Religião

30/07/2021 | domtotal.com

Lázaro, amigo de Jesus!

A amizade de Cristo e Lázaro era uma amizade que se sustentava na mútua transformação da vida

A cena da ressurreição de Lázaro encerra-se com a multidão estupefata com o morto que volta à vida e com pedido de desamarrá-lo e deixá-lo ir: Deixá-lo livre!
A cena da ressurreição de Lázaro encerra-se com a multidão estupefata com o morto que volta à vida e com pedido de desamarrá-lo e deixá-lo ir: Deixá-lo livre! (Free Bible Image/Lumo Project)

Reuberson Ferreira*

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
 (Vinicius de Moraes)

Passos firmes e contínuos sob o sol tépido de um dia de inverno repleto de ventos no oriente médio, encurtavam a distância entre Jerusalém e Betânia. Os caminhantes eram um séquito de homens e algumas mulheres. Pressurosos avançavam pela região montanhosa que liga as duas povoações. O silêncio e as palavras comedidas, eram o estribilho que marcavam a caminhada. De fato, temor, tremor e amor adornavam o percurso (cf. Jo 11,16). Os discípulos temem pela própria vida e tremem diante do que poderia acontecer. O mestre, eivado de compaixão, move-se pela certeza que deve reencontrar o amigo, morto há quatro dias. Ao chegar à casa a desolação é secundada pela fé e pela esperança da ressurreição. Do olhar marejado e do coração comovido de Jesus, brota um grito: Lázaro, meu amigo, vem para fora! (cf. Jo 11,43).

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O milagre da ressurreição de Lázaro é um sinal cabal de uma amizade urdida entre Jesus e aquele homem de Betânia e sua família. O relato da sua agonia, da sua morte e da sua ressurreição, denuncia a tempera que sustenta a amizade entre ambos. Uma amizade marcada pela ausência, pela presença e pela transformação da própria história.

Ao ser informado que Lázaro havia morrido, Jesus estava em Jerusalém. Era Festa da Dedicação do Templo (cf. Jo 10, 22), era inverno em Israel. Ao ser noticiado, Jesus ouve, certamente com profundo pesar, aquilo que lhe era narrado. Ele entende, como sintetizaria um poeta tempos depois, que o amigo, que procuramos, é alguém que "precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir". Jesus, cala, fala e, particularmente, ouve. Sua amizade é pautada por uma capacidade de escutar mesmo as notícias mais pesadas. Jesus, contudo, tem consciência que a mera condição de saber que seu amigo existe ou existiu, é elemento para encorajá-lo a seguir em frente. Trata-se de uma amizade calcada numa ausência que se alegra pela existência do outro.

Ao chegar à casa de Marta, Maria e de Lázaro aquela ausência transforma-se numa alegria reconfortadora pela presença amável de um amigo. A fé de Marta e as lágrimas de Maria são transformadas em esperança, pois sabem que, na dor, têm um amigo. Um amigo que se compadece com o sofrimento das irmãs e que, internamente, se comove a ponto de verter lágrimas pela dor que elas viviam. Como diria um poeta, "poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os seus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os seus amigos". Com os olhos marejados, Jesus testemunha o sofrimento, contempla o flagelo. Faz-se presença na vida e na história daqueles que sofrem. Trata-se, portanto, de uma amizade construída na empatia, na presença na hora da nauseante dor da perda de um amigo. Mais ainda, na certeza de que a amizade é um amor indiviso, presente em todas as horas, sobretudo nas dolorosas.

Por fim, as lágrimas que calam fundo na alma de Jesus, pela perda do amigo transformam-se num grito, num apelo: Lázaro, meu amigo, vem para fora! (cf. Jo 11,43). Trata-se de uma amizade que migra da dor, do sofrimento e da paralisia a uma ação transformadora. Capaz de mudar o curso da vida (e da morte) do amado amigo. Os laços de amizade que uniam Jesus a Lázaro são inextrincáveis, de uma densidade e profundidade sem limites. Eram amigos para transformar a vida um do outro. Ou como insistia o poeta é um amigo que nos bate "nos ombros sorrindo ou chorando, [...] que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive". A amizade de Cristo e Lázaro era uma amizade que se sustentava na mútua transformação da vida.

A cena da ressurreição de Lázaro encerra-se com a multidão estupefata com o morto que volta à vida e com pedido de desamarrá-lo e deixá-lo ir: Deixá-lo livre! Trata-se do fundamento último da amizade. Ela é livre! Na liberdade os amigos se fazem presentes ou ausentes e sobretudo, na liberdade, ajudam-se e transformam-se mutuamente. Assim Lázaro foi amigo de Jesus! Assim era Jesus, Amigo de Lázaro.

*Reuberson Ferreira, é sacerdote e religioso Missionário do Sagrado Coração. Mestre e Doutorando em Teologia pela PUC-SP.



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