvi dizer que algumas pessoas podem ter dito coisas desagradáveis sobre mim por causa da divisão racial, mas nunca tive nenhum confronto direto com ninguém. Acho que algumas pessoas podem ter pensado que somos uma área de agricultura rural, mas realmente nós não estamos procurando professores de teologia. Trouxe padres missionários chamados padres fidei donum da Nigéria e da Uganda que ainda estão aqui. Houve alguns casos em que as pessoas pareciam hostis.

Você acha que foi enviado aqui para consertar uma falha na fundação?

Não.

Independentemente disso, você mexeu com a estrutura?

Sim. Ao mesmo tempo, eu diria que esse não era meu objetivo principal. Meu objetivo principal era servir ao povo de Deus como um bom e fiel padre e bispo, e edificar a Igreja ajudando as pessoas a crescerem em sua identidade e educação católica.

Uma frase que uso quase todas as vezes que visitei uma paróquia foi: "Aprenda sua fé, ame sua fé, viva sua fé". E dentro desse contexto, parte do aprendizado de sua fé é aprender sobre a dignidade e o valor de cada pessoa humana, que dentro disso aborda o preconceito racial, o racismo, a dignidade, o valor da vida por nascer, o valor da vida de uma pessoa na morte. Se você estiver fazendo isso, verá que sua fé o impele a não se apoiar em preconceitos ou no racismo.

No entanto, seu livro é dedicado ao falecido congressista John Lewis e aos católicos afro-americanos, "que, notavelmente, permaneceram firmes em seu compromisso com a Igreja Católica, embora a divisão racial continue se manifestando dentro da Igreja de muitas maneiras até hoje". Quais são alguns exemplos disso?

Você está tentando me fazer afundar na lama, algo que não quero fazer.

Um ponto principal em seu livro é não ficar em silêncio.

Eu não fiquei em silêncio. Tudo o que tenho a dizer está naquele livro.

Seu pai foi impedido de entrar nos Cavaleiros de Colombo, uma organização fraterna católica. Em vez disso, foi encaminhado aos Cavaleiros de Pedro Claver, em homenagem ao santo padroeiro dos escravos. Rejeições como essa ainda acontecem no sul de Illinois?

A condição humana como ela se apresenta é, certamente isso pode ser possível. Mas não foi algo relatado para mim. Contudo, não se esqueça de que para uma pessoa de cor ser rejeitada dos Cavaleiros de Colombo, tem que haver dentro uma pessoa de cor antes. As paróquias desta diocese são racialmente muito monocromáticas em sua maioria.

Por que não há mais católicos afro-americanos? Resposta difícil...

Assim como meus pais, pode-se dizer. Tornei-me católico muito jovem. As escolas atraíram minha mãe. Mas o mundo mudou agora.

Ser católico limitou o ativismo que você poderia liderar na questão racial?

Discuti isso com Jesse Jackson anos atrás. Meu temperamento é um tanto introspectivo e altamente refinado ou cheio de nuances. Mantenho em tensão muitas ideias complexas. Leio muito e viajo muito pelo mundo. Portanto, não posso dizer isso tão facilmente: "É isso. Vocês são todos racistas brancos, e esse é o fim da história". Não posso fazer isso porque não acredito nisso.

Quais práticas da Igreja ainda reforçam o preconceito?

O fato de as pessoas terem muito pouco contato com pessoas de origens raciais muito diferentes pode reforçar os preconceitos existentes. Temos escolas católicas maravilhosas na diocese. Temos professores maravilhosos, e os textos de história que usamos são bons e melhores do que no passado, mas não cobrem de forma clara e completa a magnitude da divisão racial. É muito difícil para a Igreja Católica não parecer eurocêntrica.

Você escreve sobre a arte sacra sem refletir na diversidade da sociedade.

Se você deseja convidar pessoas de cor para o mundo da Igreja, alguma parte dela deveria se parecer com eles? Não estou defendendo que você vá a igrejas construídas por imigrantes alemães e pegue tinta preta e pinte todos os santos e anjos. Não estou propondo nada tão simples assim. Mas há uma razão pela qual escolhi a capa do meu livro. Eu queria mostrar um Jesus afrocêntrico lavando os pés de um Pedro afrocêntrico.

Você fez a curadoria de arte mais inclusiva na diocese?

Fiz no sentido de que cada vez que tínhamos programas impressos, devíamos colocar uma arte mais diversificada. Pastoralmente, sou muito sensível às pessoas onde estão.

Parece um fruto fácil para a Igreja Católica fazer uma mudança significativa.

