Cultura

30/07/2021 | domtotal.com

Incêndio na Cinemateca: descaso com patrimônio cultural no país traz prejuízo

O fogo na Cinemateca não é um fato isolado; outras instituições como o Museu da Língua Portuguesa, em 2015, e o Museu Nacional, no Rio, em 2018, também queimaram

Em 2020, funcionários protestaram contra o descaso e as demissões
Em 2020, funcionários protestaram contra o descaso e as demissões Foto (Reprodução)

Ex-diretor da Cinemateca Brasileira e ex-secretário de Cultura de São Paulo, Carlos Augusto Calil, hoje presidente da Sociedade Amigos da Cinemateca, classificou o incêndio que atingiu o galpão da Cinemateca na Vila Leopoldina nesta quinta-feira, 29, como um "desastre" e lembrou que este foi o 5º incêndio sofrido pela instituição - o primeiro ocorreu em 1957. "O que se perdeu agora no depósito foi o que havia sobrevivido à inundação de fevereiro de 2020. O que a água começou o fogo terminou", disse.

O prejuízo ainda será contabilizado, mas, segundo ele, o que se perdeu, com certeza, foi algo como quatro toneladas de documentos do Instituto Nacional de Cinema, Concine, Embrafilme e Secretaria do Audiovisual. "Perdemos 60 anos de história, toda a memória da política pública de apoio ao cinema". Itens como projetores e aparelhos antigos, cópias e matrizes secundárias de filmes também podem ter sido destruídos.

Calil não acredita que o incêndio tenha sido uma fatalidade. "Assim como no Museu Nacional, isso não foi uma fatalidade. O abandono das instituições públicas brasileiras de memória é um assunto escandaloso", disse. E alertou que ainda há muito com o que se preocupar - inclusive no que diz respeito ao prédio principal da Cinemateca, na Vila Clementino, onde está o acervo inflamável. "A segurança da Cinemateca não se faz apenas com controles de temperatura e de segurança. Ela é feita pelo exame periódico desse acervo pelos técnicos, e a Cinemateca está sem técnico nenhum. Ela está fechada há mais de um ano." O cineasta completa: "Estão mantendo a Cinemateca como um doente por aparelhos. Não tem ninguém cuidando do acervo, examinando o material, que precisa ser examinado para dizer que ele está sob segurança. "Francamente, não sei o que esperar. Eu achava que tínhamos chegado ao fundo do poço, mas pelo visto não chegamos", finaliza.

Para Marcelo Lima, diretor geral do Instituto Sprinkler Brasil, esse e outros incêndios que colocaram em risco patrimônios culturais brasileiros poderiam ser evitados com investimento. "Não tem a vontade política e a vontade de gastar dinheiro com isso", afirma Marcelo.

De acordo com o Corpo dos Bombeiros, a principal hipótese é de que as chamas tiveram origem durante a manutenção do ar-condicionado do local e três salas, com material de filmes e impresso, foram completamente consumidas pelo fogo. A Secretaria Especial de Cultura disse ter pedido à Polícia Federal para investigar o problema. Em abril, ex-funcionários da Cinemateca já haviam alertado para o risco de incêndio por causa da deterioração da estrutura do museu.

Segundo Lima, a tecnologia para esse tipo de prevenção já existe mas o problema é maior e o incêndio expõe uma trajetória de descasos. "Uma goteira que fica estragando o prédio por anos não dá notícia", explica o engenheiro. Para o diretor, o perigo desse tipo de acontecimento é a rapidez com que o fogo pode se alastrar até incinerar o acervo.

O fogo na Cinemateca não é um fato isolado. Outras instituições como o Museu da Língua Portuguesa, em 2015, e o Museu Nacional, no Rio, em 2018, também queimaram. No caso do Museu Nacional, houve perda de 80% do acervo - coleções inteiras foram destruídas, como a coleção com 12 mil insetos, e itens egípcios, como múmias e sarcófagos. Marcelo Lima avalia que o setor cultural do país precisa de apoio para evitar esse tipo de incêndio no futuro. "Uma perda em um prédio desses não é simples é uma perda de propriedade de toda a população."


Agência Estado



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