Cultura TV

27/07/2021 | domtotal.com

A lógica da TV na era do streaming

Apesar de tantas opções de programas, uma lacuna se impõe

Jurados de 'Making the cut': Heidi Klum (que também apresenta),  Jeremy Scott e Winnie Harlow
Jurados de 'Making the cut': Heidi Klum (que também apresenta), Jeremy Scott e Winnie Harlow (Ali Goldstein)

Alexis Parrot*

Com o advento da pandemia e o isolamento compulsório, enquanto o tempo parecia não passar, a web se tornou nossa TV favorita.

Até mesmo naqueles bolsões cujo acesso à internet ainda é negado por fatores essencialmente econômicos, o streaming (como as redes sociais) já reivindica o status de paradigma cultural de nossa era – portanto, um negócio milionário.

Entusiasmados com o êxito do modelo comercial estabelecido pela Netflix, todas as grandes corporações passaram a buscar um lugar ao sol neste novo Eldorado do consumo de informação e entretenimento. Emissoras abertas tradicionais (a Globo, a norte-americana NBC e a nórdica TV3, por exemplo), canais de TV a cabo (HBO e Discovery) e estúdios cinematográficos (Paramount, MGM, Disney) já se lançaram com ganas à nova aventura.

Da mesma forma como no passado a Sony agarrou-se à promessa de lucro do cinema, mesmo quem originalmente não se dedicava à produção audiovisual adaptou-se para abocanhar uma fatia do bolo. A Amazon (em 2010, antes mesmo da Netflix) e a Apple (a partir de 2019) também se tornaram produtoras para oferecer seus filmes e séries online. 

O terreno é tão aberto a experimentações que, na Inglaterra, a pública BBC se uniu à comercial ITV para disponibilizar programas originais de ambas em um mesmo serviço, o Britbox. No Brasil, instituições como Sesc e Itaú Cultural já possuem plataformas próprias e disponibilizam gratuitamente conteúdos culturais e educativos.

Com tanta concorrência, as plataformas se vêm obrigadas a incrementar constantemente seus catálogos em número de títulos e diversificação de temas, em um dilúvio de programação nunca antes visto. Porém, a abundância da cornucópia e a maldição do toque de Midas podem estar mais unidos do que dois aparelhos emparelhados por bluetooth

Muitas vezes nos sentimos perdidos entre tantos programas, filmes e séries, sem saber o que assistir e o que descartar; pulando de um perfil para outro e da Netflix para o Disney Plus e de volta para o Amazon Prime. A culpa da indecisão está menos em nós do que na lógica da programação das plataformas (ou mesmo da TV aberta) e de como somos instados a consumi-la.

Apesar da quantidade caudalosa de opções à disposição, uma importante lacuna se impõe. E veio do próprio streaming o que me despertou para a real questão a ser debatida.

O click aconteceu enquanto assistia a Making the cut, reality de competição entre estilistas que oferece um milhão de dólares para transformar o trabalho do vencedor na próxima marca global de moda. É uma produção do Amazon Prime, o que faz muito sentido: pouca coisa combina mais com Jeff Bezos do que megalomania e muito dinheiro.    

Ainda que os estilistas concorrentes da primeira temporada fossem mais interessantes, neste segundo ano o programa ganhou lastro ao incorporar o diretor criativo da Moschino, Jeremy Scott, à sua banca de jurados.

Ao tecer comentários sobre um desfile com criações de uma das participantes, Scott foi taxativo: "Não se vê paixão. Nem urgência. Não acho que ela tenha me convencido de nada além do fato de que realmente não tem mais nada a dizer".

A sentença do designer poderia se referir a essa televisão que assistimos hoje.

De tudo que está no ar e no streaming, o que nos convoca de fato? O que nos faz refletir? Algo se embebe dessa urgência a que ele se referiu? Devoramos temporadas e temporadas de séries com sofreguidão, porém, muito mais por inércia que por urgência.

Há algum programa que consegue gerar a necessidade de acompanhá-lo pelo que nos diz da vida e de nós mesmos? Os Sopranos nos deram isso, Breaking bad e Game of Thrones também; nos desestruturavam e surpreendiam pelo retrato pouco condescendente que faziam da condição humana. Mas e hoje? Onde a urgência? Onde a paixão?    

Há exceções, é verdade. Há programas que se tornam relevantes ao articular dramaticamente grandes questões e desafios do nosso tempo com experimentação de linguagem e posicionamento político, o pacote completo. Mas para cada Years and years, Pose e Ela quer tudo, existem 143 Virgin rivers.   

Conduzida por executivos tentando demonstrar um engajamento que não possuem, essa televisão quer ser inclusiva e diversa, sem perceber o quanto confunde crítica com correção política – daí o colour-blind do elenco de Bridgerton, todo o apequenamento do conceito original de Watchmen na transposição dos quadrinhos para a TV e a caracterização dos personagens do revival de Gossip girl.

Essa ultima, então, é um vexame. Seus criadores acharam que migrar a garota do blog para o Instagram seria o suficiente para atualizar a trama e produzir algum tipo de relevância. A alienação do roteiro é tão grande que a pretensa crítica à sociedade da selfie nem decola – de boas intenções o inferno e o streaming estão cheios. Conseguiram transformar a diversidade que dizem defender em pastiche, como se simplesmente aglomerar negros, brancos, asiáticos e representantes da comunidade LGBTQ+ nas escadarias do Met novaiorquino pudesse ser um manifesto político por si só.

Ambientada em um momento pós-pandêmico, quando o pai da riquíssima protagonista diz nunca tê-la visto tão empolgada com a volta às aulas, a garota retruca: "qualquer coisa é melhor do que ficar presa em casa por mais um ano".

Isso dito por quem mora em um luxuoso apartamento em que só o closet de seu quarto é maior que todo um imóvel da MRV já elimina qualquer chance de empatia com o público. Se antes do primeiro minuto e meio o piloto da série já produz esse tipo de retórica, o que esperar do resto?

E porque a criatividade anda mesmo em baixa, outros revivals e remakes virão. Sex and the city voltará; Dexter voltará; até Pantanal voltará.   

Será que não há mesmo mais nada a dizer?

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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