As pessoas têm escrito e falado sobre isso há décadas e isso não aconteceu. Acho que há uma sensibilidade de não querer parecer acusador das pessoas que estão realmente na igreja no domingo. Ainda estamos construindo igrejas por todo o país até hoje em todos os bairros e todos os anjos, todos os vitrais são pessoas que parecem europeus.

Você não teve algo a ver com a escultura do lado de fora da Catedral Basílica de St. Louis, que tem um grupo diversificado de crianças brincando ao redor da base de um "Anjo da Harmonia" alto e afro-americano?

O escultor Wiktor Szostalo o projetou e criou. Fiz sugestões, inclusive usando a imagem do meu irmão Lawrence, que morrera recentemente de câncer, como o rosto do anjo. O arcebispo na época era Justin Rigali. Ele me apoiou. Conseguimos que a Sra. Adelaide Schlafly financiasse o projeto em homenagem a seu marido.

É seguro dizer que isso foi algo que você fez para tentar tornar a Igreja Católica mais acolhedora para as pessoas de cor?

Bem, sim e não, porque poucas pessoas vão à basílica. Mas tentei, usando a arte, ajudando as pessoas a ver uma imagem diferente de todos os anjos dentro da basílica. Existem todos os tipos de anjos dentro do templo. Temos belos anjos nos esplêndidos mosaicos que existem.

Uma lição do seu livro é que é necessário fazer mais obras, e menos declarações.

Isso é verdade para a maioria das coisas. A Igreja Católica é muito boa em emitir declarações porque isso é algo que podemos fazer. É mais fácil escrever um livro sobre a divisão racial do que superá-la. É pelo encontro que as pontes são construídas.

A Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos recentemente deu notícia em seu debate sobre negar a comunhão ao presidente Joe Biden por sua posição sobre o aborto.

O que não vai acontecer. O que os bispos realmente estavam discutindo era uma carta pastoral sobre a importância da Eucaristia. Alguns sugeriram que haja um capítulo sobre receber a comunhão dignamente – se você é pecador, não deve receber a comunhão sem se confessar. Nesse contexto, alguns gostariam de discutir a ideia de que deveria haver uma proibição de dar a comunhão a pessoas que apoiam o aborto, incluindo o presidente. A ideia de uma proibição universal não existe. E não vai ser criada.

Você acha que ele deveria ter a comunhão negada?

Não. Acho que o presidente Biden deve ser lembrado de que é católico, e refletir o porquê está apoiando tão vigorosamente uma política que é diretamente contrária a este ensino claro de que o desenvolvimento da vida humana no útero deve ser protegido. Mas ele não está na minha diocese e não tenho controle sobre isso. Todavia, entendo por que os bispos têm opiniões diferentes sobre isso.

Você daria ao USCCB um "A" por tentar proteger o nascituro?

Pró-vida é um dos temas centrais dos bispos católicos. Claro, por que não?

Que nota você daria a eles sobre a redução da divisão racial?

Eles sabem que estão fazendo mais a favor de lidar com a complexa questão moral do aborto do que com a divisão racial, embora as declarações pastorais mais recentes tenham sido muito fortes e muito boas. Seria muito difícil para os bispos dizerem que todos os católicos que são supremacistas brancos em seu pensamento não deveriam ir à comunhão porque não é uma declaração legal.

Você dedica um capítulo de seu livro para o novo Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana em Washington, D.C., e sugere que os bispos passem algum tempo lá, talvez quando estiverem na cidade para uma reunião do USCCB nas proximidades.

Não quero que você pinte os bispos de uma só vez. Todos os bispos são diferentes tipos de pessoas e estão todos em diferentes tipos de dioceses. Muitos estão fazendo mais na divisão racial do que outros. Assim como outros estão fazendo mais com o aborto.

Que coisas podem fazer as pessoas comuns para reduzir a divisão racial?

Uma das coisas que acho tão difícil para as pessoas é buscar informações precisas. Devem ler mais. Se você fizer uma palestra e disser: "É claro que tem sido assim desde as leis de Jim Crow, ou tem sido o caso desde a decisão de Dred Scott", e você tem pessoas depois que dizem: "Bispo, quem é Jim Crow? Quem é Dred Scott? O que era a Passagem do Meio pelo Oceano Atlântico? Como pode ser que Roger Taney, o presidente da Suprema Corte, que redigiu a decisão Dred Scott, fosse realmente católico?" Tinha pessoas se levantando e dizendo que ele não era católico. Mas ele foi. Sinto muito. Você não pode contestar os fatos.

Publicado por NCR


Tradução: Ramón Lara



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