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28/07/2021 | domtotal.com

Pedro Castilho toma posse em meio a indefinições políticas e incertezas econômicas

Primeiro presidente pobre do Peru declara que pretende propor nova Constituição

Esperança para os camponeses, presidente eleito deixa mercado e investidores em suspense
Esperança para os camponeses, presidente eleito deixa mercado e investidores em suspense (Gian Marko/AFP)

Atualizada às 18h15

Pedro Castillo, um professor de escola rural que saiu do anonimato há quatro anos como líder de uma greve do magistério, tomou posse nesta quarta-feira (28) como presidente do Peru, o primeiro sem parentesco com a elite política, econômica ou cultural. O cenário é repleto de incertezas e preocupações das classes política e empresarial sobre qual será o governo formado.

Em uma cerimônia na capital Lima, Castillo assumiu um compromisso "por Deus, por minha família, por meus irmãos e irmãs camponeses, professores, patrulheiros, crianças, jovens e mulheres, e por uma nova Constituição". Castillo sucede o presidente Francisco Sagasti, nomeado pelo Congresso em novembro para liderar a nação sul-americana após semanas de turbulência política.

Em seu primeiro discurso, declarou que enviará ao Congresso um projeto de reforma da Constituição. Após afirmar que o Peru pode estar "condenado a continuar prisioneiro desta Constituição", Castillo declarou: "anuncio que apresentaremos ao Congresso um projeto de lei para reformá-la que, após ser debatido pelo Parlamento, esperamos que seja aprovado e depois submetido a um referendo popular". "Insistiremos nesta proposta, mas dentro do marco legal que a Constituição proporciona. Teremos que conciliar posições com o Congresso", afirmou o novo presidente, cujo partido Peru Livre tem apenas 37 das 130 cadeiras no Parlamento.

Nas últimas semanas, Castillo enviou sinais confusos sobre qual linha vai adotar, em alguns momentos sinalizando para sua base eleitoral e, em outros, para investidores. "Não mais pobres em um país rico", repetiu como mantra durante toda a campanha o candidato do Peru Livre, partido minoritário que se define como marxista-leninista e que superou por estreita margem Keiko Fujimori, filha do ex-presidente preso Alberto Fujimori (1990-2000), ao conquistar com mensagens simples o sentimento de indignação de milhões de peruanos.

Instabilidade

Quando Martín Vizcarra assumiu a Presidência em 2018, após a renúncia de Pedro Pablo Kuczynski, a formação de seu governo levou um tempo para ser anunciada, mas esta é a primeira vez que um presidente peruano eleito chega ao dia da posse sem fazer esse anúncio. Isso, segundo analistas, aumenta a instabilidade do novo governo e indica dificuldades para Castillo no comando do Executivo.

"Ele é um presidente da minoria, fará o juramento já debilitado, não apenas porque não tem a maioria no Congresso, mas também porque, internamente, Vladimir Cerrón - que é o chefe do partido (Peru Livre), mas não fará parte do governo por acusações de corrupção - está impondo condições. Castillo assume sem poder tomar certas posições", afirma o analista político e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Peru Fernando Tuesta.

Enquanto os peruanos ouvem as mensagens contraditórias sobre o governo que se inicia, ficam sem saber diretamente de seu novo presidente sobre os planos de combate à Covid-19 e, principalmente, as medidas para frear a instabilidade política no país, que teve quatro presidentes desde 2018. Castillo não concede entrevistas e pouco falou em público até agora. Diante desse cenário, aumenta o receio de uma nova aventura política no Peru.

A proposta eleitoral do Peru Livre se baseia em uma tríade: saúde, educação e agricultura, setores prioritários para promover o desenvolvimento nacional, segundo Castillo. Também planeja convocar uma Assembleia Constituinte para redigir uma nova Constituição em seis meses para substituir a atual, que favorece a economia de livre-mercado. A Constituição de 1993 é um legado do governo populista de direita de Alberto Fujimori, pai de Keiko.

Retomada do crescimento

Para o cientista político peruano Carlos Meléndez, a demora em definir a equipe de governo é reflexo do amadorismo político de Castillo e pode ter impactos negativos na retomada do crescimento econômico e na administração da saúde pública. "Castillo é um novato político. Os peruanos terão de sofrer os custos do aprendizado dele."

Com 51 anos, Castillo foi a grande surpresa da eleição. Nascido na região de Cajamarca, o professor primário e ativista venceu a disputa representando a extrema esquerda e prometendo políticas marxistas e leninistas, ao mesmo tempo que mantém uma visão conservadora sobre alguns temas.

Castillo costuma citar passagens bíblicas quando apela à sua moral conservadora para justificar sua rejeição ao aborto, ao casamento homossexual e à eutanásia. "Estamos orgulhosos por meu irmão ter chegado tão longe sendo um homem humilde", disse Amelia, 34, irmã do presidente eleito. Junto à sua casa de dois andares no vilarejo de Chugur, Castillo possui uma chácara de um hectare onde a família cultiva milho, batata-doce, hortaliças e cria galinhas e vacas. Com um chapéu branco típico de Cajamarca, ele percorreu as regiões do Peru, até a cavalo, para obter votos.

Sem experiência em cargos políticos, Castillo ganhou notoriedade nacional ao liderar uma greve de professores pelo país em 2017 pedindo aumento de salários. Ele nega ser chavista. Na economia, defende um papel ativo do Estado.

Nas últimas semanas, Castillo quis mostrar que não será o político radical que sua oponente Keiko Fujimori e outros políticos peruanos disseram que ele seria e se aproximou de nomes moderados para equilibrar as promessas de campanha. "No Peru, ninguém governa fazendo exatamente o que disse durante a campanha, geralmente porque são governos de minoria e não podem impor algo que não seja aprovado pelo Congresso", explica Tuesta.

A grande promessa de campanha do novo presidente é a reforma total da Constituição. Meléndez acredita que Castillo será fiel a boa parte do que prometeu, mas essa mudança não deve ocorrer de imediato. "O timing será importante para projetar uma imagem de moderação", diz.

Eleição conturbada

Castillo foi proclamado presidente há dez dias pelo júri eleitoral, que levou um mês e meio para analisar as contestações e os recursos apresentados por Keiko, candidata de direita que saiu derrotada do segundo turno. Os analistas políticos peruanos têm sido enfáticos em dizer que o impacto dessa eleição conturbada será alto, principalmente porque boa parte da população "comprou facilmente a versão de fraude" que foi apresentada.

"Estamos vivendo cinco anos de instabilidade e incertezas políticas e esta era a oportunidade de redirecionar isso. Mas este governo nasce de uma eleição complexa, com a opositora (Keiko) não reconhecendo a vitória de Castillo e (com seu partido) sendo a segunda força no Congresso. Os tempos difíceis continuarão. Cinco anos é um mandato longo para um presidente que carece de apoios duradouros", afirma Tuesta.

Meléndez segue a mesma linha. "A tensão política vai continuar, sobretudo com uma oposição que controla o Congresso e um setor dela, a ultradireita, conectada com a mobilização social de direita, o que é novo e complexo no cenário político peruano", explica o cientista político, se referindo ao fato de que essa ala da oposição conseguiu mobilizar boa parte da população que saiu às ruas repetindo as denúncias de fraude.


Agência Estado/AFP/Dom Total



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